Saúde  
Como tratar a cleptomania
Tema abordado na novela das oito, este transtorno do impulso é cercado de preconceitos e está associado a depressão e ansiedade
Hermano Tavares*
Claudio Gatti
Tavares: motivações não são conscientes

Apesar de sempre causar muita curiosidade, cleptomania é uma doença pouco estudada, mal compreendida e cercada de preconceitos. Recentemente em nosso meio ela vem recebendo atenção e despertando a curiosidade da população por causa da personagem interpretada por Christiane Torloni em uma telenovela.

Em psiquiatria, Cleptomania é classificada como um transtorno, uma falha em resistir ao impulso de furtar objetos que não são necessários, nem são cobiçados por seu valor monetário. O furto não é cometido por vingança, desejo de retaliação, ou para obtenção de qualquer vantagem e o paciente em geral não sabe explicar por que sua escolha por determinado objeto, ou por que o impulso aflorou naquele instante. Portanto, suas motivações não
são conscientes.

Observa-se que os objetos furtados em geral são de pequeno porte, sem valor financeiro, mas que podem ter um valor emocional ou estar identificados ao proprietário. Por exemplo: uma caneta; uma bijuteria velha, porém incomum; etc. Lojas de departamento e estabelecimentos comerciais também se encontram entre as vítimas preferenciais de um cleptomaníaco. Nesses lugares, os objetos mais comumente furtados são embalagens pequenas e brilhantes que atraem o olhar. Cosméticos e bombons estão entre os mais visados e, porque entre os cleptomaníacos predominam as mulheres, também existe uma preferência por peças do vestuário feminino, lingeries e tudo que se relaciona à identidade feminina.

É difícil determinar a freqüência desse comportamento na população, ou traçar o perfil do cleptomaníaco, por conta da culpa e vergonha que cercam o problema. Também não ajudam a cobertura sensacionalista e a exposição demasiada na imprensa dos raros casos que vêm a público – basta lembrar o caso da atriz Winona Rider. O transtorno acomete predominantemente mulheres, sendo que os primeiros sintomas se manifestam em geral na segunda metade da adolescência, ou início da vida adulta.

O cleptomaníaco raramente busca auxílio para o seu problema de perda de controle e quando isso acontece, em geral é determinado pelo estresse emocional e muitas vezes o paciente não confessa a verdadeira causa de seu desconforto.

Habitualmente cleptomania está associada a transtornos depressivos e ansiosos, complicações legais e má qualidade de vida. Seu tratamento inclui medicações para os outros transtornos emocionais associados e psicoterapia para o transtorno do impulso. Algumas medicações têm sido investigadas para auxiliar no controle do impulso, mas nenhuma ainda foi confirmada como particularmente eficaz em cleptomania. Mais estudos são necessários para um melhor conhecimento desse transtorno, mas isto somente será possível quando os pacientes sentirem-se seguros o suficiente para buscarem ajuda. É mais provável que isto aconteça quando a sociedade compreender que, de todos, o maior prejudicado pelos furtos é o próprio cleptomaníaco.

* Hermano Tavares é psiquiatra, psicoterapeuta e coordenador do Ambulatório dos Impulsos do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo

Pílulas
 

» Roubo de dinheiro não é sintoma de cleptomania. Assim como objetos de valor cujo roubo tenha uma intenção financeira

» Recomenda-se à família não flagrar o paciente. Pego no ato do furto, ele irá reagir de forma defensiva. O ideal é conversar depois e oferecer ajuda

» A família também não deve acobertar a pessoa. Deve-se pagar por um furto ou por um roubo flagrado numa loja. Do contrário, o paciente não se sentirá motivado a procurar ajuda

» É difícil falar em cura, mas existem casos de pacientes que melhoram e têm remissão completa
dos sintomas