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Televisão
O pão que o diabo amassou
João Vitti volta à tevê em Essas Mulheres e conta que, depois de fazer sucesso na Globo, nos anos 90, ficou arrogante, perdeu trabalhos e, para sobreviver, acabou vendendo pães e salgados
na escola dos filhos
texto: Jonas Furtado
foto: Claudio Gatti
“Até por imaturidade, traduzi esse deslumbramento em arrogância. Você se acha mais importante do que seu porteiro, lida apenas com quem lhe interessa”, diz
Ele teve uma das aparições meteóricas mais marcantes das novelas da Globo. Em apenas 20 capítulos como o Shampoo, de Despedida de Solteiro (1992), João Vitti saiu direto do anonimato para virar objeto de desejo de adolescentes no Brasil todo. “As meninas me paravam na rua, gritavam, vinham para cima de mim. Nem eu entendia o que estava acontecendo”, lembra o ator, que está de volta à tevê na novela Essas Mulheres, da Record.

O súbito estrelato mexeu com a cabeça do ator. “Até por imaturidade, traduzi esse deslumbramento em arrogância. Você se acha mais importante do que seu porteiro, lida apenas com quem lhe interessa. É nojento”, assume. “Em 1996, cheguei a recusar um contrato de cinco anos com a Globo por uma pequena diferença para o valor que eu recebia de outra emissora.”

Três anos mais tarde, o destino cobraria a conta. Sem trabalho e com as portas fechadas na maior emissora do País, Vitti teve uma queda brusca de renda. “Meu estado de ira aumentava à medida que o saldo da minha conta baixava. Brigava com tudo e com todos, era um demônio dentro de casa”, afirma. Até que sua esposa, a atriz Valéria Alencar, o chamou para uma conversa definitiva. Decidiram continuar juntos e buscar soluções para os problemas. Casados há onze anos, eles têm a mesma idade, 39 anos, e dois filhos: Rafael, de 9 anos, e Francisco, de 8 anos.

Vitti começou, então, a fazer pães – que ele aprendera ainda criança com a mãe –, e a vender para a vizinhança do condomínio onde moravam. Em seguida, surgiu a chance de venderem lanches e salgados na escola dos filhos. Ele abraçou a causa. “Botávamos tudo dentro de um isopor, tipo camelô, e esperávamos os intervalos no corredor para os professores e alunos comprarem”, conta. Valéria diz que a luta deles ia além do trabalho físico. “Era também uma luta contra o orgulho e para quebrar os preconceitos das pessoas, de que um artista não poderia fazer aquilo”, diz. “A coisa que eu mais ouvia era ‘João Vitti vendendo salgado? Não vai mais trabalhar, não?’ Pô, eu nunca tinha trabalhado tanto! No começo, quando ouvia isso, pegava direto no meu ego, como uma bomba. Mas aí percebi o quanto eu era arrogante. O que eu fazia ali era extremamente digno”, conta Vitti.

Recuperar a auto-estima só trouxe benefícios. Em pouco tempo, voltou a ser chamado para trabalhar como ator, inclusive na Globo, onde fez O Cravo e a Rosa (2000) e Um Só Coração (2004), até chegar à Record. “Sou uma pessoa antes e outra depois da história dos pães”, diz Vitti, antes de revelar um desejo secreto: ser apresentador. “Queria desenvolver um trabalho como o do Serginho Groissman na época do SBT. Gosto de dialogar com os jovens”, completa ele, que ainda mantém contato com diversos alunos do colégio onde teve a cantina.