28 de fevereiro de 2000
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Religião

As confissões do frade
Frei Betto lança romance policial, revela experiências amorosas, diz que opção pela castidade está em aberto e pensou em trocar a igreja pelo teatro

Gisele Vitória

Foto: Edu Lopes

Mesa cheia na sala de jantar em Belo Horizonte, no início da década de 60. Oito irmãos - seis homens e duas mulheres - acomodavam-se em torno da mãe, Stella, especialista em culinária mineira, e do pai, o juiz Antônio Carlos Vieira Christo - naquela época um homem distante da Igreja. Na cena cotidiana, Christo proclamava, como numa pregação: "Filho meu não veste saia". Quatro décadas depois, Carlos Alberto Libânio Christo, 55 anos, o dominicano Frei Betto, lembra que a frase tinha dois significados: "Ninguém podia ser padre ou bicha." Quando, em 1965, na véspera de ir para o convento, ele avisou que seria frade, o pai chorou 24 horas seguidas e calou-se por um ano. Não suportava ter um filho tão íntimo da Igreja. "Foi egoísmo, como se tivesse perdido meu filho", diz Christo, 86 anos. Convencido de que Frei Betto não anularia o casamento com a Igreja, o juiz se reaproximou do filho quando percebeu que era um religioso diferente. "É meu ídolo", diz o pai.

Frei Betto, jornalista e escritor - autor de 44 livros, com 3 milhões de exemplares vendidos em diversos países e idiomas - é dono de uma história singular. Nos últimos 30 anos, tem sido uma dos religiosos mais veementes nas críticas aos sistemas político e econômico do País. Foi preso duas vezes pelo regime militar - em 1964, por 15 dias pelo ativismo na Juventude Estudantil Católica, e de 1969 a 1973, já frade e jornalista, quando foi torturado e passou períodos de até um mês trancado numa solitária. Ali se inspirou para escrever o primeiro romance O dia de Angelo. Depois, tornou-se amigo de artistas e personalidades que vão de Luiz Inácio Lula da Silva a Chico Buarque de Hollanda, de Letícia Sabatella a Vicente Paulo da Silva. Depois das greves de 1980, já era um dos mais atuantes difusores da teologia da libertação, autor de oito romances e outros títulos, como Fidel e a Religião - que ajudou a aproximar a Igreja e o Estado em Cuba e lhe rendeu uma condecoração do governo cubano há um mês.

Já aos 14 anos fez os pais o tirarem de um colégio de classe média alta para estudar na periferia de Belo Horizonte e aproximar-se da população mais carente. "A desculpa foi que a professora de francês era melhor", conta a mãe Stella, 82 anos. Agora, Frei Betto surpreende de novo com seu primeiro policial, Hotel Brasil (editora Ática, 276 págs.), lançado há dois meses, com elogios de nomes importantes da literatura, como o escritor Raduan Nassar. Uma trama original, que começa com um cadáver degolado e com os olhos arrancados num hotel na Lapa carioca. Num texto envolvente, o dominicano descreve um estupro cometido por um pai, aventuras de uma prostituta que virou cafetina, histórias de um travesti, interrogatórios policiais e cenas de amor e sexo. "Adoro o suspense que prende o leitor", diz ele. Frei Betto, que fez as primeiras anotações do livro num hotel em Paris há 10 anos, acha graça nos leitores que não resistem a associar o tema a pensamentos pecaminosos de um frade. "Não sou um autor estreante ou um seminarista bobinho que escreveu sobre sexo", afirma. "Alguns reagiram: 'como um frade sabe tão bem sobre essas coisas?' Para mim é um elogio. Ficção é uma mentira bem contada." Tão bem contada que o livro perturbou uma mulher. Ele recebeu telefonemas de alguém se identificando como uma personagem estuprada. "Ela disse que eu desestruturei sua vida", diz. Ela parou de ligar quando a secretária de Frei Betto conseguiu acalmá-la.

Foto: Edu Lopes

Autor de 44 títulos, entre eles oito romances, Frei Betto estréia seu primeiro policial: o livro começa com uma cabeça degolada e olhos arrancados

Sua franqueza coincide com a alma progressista dos dominicanos. Foi um superior seu, Frei Alexandre Lustosa - hoje colega no convento dos dominicanos, em Perdizes, zona oeste de São Paulo, onde moram - que o aconselhou a ceder à tentação de uma paixão, quando Frei Betto tinha 23 anos. "Fiquei muito tocado por uma colega e me desabafei. Ele deu uma resposta fantástica: 'Olha, Betto, namore e veja o que você quer'", conta o dominicano. "E eu namorei. Tudo estava em aberto e tinha que experimentar." A moça, hoje casada, fazia com ele a matéria de antropologia na faculdade de Filosofia da USP. O namoro durou pouco e Frei Betto voltou à rotina. "Foi uma experiência erótica, não pensei em desistir da Igreja. Havia uma grande atração, eu a achava muito bonita", recorda. Não mudou de convento, como cogitou, ao certificar-se de que sua opção não fora abalada. "Certeza absoluta nunca terei. Um padre amigo se apaixonou aos 75 anos, deixou o ministério sacerdotal e construiu uma relação belíssima", diz. "Por mais que o celibato represente renúncias, não me sinto carente. Mas não dá para prever. Estou em aberto, mesmo gostando da vida religiosa."
Frei Betto diz não carregar mais a castidade como um peso. "Para quem está de fora, parece uma prisão, mas a vivência da castidade é exatamente a vivência do casamento", diz. "Conheço casados que vivem em celibato, pois a relação não é mais a mesma." Para cumprir o voto, ele diz que é aconselhável viver em ambientes em que o erotismo é pouco alimentado. "Não compro revistas masculinas. Não vou dizer que não aprecio o corpo de uma mulher bonita. Aprecio muito, mas o voyerismo não me faz bem espiritualmente", comenta. "Já tive sonhos com amigas e houve mulheres que se apaixonaram por mim. Algumas evitei, não por razões éticas, mas por razões estéticas. Nada pior do que ser paquerado por alguém que você quer distância, não é?", diz ele, como qualquer cristão.

Para Frei Betto, basta administrar. Em 1998, quando foi ao ar Hilda Furacão, na Rede Globo, o autor da obra, Roberto Drummond, declarou que Frei Malthus - personagem de Rodrigo Santoro que se apaixonava pela prostituta Hilda - era Frei Betto. "Sou amigo do Roberto. Éramos vizinhos e dialogávamos muito quando ele escreveu Hilda. Ele disse: 'Haverá um frade inspirado em você'", conta. "Depois saiu com essa de que eu era o Malthus e só nós sabíamos onde estava Hilda. O que mais me abismou foi a imprensa acreditar que ela era real."

O diretor teatral José Celso Martinez Corrêa recorda-se de um constrangimento amoroso vivido pelo dominicano, em 1967 - na época, nada menos que seu assistente de direção na peça O Rei da Vela, de Oswald Andrade. Segundo o diretor, a atriz Liana Duval atuava na peça e ficou apaixonada por Frei Betto: "Foi uma paixão platônica e espiritual. Logo depois, ela mudou radicalmente e virou religiosa." A sedução do frade venceu. Liana, cujos últimos papéis na Globo foram nas novelas A próxima Vítima e Torre de Babel, tornou-se ministra da Igreja messiânica em 1970 - por 20 anos -, e passou dez anos na seita japonesa Seicho No Ie. Hoje, vive na comunidade espiritual Trigueirinho, em Carmo da Cachoeira, Minas Gerais: "Betto foi uma pessoa única na minha vida. Foi uma paixão platônica, um amor lindo, que se dependesse de mim teria se concretizado e sido maravilhoso. Se ele quisesse, seria uma festa. Mas ele não podia e eu era 20 anos mais velha", conta Liana, 73 anos. "Mas quem não era apaixonada por ele? Até a Elis Regina foi."

A atriz acredita que esse amor a influenciou na opção religiosa. No período em que ficou preso, ela o visitava. Uma vez, chegou de calça comprida - na época, traje proibido para mulheres nos presídios - arregaçou as calças até acima dos joelhos e vestiu um sobretudo por cima. "Só assim o vi." Frei Betto diz que sabia que ser frade despertava um interesse incomum: "A Liana deixava muito claro que existia algo, mas ficamos amigos e as pessoas fizeram muita marola." O ator e autor Renato Borges, que fazia o papel principal na peça, diz ter sido confidente da atriz: "Foi paixão séria. Ela, que era uma mulher fogosa e linda, tentou até dar uns malhos nele num carro. Nós tínhamos o desejo de ver o Betto soçobrar nas garras de Liana Duval, mas ele foi mais forte."
Duas vezes por dia, o frade se recolhe e, em posição de iogue, medita por meia hora. "Rezando, sinto a experiência do amor", descreve. Segundo ele, a opção religiosa foi realmente posta à prova quando teve de escolher entre a Igreja e o teatro. Ao trabalhar com Martinez, pensou em desistir da vida religiosa. "Soube disso há pouco tempo", diz Martinez. "Ele seria um ator extraordinário. Participou de laboratórios." Renato Borges lembra de um Frei Betto rigoroso com o elenco, que esperava mais suavidade de um frade: "Ele falava: 'Você está canastrão, está horrível'. Era mais radical que o Zé Celso."

Embora conciliasse outras funções com a religião, achou que com o teatro não daria. "Teria que mergulhar", diz ele. "Mas veio a prisão, que me curou da tentação." Quando Frei Betto estava preso, José Celso Martinez recebeu um cartão dele, no qual contava que estava fazendo greve de fome. O dramaturgo, quando abriu a carta, tentava convencer o poeta e escritor Luís Fernando Guimarães, numa crise nervosa, a não queimar seus escritos: "O Betto escreveu: 'Só o amor transfigura o inferno'. Li para o Luís e ele não queimou os papéis."

O jornalismo também balançou o frade. Na chefia de reportagem de um jornal paulista, chegou a ganhar salário capaz de sustentá-lo e mais cinco frades num apartamento na rua Rêgo Freitas, no centro de São Paulo. "Com esse dinheiro todo, ficava pensando em construir outra vida", recorda. Era recente sua entrada para a Igreja, incentivado pelo vínculo com os dominicanos, quando era da Juventude Estudantil Católica. "Estou na ordem dominicana há 35 anos, não tenho nenhuma saudade da família que não constituí." Frei Betto não é padre porque preferiu a evangelização nas pastorais à rotina sacerdotal.

No convento, Frei Betto acorda às 6h. Faz com dez frades a primeira oração às 7h, na capela reservada. Às 12h15, mais uma. À tarde, reza e recolhe-se no pequeno quarto com seu nome na porta, onde há uma biblioteca, uma cama, um armário, um computador e um telefone. Avesso à televisão, não tem o aparelho e nem aceita dar entrevistas às tevês. "Prefiro não parecer vedete para a população pobre", diz ele. Fora da rotina, tem seus grupos de orações, nos quais estão as atrizes Letícia Sabatella e Odete Lara. Viaja para conventos em outros estados e casas de amigos para escrever. É tão metódico para abrir e fechar portas do convento quanto para executar sua literatura. Agenda 120 dias do ano para se isolar. "Escrevo, cozinho e rezo", diz. Os demais dias reserva para a pastoral operária do ABC Paulista, movimentos como o dos sem-terra e para visitar comunidades carentes.

O convívio com amigos intelectuais e artistas é igualmente freqüente. Com o psicanalista Jorge Forbes e o escritor Raduan Nassar forma uma habitual turma. Às vezes integrada por Chico Buarque, seu compadre - Frei Betto é padrinho de Helena, filha de Chico e mulher de Carlinhos Brown. Se encontram em restaurantes ou quando Frei Betto é intimado a preparar almoços ou jantares na casa de um deles. Jorge Forbes conta que há um ano, em Belo Horizonte, após Chico e Raduan se apresentarem numa leitura de textos dos dois, escolheram um restaurante afastado, o Xapuri, para jantar. Chico foi descoberto e assediado. "Betto dizia que ia cobrar R$ 10 reais por autógrafo e mandar o dinheiro às creches em São Paulo", conta Forbes. Um dia depois, o dominicano levou Raduan para um mercado em Belo Horizonte. "Conheci a lingüiça de Formiga e a goiabada mineira. Foi delicioso", diz Raduan. "Nos conhecemos há três anos e me sinto um amigo de infância."

Recentemente, Frei Betto pregou uma peça em Raduan. Jorge Forbes negociava a escolha de um restaurante distante da casa do escritor, em São Paulo para os três almoçarem. Frei Betto, que queria um lugar para fumar seus charutos cubanos, deu sua sugestão a Forbes. "Raduan gosta de restaurantes simples. Para convencê-lo a ir, disse que era sugestão do Betto", conta o psicanalista. Para surpresa do autor de Um Copo de Cólera, ao chegar deparou-se com o Antiquarius, um dos restaurantes mais sofisticados de São Paulo. "O Betto não dissocia as boas coisas da vida, como um bom restaurante, do seu papel junto aos necessitados", afirma Forbes. "Ele sabe separar sua responsabilidade social da hipocrisia de um falso mártir."

Camarão à provençal, tutu à mineira e coq au vin são os pratos mais solicitados pelos amigos. O talento foi herdado da mãe, autora de oito livros de culinária. Seu tutu à mineira é um dos preferidos de Luiz Inácio Lula da Silva. "O Betto é um malandro. Diz que é ele que faz, mas a gente é obrigado a cortar cebola e alho", brinca Lula. A amizade com o presidente de honra do PT nasceu em 1979, nas greves dos metalúrgicos do ABC. Até então, Lula o conhecia de nome. "Levei um susto ao ver aquele toquinho." Frei Betto estava na casa de Lula quando o então sindicalista foi preso. Foi ele quem o acordou e avisou que a polícia estava lá. "Me chamou, mas virei de lado para dormir de novo. Aí repetiu firme que iam me prender", conta. Hoje, Lula conta que Frei Betto nunca esquece as datas de aniversário de cada um de seus filhos. "Somos irmãos e é a pessoa mais solidária que conheço."

Envie esta página para um amigoPadrinho de Pedro, 3 anos, filho caçula do presidente da CUT, Vicente Paulo da Silva, o Vicentinho, Frei Betto o conheceu igualmente nas greves, quando o então diretor do sindicato dos metalúrgicos do ABC era seu aluno de oratória. Vicentinho conta que Frei Betto lhe emprestou dinheiro para comprar sua casa em Diadema, em 1981. "Ele disse: 'Tenho um dinheiro guardado e você me paga quando puder'", lembra o sindicalista, que define o amigo como humilde entre os humildes e grande entre os grandes: "Ele será lembrado daqui a 100 anos".

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