28 de fevereiro de 2000
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Entrevista: Nelson Motta

"Música sertaneja é zero em tudo"
O jornalista e produtor cultural diz que seria hipocrisia contar a história da MPB sem falar em drogas

Luís Edmundo Araújo

Foto: André Durão

Ele é amigo de João Gilberto, lançou Marisa Monte, batizou o Tropicalismo de Caetano Veloso, Gilberto Gil e companhia, teve um caso com Elis Regina, já tirou o violão da mão de Chico Buarque e conviveu intimamente com a maior parte dos personagens que fizeram a história da música brasileira nos últimos 40 anos. Aos 55 anos, o jornalista, produtor cultural, letrista e inventor de modismos Nelson Motta pode se orgulhar de ter participado efetivamente do surgimento da bossa nova, na década de 60, do estouro da Música Popular Brasileira nos idos de 70 e do nascimento do rock nacional nos anos 80, entre outras loucuras. Interessado em escrever um livro sobre Tim Maia após a morte do amigo, em 1998, o jornalista mudou de idéia devido à falta de entendimento com os herdeiros do cantor. Nelsinho decidiu transformar seu projeto inicial num livro sobre a experiência nos bastidores da música nacional entre os anos de 1958 e 1992, quando decidiu deixar o País para morar em Nova York. O que seria uma biografia de Tim Maia virou Noites Tropicais, o livro que acaba de ser lançado por Nelson Motta. Em entrevista a Gente, o jornalista - casado pela terceira vez, com a consultora de moda Costanza Pascolatto, 60 - criticou os sertanejos de hoje, falou de sua experiência com as drogas e, é claro, dos músicos e suas histórias.

Como surgiu a idéia da biografia musical?
Queria fazer um livro sobre Tim Maia quando ele morreu, mas começou a ter confusão com os herdeiros dele. Tudo dele é mesmo confuso. Então, achei melhor um livro não só com o Tim, mas com todos esses personagens que são amigos meus e com quem eu convivi nesses anos. Tim acabou ficando como um dos personagens principais e certamente o mais engraçado.

Qual a história dele que você destacaria?
Tem uma ótima do tempo em que eu produzia o programa Chico e Caetano, na Globo, no meio da década de 80. Era a época em que um programa semanal com Chico Buarque e Caetano Veloso passava em horário nobre, em rede nacional, e todo mundo gostava. No programa em que o Tim seria o convidado, ele apareceu no ensaio, no Teatro Fênix, já doidão, mas maravilhoso e hilariante. Cantou, brincou, deu vários esporros daqueles de 'mais grave, mais agudo' e foi ótimo. Só que na gravação para valer ele não apareceu. Pusemos no ar a participação dele no ensaio e aquele foi o melhor programa. O Tim foi a maior estrela do programa embora não tenha ido à gravação.

Elis Regina é outra personagem marcante no livro. Como foi seu relacionamento com ela?
Fui muito cuidadoso ao contar isso no livro, até porque adoro o João Marcelo Bôscoli, filho da Elis. É como se ele fosse meu afilhado. Da minha parte, foi um sentimento enorme, me apaixonei pela Elis quando comecei a trabalhar com ela, em 1971. Posso falar dos meus sentimentos em relação a ela, que eram os melhores possíveis, de amor, admiração, companheirismo. Uma das passagens mais tristes do livro é a morte e o enterro da Elis. Várias pessoas me disseram que choraram ao ler esse capítulo.

Quanto tempo você e Elis ficaram juntos?
Menos de um ano. Para o livro, nosso caso só tem importância porque mudou o rumo da carreira dela completamente. A Elis era muito MPB e ficou mais pop e soul nessa época, começou a gravar Tim Maia e cantar músicas que não cantava. Conto a vida dela desde que ela chegou ao Rio, com 17 anos. Contei nosso caso também para mostrar como a Elis sempre misturou a música dela com o coração. Foi assim também com o Ronaldo Bôscoli e com o César Camargo Mariano, quando ela teve a melhor fase da vida dela, uma grande identidade musical.

Ao contrário do que fez com Elis Regina, você apenas sugere no livro o relacionamento com a cantora Marisa Monte, que você lançou. Por quê?
O que está no livro é até onde vou ao falar da Marisa. Minha visão do meu encontro com ela, do trabalho, do relacionamento humano é o que está ali, do meu lado. É uma querida amiga minha, uma grande artista. Me orgulho muitíssimo de ter colaborado com o início da carreira dela.

A atriz Marília Pêra também é citada no livro...
Contei sobre o show que eu produzi em 1976, com a Marília cantando. Foi um fracasso total, mas foi um dos primeiros shows da banda Vímana, que acompanhava a Marília. O conjunto era formado pelo Lulu Santos, Ritchie e pelo Lobão, e marcou o início do rock brasileiro. Nessa época, aliás, o Lobão era um garoto tranqüilo, que estudava violão clássico, e o pai dele não deixava ele viajar para São Paulo de jeito nenhum. Tive de assinar um papel me responsabilizando por tudo o que o Lobão fizesse. O pior é que ele diz que tem esse papel até hoje. Imagine, eu responsável pelos atos do Lobão! Pior que isso, só ser avalista dos Novos Baianos!

Qual o papel das drogas na música brasileira?
Seria uma hipocrisia querer contar a história da MPB nos últimos 30 anos sem falar nas drogas. A bossa nova era movida a uísque, totalmente alcóolica. Inclusive, vários artistas se tornaram alcoólatras. Depois, nos anos 70, foi a vez da maconha e do ácido lisérgico. Quase todo mundo teve nisso, muitos entraram e saíram, muitos entraram e ficaram. Já o rock Brasil e a discoteca dos anos 80 foram movidos a cocaína. O RPM acabou de tanta cocaína. Mas tudo o que aconteceu no Brasil nesses anos aconteceu no mundo todo. A droga foi um fator determinante, ligado às gerações e à época.

E você também experimentou tudo isso?
Entrei nessas ondas todas e saí. Por isso, fico à vontade para contar. É difícil sair dessas, mas no meu caso não foi tanto. Me mudei para Roma, onde morei durante dois anos, em 1983 e 1984. Estava num cenário maravilhoso, onde não conhecia ninguém, então foi mais fácil sair. Só fiz mal a mim mesmo no período em que usava drogas. Nunca deixei de pagar minhas contas e sempre me comportei direito. A droga não é incompatível com uma vida civil.

É verdade que foi você quem deu o nome ao movimento tropicalista?
Estava num bar do Jardim de Alah, no Leblon com o Glauber Rocha e o Luiz Carlos Barreto. Era janeiro de 1968 e, além do disco Tropicália, do Caetano e do Gil, a peça O Rei da Vela estava sendo encenada e o filme Terra em Transe, do Glauber, estava em cartaz. Tinha todas as características de um movimento artístico. Ficamos a noite toda bebendo chope e bolando uma festa para marcar tudo o que estava acontecendo. No dia seguinte, não tinha assunto para preencher minha coluna semanal no jornal Última Hora e escrevi sobre a noite anterior. O título da coluna foi Cruzada Tropicalista e todo mundo levou a sério. Acho até que o Caetano não sabe até hoje que a falta de assunto motivou o nome.

O livro termina em 1992, quando você deixa o País para morar em Nova York. Por que o exílio voluntário?
Porque era o governo Collor, a pior decadência moral e política do País, minha pior crise econômica em 50 anos de vida e, na música, o auge do sertanejo. Embarquei para Nova York no mesmo dia em que todos saíram às ruas de preto, protestando contra Collor.

Você é conhecido por transitar normalmente entre várias tendências musicais. Por que a crítica ao sertanejo?
Os critérios para avaliar uma música popular são melodia, letra, ritmo e harmonia. O sertanejo é praticamente zero em todos os quesitos. Reconheço até que o gênero tem alguns intérpretes de grande talento, que sabem cantar, mas as melodias são pobres e as letras são paupérrimas. O ritmo é praticamente inexistente, são baladas melancólicas. Em termos de harmonia o ritmo é indigente. Sobra muito pouco para o meu gosto, mas não quero convencer ninguém, só falo o que acho.

Como é o casamento à distância com Costanza Pascolatto. Você vivendo em Nova York e ela em São Paulo?
No total costumamos ficar seis meses por ano juntos, sempre numa boa. Ou na Europa, ou em Nova York, ou em São Paulo - na casa dela -, ou no Rio. Estamos juntos há quatro anos, casados desde o ano passado, e é maravilhoso. Devo muito a ela, porque nesses quatro anos a Costanza me deu amor, paz e segurança suficientes para escrever três livros nesse período.

Envie esta página para um amigoA vida dupla vai continuar, entre Nova York e o Rio?
Quero passar mais tempo no Rio para curtir meu neto Joaquim, mas tenho minha vida em Nova York também. Lá é ótimo para trabalhar, ninguém me conhece e ninguém me chateia.

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