Saúde  
Beber água demais faz mal?
Artigo do The New England Journal of Medicine diz que ingestão exagerada de água é prejudicial. Mas o recado
é para maratonistas
Paulo Zogaib
Divulgação
Paulo Zogaib: não deixe de beber muita água
Um recente artigo publicado no The New England Journal of Medicine
por pesquisadores da Universidade de Harvard nos Estados Unidos vem causando preocupação aos praticantes de atividade física, pois diz que a ingestão exagerada de água pode trazer prejuízos à saúde. Apesar de parecer nova descoberta, o tema é bem discutido nos meios científicos
e já foi motivo de muitos estudos e discussões em congressos médicos. Tanto assim que a posição oficial do American College of Sports Medicine (Colégio Americano de Medicina Esportiva, um dos órgãos mais respeitados na área) se modificou há cinco anos.

Quando um organismo faz atividade física, aumenta a produção de energia para que os músculos possam se contrair. Mas, como todas as máquinas, essa produção de energia gera calor, e esse calor eleva a temperatura corporal causando prejuízos à saúde e ao próprio desempenho. O principal mecanismo de eliminação do calor é a transpiração. O suor molha a pele, e quando evapora, “rouba” calor do corpo, diminuindo a temperatura corporal. Quanto maior a intensidade e ou a duração do exercício, a temperatura ambiente e a umidade relativa do ar, maior será a produção de energia, de calor e a perda de suor, podendo levar o organismo a um estado de desidratação, que é tão prejudicial quanto a hipertermia (aumento da temperatura corporal). O suor contém minerais, como o sódio, o potássio e o cloro, fundamentais para o bom funcionamento do organismo. Grandes perdas de suor levam a grandes perdas desses eletrólitos. Isso pode levar à hiponatremia, diminuição de sódio no sangue, causando cãibras, fadiga, incoordenação motora, confusão mental e arritmias cardíacas. É o mesmo quadro clínico que pode ocorrer em crianças com diarréias intensas, tratadas com o soro caseiro (uma colher de café de sal e uma colher de sopa de açúcar em 1 litro de água).

O ideal é que o organismo se mantenha em equilíbrio, ou seja, que antes, durante e após a atividade física permaneça nas condições normais, de temperatura, de conteúdo de água e dos eletrólitos (minerais). Comparemos o organismo em atividade física com um balde de água do mar com uma torneira na base:

1ª situação: As quantidades de água perdida e a da reposta são pequenas e iguais. Mesmo que se utilize somente água doce, não alteraremos significativamente a condição inicial.

2ª situação: A quantidade de água perdida é pequena, e a da reposta é grande. Se utilizarmos somente água doce, vamos diluir a água salgada e modificar muito a composição total do conteúdo.

3ª situação: As quantidades de água perdida e reposta são grandes. Se usarmos só água doce, alteraremos completamente o conteúdo do balde.

4ª situação: A quantidade de água perdida é grande e a da reposta pequena. Independente do tipo de água usada, o balde ficará praticamente vazio.

Além dos fatores externos descritos, deve-se levar em conta variações individuais, grau de condicionamento, adaptação a ambientes quentes e úmidos e características biológicas, que determinarão o grau de desidratação e de perda de minerais. Perdas acima de 2% do peso corporal requerem cuidados maiores na hidratação, como a reposição de minerais, além da água.

Paulo Zogaib é médico especialista em Medicina Esportiva e Fisiologia do Exercício, professor da
Escola Paulista de Medicina – UNIFESP - e coordenador do Centro de Medicina do Esporte do
Hospital Sírio Libanês

Pílulas
 

» Para se saber quanto de água deve-se ingerir é necessário calcular quanto se perdeu, pesando-se antes e após a atividade física. (PESO antes) – (PESO após) – (Quantidade de líquidos ingerida) = (Quantidade de líquidos perdida)

» Se essa quantidade exceder a 2% do peso corporal deve-se ingerir uma bebida isotônica, ou seja,
que contenha sais minerais e que tenha a mesma concentração do suor (soro caseiro)

» O suor excessivo leva a grandes perdas de sódio, potássio e cloro no organismo. Isso pode
causar hiponatremia

» Variações individuais também determinam o grau de desidratação