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Arrojado
Adrià, o inventor da cozinha da desconstrução:
o menu surpresa de 2005 tem caipirinha que
se mastiga, pão de queijo gelado, bolacha que
formiga a língua e prato servido
em balão inflado |
Para uma mesa de comensais brasileiros, Ferran Adrià
começa seu espetáculo com uma caipirinha.
Mas calma, como tudo em sua cozinha, nada é o que
parece. Postada na cabeceira, a garçonete encosta
um apoio sobre o qual estão uma garrafa de 51, outra
com nitrogênio líquido e uma cuba dentro da
qual se encontra suco de limão. Para limpar o paladar,
os garçons servem uma minúscula balinha de
estragão, enquanto a garçonete mistura os
ingredientes. Envolto pela névoa de nitrogênio
evaporado, o ambiente toma ares de
laboratório futurista.
A “Caipirinha-nitro com Concentrado de Estragão”
é servida como um sorbet, dentro da casca
de um limão inteiro. O chef que inventou
a cozinha de desconstrução (leia quadro à
página 79) e fez do seu restaurante de vanguarda
o lugar mais procurado por gourmets de todo o mundo,
preserva o sabor do mais clássico aperitivo brasileiro,
mas faz dele uma bebida para ser mastigada.
Escondido à beira de uma bonita baía, entre
as escarpas da Costa Brava, quase na fronteira entre a Espanha
e a França, o El Bulli está a duas horas de
carro de Barcelona e tem uma fila de espera de mais de dois
anos. Metade de seus lugares são destinados a espanhóis,
e a outra metade, a estrangeiros. E metade fica com novos
clientes – a outra metade é para quem retorna
para conhecer as criações do ano. Alguns brasileiros
já têm lugar cativo. “Dos oito melhores
gourmets do mundo, dois são brasileiros”, garante
Adrià, que, mesmo indagado, não revela seus
nomes.
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Clássico
O salão principal: apenas 50 jantares
por dia (60 no verão) a mais de R$ 500 por
pessoa, fora vinho |
De abril a junho, o El Bulli funciona cinco noites na semana
e, de julho a setembro, abre diariamente para o jantar.
Possui 50 funcionários (60 no verão), mas
Adrià recebe, pela internet, pedidos de cinco mil
jovens chefs e estudantes que desejam trabalhar
com ele. Numa temporada, 20 deles terão a chance
de um contrato provisório e, ao final do ano, somente
dois ou três tirarão a sorte grande de se incorporar
à equipe permanente.
A cada dia, apenas 50 pessoas pagarão 155 euros
(aproximadamente R$ 535, fora o vinho) para se deliciar
com um menu surpresa de três dezenas de pratos. Nem
todo mundo vai gostar de todos os pratos, mas, ao final,
quando seu menu degustação tiver desafiado
os cinco sentidos do gourmet ficará consagrado
que não existe nada igual a Ferran Adrià.
O olfato – No meio do menu, os
garçons entregam a cada comensal um balão
branco (por vezes, ele o substitui por luva de borracha).
Na seqüência, o maître passa com
uma tesourinha de ponta redonda, cortando o bico do balão.
“Ar de Laranja” é para ser inalado, um
passeio pelo pomar que marca a pausa entre uma sucessão
de 18 aperitivos e bocaditos e o início dos pratos
mais volumosos.
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Futurista A cozinha
do El Bulli: equipamentos inusuais como máquina
de fazer algodão doce
e conta-gotas |
O tato – Dos 33 pratos servidos
no menu de domingo 10 de abril, 12 iam à boca com
a ajuda das mãos. “Espiral de Azeite”,
por exemplo, tem a cor e a forma de uma delgada mola de
aço, feita para cobrir todo um dedo, como se fosse
um anel gigante. De tão frágil, quebra ao
se fechar a boca, onde revela-se, enfim, um azeite levemente
adocicado. Existe um festival de texturas e temperaturas,
mas, contrariando Adrià, talvez seja mais recomendável
tratá-las como elementos do paladar.
A audição – Criador
de reconstruções gelatinosas e de molhos espumosos,
Adrià pincela seu menu com alguns elementos crocantes.
“Orelha de Coelho Frita com Ervas Secas Aromáticas”
é, até pelo simbolismo do produto, o melhor
exemplo – uma orelha de coelho desidratada, servida
em pé para lembrar sua forma natural, barulhenta
e saborosa como um grande torresmo.
A visão – Tudo em sua cozinha
é feito para os olhos. A começar pelo seu
espaço de trabalho. Ao contrário de quase
todos os chefs, Adrià não vai à
mesa, os clientes é que vão até ele.
“Gosto que os visitantes comecem pela cozinha”,
explica. “Para ver que aqui existe muito trabalho
e profissionalismo.” A cozinha parece um laboratório
em branco, preto e inox. Seu centro nervoso é constituído
por quatro grandes chapas de aço, onde se cozinha
e se prepara quase tudo. Mas a ousadia das suas criações
pode ser traduzida pelo ambiente auxiliar onde estão
instrumentos inusuais: um teppannitro (chapa gelada), maçaricos,
conta-gotas, balanças de precisão e uma máquina
de fazer algodão doce (usada para preparar o coco
que, servido numa taça de Dry Martini, encontrará
uma bola de rum sobre a qual será derramada o suco
de abacaxi do “Algodão Doce que se Vai”
– uma Piña Colada.
Nos pratos, Adrià pinta composições
que remetem a outros espanhóis – Miró,
Picasso, Tapiès. “Tierra 2005”, uma das
suas novas criações, é um foie
gras gelado e gelatinoso, coberto por quatro farofas
cujas cores retratam diversos tipos de solos da Espanha.
Num prato preto, as farofas estão dispostas como
uma composição abstrata e um sous-plat branco
em formato de travessa faz as vezes de moldura.
O paladar – Um jantar de 33 pratos
no El Bulli é uma viagem de texturas, temperaturas
e sabores que alcançam toda a gama de sensações
que o paladar pode propiciar. “Olivas Esféricas”,
criação deste ano, é uma massa de azeitona
em conserva de alho, alecrim e casca de laranja, gelatinosa
por fora e líquida por dentro, que explode na boca.
“Leite Elétrico” é uma seca bolacha
de leite com pimenta de Schezuan, sobre a qual não
se pode nem comer, nem beber nada durante um minuto. Depois
deste tempo, ela faz formigar a língua e as bochechas,
como se fossem leves choques elétricos. “Trufa-nitro
Coulant de Pistache” é uma grande bola de gude
verde, que revela um abacate no ataque e um pistache no
final. O “Pão de Queijo” é servido
espumoso e gelado numa caixa de isopor e sobre esta massa
se espalha, a gosto, framboesa fresca, nozes e cristais
de frutas. Come-se com colher, como sorvete. “Cigala
Unilateral com Espuma de Chá Mate” é
um king prawn inteiro, servido quente e aberto
ao meio. Ela contrasta com o gelado da espuma, o que reforça
a distância entre mar e montanha, e, ao mesmo tempo,
suaviza as diferenças pela harmonização
dos perfumes da lagostinha e do
mate verde.
“Isto aqui é uma loucura”, diz Adrià.
“São quatro livros e cinco mil páginas
para quem quiser entender todo este mundo.” Ele reconhece
que um jantar seu, portanto, é para a memória,
porque não é uma refeição normal.
“Quero estar na vanguarda para que outros possam ser
criativos no dia-a-dia”, explica. Até o início
de julho, ele ainda poderá passar duas noites por
semana em Barcelona, mas no auge da temporada ficará
12 horas por dia no El Bulli e viverá, com a mulher,
na casa anexa ao restaurante. O gênio de 42 anos não
fez ainda um pequeno herdeiro, e se explica: “Vivo
por e para a bodega”. Nos seis meses em que não
está no El Bulli, pesquisa pratos, concede a maioria
das mil entrevistas que dá por ano e gere seus serviços
de bufê (recepções refinadas na Europa
são freqüentemente feitas com seus produtos)
e o Fast-Good, a lanchonete que abriu no ano passado em
Madri.
Depois de uma rápida visita há cerca de
três anos, ele sonha em voltar ao Brasil em seis ou
oito anos, quando tiver ganho o suficiente para “comprar
a liberdade”. “Não trabalho nem por ego,
nem por dinheiro”, diz ele. De fato, se quisesse cobrar
quatro vezes mais pelo mesmo menu, haveria no mundo quem
lotasse sua casa todos os anos. Mas Adrià saboreia
o sucesso como se debochasse dos milionários. “Luxo
é o que queremos a cada momento”, diz. Mesmo
para os muito ricos, o El Bulli é um luxo raramente
disponível. Gênio indomável
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