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Carreira
Em paz com a passagem do tempo

O ator Walmor Chagas comemora 55 anos de profissão com peça em São Paulo e no ar em
Mad Maria, na Globo, e conta os fracassos como pecuarista, agricultor e dono de pousada
texto: Rodrigo Cardoso
foto: Claudio Gatti

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Aos 75 anos, o ator completa 55 de carreira: “O
Dostoievski de agora é o Aguinaldo Silva às oito da
noite. Não sei se é ruim ou não. O pessoal adora”, diz
O meio no qual ele conviveu fez a cabeça com a literatura do século XIX. Faz 55 anos – tempo que tem de carreira – que o ator gaúcho Walmor Chagas se delicia com os escritores Sartre, Dostoievski, Tolstoi. Na quinta-feira 17, ele irá comemorar a data em seu habitat: o palco. Na estréia de Um Homem Indignado, Walmor falará sobre a decadência da palavra, patrocinada pela avalanche cultural made in Estados Unidos, que tem na imagem a nova formadora de opinião. “Não sou daqueles que viram Irmãos Coragem. Sou dos que leram Os Irmãos Karamazov”, conta o ator de 75 anos, referindo-se ao livro de Dostoievski. “O Dostoievski de agora é o Aguinaldo Silva às oito da noite. Não sei se é ruim ou não. O pessoal adora.”

Há 12 anos, Walmor se considera fora dessa jogada, não freqüenta mais São Paulo ou Rio de Janeiro. Mora no meio do caminho, em Guaratinguetá (a 250 km do Rio e 170 km de São Paulo) numa fazenda de 33 alqueires. No ar na minissérie Mad Maria, na qual vive um cientista americano, Walmor só sai do meio do mato – são 20 alqueires só de floresta – quando lhe é oferecido um papel cuja história já esteja escrita, para que possa estudá-lo. “Não agüento esse burburinho, essa histeria urbana, onde as pessoas estão sempre politicamente corretas. Como diz Fernando Pessoa, ‘a cinematografia das horas representada por atores de convenções e poses determinadas’”, diz. “Não tenho religião, sou ateu. O meu ‘Deus’ é o Fernando Pessoa.”

Foi escutando os passarinhos, vendo as plantas crescerem em seu pedaço de terra, que o ator deixou a idade chegar e percebeu que, com ela, precisava de menos sono, menos comida para viver bem. “Me sinto um velho que quer descanso.” Lá, ele passa o tempo escrevendo, lendo e ouvindo música. “Mas o que gosto de fazer é nada”, diz.

Houve um tempo, porém, em que ele tentou se aventurar como criador de gado, produtor de banana e dono de pousada. Fracassou. Primeiro, comprou 13 bois e só mais tarde soube por um vizinho que só começaria a ganhar dinheiro depois de mil cabeças. “Não tinha onde colocar isso tudo.”

Em seguida, como possuía um bananal enorme, permitiu que o caseiro levasse mil bananas para vender numa feira. “Quinze dias depois, ele me volta com R$ 17. Compreendi aí o significado da expressão ‘preço de banana’”, diz. A última frustração foi com a pousada que construiu. Pôs fim no negócio após 8 meses de prejuízo. “Li que, de cada 10 pousadas que abrem, 7 fecham. Caí no conto da pousada!” A vida financeiramente modesta de hoje contrasta com o auge do sucesso, quando investiu o que ganhou com a tevê na construção do Teatro Ziembinski, no Rio. Walmor recebe R$ 2,4 mil por mês da prefeitura do Rio pelo aluguel do teatro, R$ 800 de aposentadoria e mais R$ 1,4 mil do aluguel de um apartamento. “Com isso me viro. Não tenho roupa, não faço vida social, gasto com arroz, feijão, sal.”

Pai de Clara, do casamento de 12 anos com Cacilda Becker, Walmor, cuja origem é uma mistura de alemão, português e índio, ainda ostenta os cabelos volumosos e o topete, há um bom tempo, branco. Mas a elegância, ele diz, ficou para trás. “Me sinto um sapo, com pernas e braços finos e uma grande barriga”, diz, aos risos.
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