Entrevista  
“Não deveria haver no Brasil empregada doméstica. É sinal de sociedade injusta”, diz Pedro, que costuma lavar louça em casa
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CONTINUAÇÃO

A glamourização da
profissão é um mal?

• Como você ganhava dinheiro antes de atuar?
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Pedro Cardoso
‘‘Tenho horror a área vip’’
Sucesso na tevê e em cartaz no teatro em São Paulo, o ator diz que o domínio da Globo é ruim, não gosta da fama e conta por que votou em Lula e não no primo, Fernando Henrique Cardoso

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texto: Rodrigo Cardoso
FOTOS: claudio gatti

Ele se considera tão cômico quanto a maioria. Nada que mereça destaque. O físico adolescente, os trejeitos e o ar de moleque travesso, porém, denunciam o contrário. Típico carioca da zona sul, Pedro Cardoso é o segundo de seis irmãos de uma família abastada, cujo pai foi um advogado de sucesso, o avô, presidente do Banco do Brasil e o primo de segundo grau, Fernando Henrique Cardoso, presidente da República. Aos 43 anos, separado, pai de Luiza, 15, e Maria, 9, o ator cresceu jogando futebol, politizando-se e montando a cavalo, até sair de casa para ganhar a vida com o próprio suor. Há quinze anos na Globo, onde vive o Agostinho de A Grande Família, e em cartaz em São Paulo com a peça Os Ignorantes, Pedro venceu, ganhou dinheiro, mas não deixou para trás o futebol, os cavalos e a política.

Encontrou sucesso no teatro e ficou famoso na tevê. É bom ser famoso?
Gosto do sucesso, não gosto da fama. Quando minha imagem está vinculada ao meu trabalho, não há problema. Do contrário, é incômo-
do para a individualidade. Tenho horror a área vip. Você já me viu
em algum lugar? Não, né? Eu não vou. Compro ingresso, entro na
fila, vou onde todos vão. É ridículo ir a lugares vip. Num país como
o Brasil, é falta de educação.

A glamourização da profissão é um mal?
Ela é irreal, prejudicial. A Fernanda Montenegro é absolutamente real, pão-pão, queijo-queijo. Ela senta com você e fala sobre tudo, não é vip. Encontrei a Fernanda no Maracanã, sentada como todos, vendo o show do Paul McCartney. Não acredito que isso (estar em lugares vip) ou aparecer abraçado com alguém no restaurante da moda faz com que as pessoas tenham vontade de ver a minha peça.

Considera-se um ator global?
A minha área de atuação na cultura se dá no teatro, cinema e televisão. Se a pessoa me tem como um ator da Globo, é porque o que ela conhece do meu trabalho é a minha atuação na Globo. Portanto, global é ela que me vê na Globo e não eu que atuo em todas as frentes. A Rede Globo tem aspectos positivos para o Brasil. Mas a hegemonia dela no mercado de trabalho e publicitário é negativa para o País. O melhor seria que existissem cinco, dez, com a competência da Globo.

Há semelhanças entre você e o Agostinho (de A Grande Família)?
Não. Alguma coisa em mim deve sinalizar a possibilidade de um homem fracassado. Conheci de perto a possibilidade de não ter sucesso profissional. Até os 30 e poucos vivi com muito pouco dinheiro. Cheguei a me conformar a ser um homem que ia viver com R$ 2 mil por mês. Fui esperto – e dei sorte – de criar uma possibilidade na televisão. Sabia que o dinheiro estava ali e lutei por ele.

Algum mal em negociar a vida profissional?
Não. Negociei, com muito empenho. O mal seria se dissesse que apenas o que o mercado me pede é o que eu tenho para dar. Tenho para dar muito mais. Acredito que o William Bonner e a Fátima Bernardes, que admiro muito, têm muito mais a dar ao Brasil – e o que eles dão já é bom. Mas essa é a disputa entre a nossa liberdade pessoal e os nossos empregadores. Enfim, o dinheiro não está onde a gente quer, está onde ele está. A gente vai buscá-lo ou não.

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