21 de fevereiro de 2000
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Vale quanto pesa
Dono do maior salário da tevê, Fausto Silva precisa de apenas 42 dias para transformar seus 120 quilos em ouro, gasta em viagens e presentes para amigos e ajuda artistas em necessidade

Neuza Sanches

Foto: Kiko Cabral

Ôrra, meu? É brincadeira? O apresentador Fausto Silva, 50 anos, com seu 1,87 metro de altura e 120 quilos de irreverência, deboche e achincalhe, realizou uma das mais espinhosas tarefas da televisão brasileira: um ano depois de entrar no ar, na Rede Globo, o Domingão do Faustão fez Silvio Santos mudar de horário. De lá para cá, ele se tornou o líder nacional de audiência nas tardes de domingo, até então entregues a filmes e seriados modorrentos. É o quarto maior faturamento da Rede Globo, com R$ 240 milhões de reais em 1998, perdendo apenas para os grupos das novelas, telejornais e esportes. Seu cachê também foi sendo elevado com o crescimento do programa. Estreou na Globo em abril de 1989 embolsando 30 mil cruzados novos por mês, o que equivale hoje a R$ 53.400. Em 11 anos no ar todos os domingos e ao vivo, Fausto Silva alcançou o olimpo das celebridades. É o maior salário fixo da televisão brasileira. O apresentador coloca limpinhos no bolso todos os meses pelo menos R$ 1,5 milhão. Além disso, num contrato raro na televisão, tem participação no faturamento bruto do programa. Ou seja, nos bons meses de merchandising, Faustão dobra o salário, faturando perto de R$ 3 milhões.

O apresentador destronou Xuxa Meneghel, que até 1998 era única estrela da Globo a ter no contrato participação no faturamento de seu programa. Para se ter idéia, Faustão vale hoje, em reais, o equivalente a duas e meia Xuxa, dois Carlos Massa, o Ratinho, ou sete Gugu Liberato, ambos do SBT. Essas três estrelas da televisão só melhoram seus rendimentos quando na ponta do lápis se incluem os ganhos com venda de produtos com suas respectivas marcas. Faustão desistiu dessa tentação. "Não sou empresário", diz Fausto. "O que ganho é fruto do meu suor."

Levando-se em conta apenas o seu salário fixo, Faustão precisa de apenas 42 dias para transformar seu peso em ouro, de acordo com a cotação da semana passada.

Na matemática das celebridades da tevê, Silvio Santos é imbatível. Embolsa todo mês a fábula de R$ 4 milhões só com ganhos derivados de sua imagem. Para apresentar seu programa dominical no SBT, por exemplo, ele engorda sua conta corrente com R$ 2 milhões.

Tumulto nas ruas
A popularidade de Faustão mudou sua vida. Há uma década, ele percorria shopping centers, onde gostava de fazer compras, freqüentava cinemas e teatros em São Paulo e atendia a inúmeros pedidos de autógrafos. Agora não pode mais caminhar pelas ruas ou shoppings sem causar tumulto. Por isso, Fausto vive com malas prontas e passagem à mão. "Gasto parte do que ganho viajando com a família e amigos", diz. "Viajar é investir em cultura." Duas cidades no planeta são suas preferidas: Nova York e Paris. Pelo menos quatro viagens da série que faz por ano são para essas cidades. Só ao museu do Louvre, Fausto Silva já foi 20 vezes. "Conheci todos os museus do mundo e ainda quero conhecer mais", revela. De tanto viajar, o apresentador troca de passaporte a cada 18 meses, em média. Ainda assim, não pretende ter uma casa fora do Brasil para não ficar na obrigação de ir freqüentemente a uma mesma cidade. "Prefiro contar com os serviços de hotel." E, para alegria dos construtores nacionais, ele aplica suas economias em casas e apartamentos no Brasil. "Só invisto em imóveis", garante.

Fausto tem mais tempo para viajar porque desde que renovou o contrato, há dois anos, deixou de morar no Rio, onde passava parte da semana até o final da noite do domingo em função do programa. Tem agora um jatinho pago pela emissora que o aguarda nas manhãs de domingo no aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O avião segue para o aeroporto de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde um helicóptero o leva até o Projac. Ao chegar lá, pega um carrinho que o deixa nos estúdios. Todo o percurso leva menos de uma hora. "Ficou mais fácil trabalhar e tenho mais tempo durante a semana para a minha vida pessoal", diz.

Vaidoso, o apresentador sempre gostou de grifes caras e usava cordão de ouro no pescoço. Mas Fausto lapidou seu gosto pessoal. Chegou à conclusão de que grifes conhecidas pelos brasileiros só dão dor de cabeça. "Causa ciumeira", argumenta. A solução foi ficar com grifes ímpares. Fausto vai pelo menos duas vezes por ano a Roma e volta com as malas cheias. Lá, ele escolhe tecidos e modelos com o alfaiate Gerardo Andriello, da fábrica de jeans Fidelli. As camisas são de Napoli Borrelli e os sapatos, feitos à mão por Salvatore Latanzi. São grifes pouco conhecidas dos brasileiros, mas que lá adornam celebridades. Era com estas grifes que se vestia, por exemplo, o ator Marcello Mastroianni.

Em matéria de cozinha, sua preferência é pelos pratos portugueses, regados a azeite. Não se incomoda com o peso que tem. E o máximo que faz para manter a saúde é andar oito quilômetros por dia numa esteira em sua casa. No início da carreira televisiva, Fausto não fazia segredos de seus hobbies preferidos: as mulheres e os automóveis. Chegou numa época a trocar de mulher - e de carro - a cada quatro meses. O apresentador namorou atrizes como Mylla Christie e Claúdia Raia. Chegou a se aproximar de Xuxa, mas acabou desistindo porque achou complicado o mundo da rainha dos baixinhos, já que de quebra tinha de driblar Marlene Mattos, sua empresária.

Acabou se casando com a modelo carioca Magda Colares, que na época, com 22 anos, participava do Domingão do Faustão sorteando cartas e atendendo telefonemas. Com dez anos de casamento, Fausto tem Lara, 2 anos, e estava próximo de ser pai novamente no ano passado, quando Magda perdeu o filho com cinco meses de gravidez. "Estamos superando o que ocorreu, por isso não sabemos se vamos querer ou não ter outro filho", diz Fausto. "É deixar as coisas acontecerem com naturalidade." Quanto aos carros, deixou de pilotar um Brasinca e hoje anda pelos quatros cantos de São Paulo dentro de um Cherokee preto. Inclusive para levar ou buscar Lara na escolinha no mesmo bairro onde mora. "Procuro ter uma vida próximo da família e dos amigos", afirma Fausto.

Foto: Reprodução
Com a modelo Magda Colares, sua esposa, e a filha Lara, hoje com 2 anos

A cada mês, ele reserva uma segunda-feira para montar uma verdadeira pizzaria dentro de casa, no Morumbi. Fausto contrata um pizzaiolo italiano e telefona para amigos como Zico, Rivelino, Oscar Schmidt, Raí, Candinho. "As pizzas vão da de inhame à de chocolate", diz Candinho, auxiliar técnico da seleção brasileira. "Gosto também das noites de queijo e vinho." Da mesma opinião compartilha Oscar, do basquete. "Não sei o que é melhor, a comida ou as histórias dele com o Caçulinha", diz o jogador.

Mas suas amizades não se restringem aos ex e atuais freqüentadores do universo esportivo. Faustão costuma viajar com dois casais globais: os apresentadores do Jornal Nacional, William Bonner e Fátima Bernardes, e os atores Edson Celulari e Cláudia Raia. A lista de amigos é seleta e nela há ainda Nair Belo, Hebe Camargo, Tom Cavalcante e a cantora Simone. Com Dercy Gonçalves, por exemplo, tem a mania de enchê-la de presentes a cada viagem que faz. "Pedi para ele me dar em dinheiro no meu aniversário, de tanto presente que já ganhei dele", diz Dercy. Só de bengalas para ajudá-la a andar foram seis. O detalhe é que Dercy anda bem sem elas. "Uso por causa do Faustão", diz a apresentadora sênior do SBT. Dercy conheceu Fausto quando a sua produção a convidou para participar do quadro Jogo da Velha, há quase uma década. "Desde então eu não deixo de visitá-lo. Ele é como um filho", diz Dercy. "Ela é como uma mãe", rebate Faustão.

A preocupação com a saúde e o bem-estar dos amigos é um dos capítulos especiais da vida de Fausto Silva fora das telas. Há um ano, ele soube que Clodovil enfrentava uma fase financeira difícil e não hesitou. Mandou imediatamente um buquê de flores ao estilista, algumas notas graúdas presas por um grampo de ouro, que somadas chegavam a R$ 40 mil, e um cartão escrito à mão: "Não é dinheiro. É um presente de um amigo". A lista não pára por aí. Fausto Silva desembolsou dinheiro para ajudar no tratamento de Gerson Brenner, que levou um tiro após ser assaltado. No domingo 6, tirou R$ 2 mil do bolso porque ficou sabendo que uma de suas camareiras estava com o marido doente. "Não tenho nenhuma instituição filantrópica", desconversa Fausto. Mas é como se tivesse.

Mundo cão
Embora tenha diminuído a freqüência e o teor dos palavrões, volta e meia eles surgem como vírgulas numa frase, como exclamações ou para reforçar uma tirada de humor. Fausto tem o talento do improviso. Desde que entrou na Globo, ele vinha mantendo a liderança nacional imbatível. Mas com olhar mais atento nos números do Ibope, pode-se verificar que Gugu Liberato está nos calcanhares de Fausto Silva e chegou a liderar, em várias ocasiões, na Grande São Paulo, que inclui 39 municípios e cerca de 16 milhões de pessoas vendo televisão aos domingos. Gugu ficou à frente na audiência em cinco e empatou em três dos 12 meses do ano passado. Nos oito meses em que colocou a produção do Faustão em polvorosa, ele se notabilizou como o único capaz de derrotar o gigante nos finais de semana. "Ganho na raça mesmo", costuma dizer Gugu, quando questionado sobre o assunto. "Mas ele apela para ter audiência", rebate Alberto Luchetti, diretor de núcleo da Rede Globo e diretor-geral do Domingão do Faustão. "Ele apresenta atrações que nós não colocaríamos no ar", acusa. Luchetti dá como exemplos apresentações como a da cantora Gretchen, que mostrou suas celulites nas coxas. Gugu também colocou Suzana Alves, a Tiazinha, depilando o centroavante do Corinthians, Dinei, que havia posado nu para uma revista gay.

Foto: Kiko Cabral
Com Alberto Luchetti, diretor do programa: decisões para manter a liderança

O velho recurso de apresentar coisas curiosas no vídeo ganhou impulso em agosto de 1996, quando o programa de Fausto Silva foi antecipado para o horário das 15h30 e passou a concorrer diretamente com o de Gugu Liberato, no SBT. Gugu colocou no ar, em agosto de 1996, os irmãos Fajardo, que em sua terra natal são conhecidos como "Los Peludos", dois homens com os corpos totalmente cobertos por pêlos. A audiência chegou a picos de 21 pontos. Pela primeira vez em sete anos, Fausto Silva foi batido. Diante do risco da derrota no Ibope, Carlos Manga, então diretor de núcleo do Faustão, reagiu. No domingo seguinte, Faustão colocou em cena o cearense Carlos Torres, o "Bocão", que colocou na boca sete bolas de pingue-pongue, quatro de sinuca, quatro ovos (sem quebrar), cinco limões, um copo de suco, quatro copos de cachaça. O Domingão não parou por aí. Em seguida, veio o capixaba Rafael dos Santos, na época com 15 anos, que sofria de uma doença rara chamada síndrome de Seckel, media 87 centímetros e pesava 8 quilos. Com o cearense Bocão e o garoto Rafael, Fausto saltou da média de 24 para 30 pontos. Mas a repercussão foi a pior possível.

Para não correr mais riscos como esses, Fausto tem em seu contrato com mais de 50 páginas - assinado há dois anos, com validade até 2003 -, uma cláusula que lhe dá o direito de vetar qualquer quadro grotesco. "Um programa dominical é familiar e tem de ter o bom gosto de colocar quadros que não ofendam a ninguém", afirma Fausto.

As apelações de concorrentes em cima de quadros apresentados originalmente por Faustão levou a direção a tirar as "Pegadinhas" do ar, temporariamente. "Todas as vezes que banalizarem alguma atração a gente vai colocar outra no lugar", afirma Luchetti. No próximo mês, o Domingão entra no ar com novas atrações que vão desde jogos de conhecimentos gerais, que serão feitos pelo público, com prêmios aos vencedores, até quadros com adolescentes. "Será um desafio inventar sempre algo diferente", diz Faustão.

O apresentador começou sua carreira ainda adolescente como radialista no interior de São Paulo. Cursou até o quarto ano da faculdade de Direito, em São Paulo, onde nasceu, acalentando o sonho de ser juiz. Depois de um longo e eclético aprendizado em pequenas rádios do interior, Fausto voltou para São Paulo, onde passou a atuar como jornalista. Fez coberturas tanto de procissões religiosas como de partidas de futebol.

A grande virada de Fausto aconteceu em 1982, quando ele assumiu o comando do programa Balancê, na rádio Excelsior de São Paulo, antes pilotado por Osmar Santos. "Fausto era verbalmente agressivo, mas provocava risos nas pessoas", diz Oscar Ulisses, irmão de Osmar Santos e locutor esportivo da rádio Globo, em São Paulo.

Envie esta página para um amigoA sua primeira providência foi transferir o programa do estúdio para um auditório. Nascia a semente do Perdidos na Noite, que mais tarde, na televisão, o projetaria nacionalmente pela Rede Bandeirantes, até chegar ao palco iluminado da Rede Globo. Fausto acha que o segredo de seu sucesso na televisão está no fato de que ele é o próprio representante do homem médio brasileiro. "Não posso dizer que passei fome ou que fui engraxate", diz. "Nem minha biografia tem algo especial." Agora tem: o maior salário da tevê.

(Colaboraram Fábio Bittencourt, de São Paulo, e Rosângela Honor, do Rio de Janeiro)

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