21 de fevereiro de 2000
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Teatro

O enlace de Autran
Casado pela primeira vez há cinco meses, Paulo Autran estréia peça em São Paulo, diz que não assiste tevê desde 1995 e avisa: detesta dar autógrafo

Alessandra Nalio

Foto: Rogério Albuquerque

Aos 77 anos, o ator Paulo Autran ainda arrisca inesperados rumos em sua vida. Um dos mais recentes foi o casamento com a atriz e amiga Karin Rodrigues, há cinco meses. Foi a primeira vez que o ator, com 50 anos de sua vida dedicados especialmente ao teatro, se casou oficialmente. "Nos damos tão bem há tantos anos, por que não casar?", diz ele, sempre discreto. Esquecido, Paulo fica em dúvida quanto à data certa do enlace. "Acho que foi no dia 9 de setembro", arrisca. Logo é socorrido por sua assessora, Célia Forte: "Foi dia 8 de setembro, Paulo." O ator vai até uma estante de seu confortável apartamento nos Jardins, zona sul de São Paulo, e mostra uma foto cortando o bolo do casamento, enfeitado por dois singelos noivinhos, no dia da cerimônia, realizada por um juiz de paz em sua casa, onde estavam presentes suas irmãs e amigos íntimos. Para Karin, o ritual foi a continuidade de uma amizade de mais de 20 anos. "Resolvemos brincar de casar. Gostaria que tivesse sido na igreja, acho tão bonito", diz a atriz, que é separada. Cada um mora em seu apartamento e, segundo o ator, esse é o segredo do sucesso da relação. Karin também acha bom. "Moro com minha filha e dois cachorros que adoram subir no sofá. O Paulo não ia gostar muito", diz ela. "Juridicamente facilita. E se eu resolver deixar os meus cachorros de herança para ele?"

Foto: Álbum de Famíliae

Intérprete de mais de 80 peças ao longo da carreira - num repertório que inclui grandes mestres, como Shakespeare e Molière -, o ator voltou aos palcos paulistas na sexta-feira 11. Quadrante é um monólogo dirigido e interpretado por ele, e reúne poemas, contos e crônicas de autores como Vinícius de Moraes, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa e Rubem Braga. "Minha interpretação melhorou com o tempo. O que era engraçado ficou mais engraçado e o que era triste ficou mais triste", diz. Seu primeiro papel, interpretado aos 7 anos, foi um diabinho numa peça em casa, junto com as oito irmãs. "Me vestiram um calção de banho vermelho, fizeram chifres de papelão e desenharam um bigode preto no meu rosto. Eu entrava só numa cena", lembra.

Em meio século de carreira, Autran sempre fez o papel principal nas peças e experimentou o sucesso já em sua estréia profissional, em 1949, ao lado de Tônia Carrero, em Um Deus Dormiu Lá em Casa. Naquela época, ele e Tônia tiveram um caso, que durou dois anos. "Nunca falei sobre isso. Mas já que ela está falando, é verdade. Foi uma paixão total e absoluta durante dois anos. Quando a paixão vem, é avassaladora e não tem limites", diz.

Formado em Direito, Paulo já fez cinema e gravou discos com leituras de poemas. Na tevê, fez apenas três novelas, alguns programas e minisséries. A última foi Hilda Furacão, em 1998. Aceitou porque gravaria por apenas três meses. "No final, gravamos por seis meses e eu me arrependi profundamente. Dizem que ficou bonitinha, não vi", diz ele. Em 1996, foi convidado para interpretar o personagem que foi de Raul Cortez na novela O Rei do Gado, mas não aceitou porque ficaria no ar durante toda a trama. "Não quero que as pessoas enjoem de ver minha cara todos os dias", argumenta. Sua relação com os fãs é tranqüila. Aceita "tapinhas nas costas", responde a algumas cartas e posa para retratos. Só não gosta de dar autógrafos. "Acho uma chatura e no final acabam indo para o lixo com outros papéis." Segundo ele, seu recorde de correspondências foi quando fez o musical My Fair Lady, em 1964. "As mulheres me escreviam cartas apaixonadas. Não guardei nenhuma."

Desde 1995 ele não vê televisão e diz que faz dessa prática uma higiene mental. Mas afirma que Ana Paula Arósio tem uma carreira promissora. Compara a atriz a Vera Fischer, que, no início, ganhou papéis no cinema principalmente por ter sido eleita Miss Brasil. "Depois se revelou uma excelente atriz, aprendeu a representar", diz. Também elogia Bete Coelho e Matheus Nachtergaele. "Dois talentos fulminantes que conheci recentemente." Para Bete Coelho, Paulo Autran, que a dirige no monólogo Pai, de Cristina Mutarelli, é o sinônimo de generosidade. "Tenho uma enorme admiração por ele. Paulo me dirigiu como um grande diretor. Me deixou no mesmo patamar que ele", diz.

Envie esta página para um amigoCom quatro pontes de safena e uma mamária por conta de ser um fumante inveterado, Autran não tem planos para deixar seu principal vício - os demais, ele diz, são inofensivos. Costuma receber amigos para as partidas de tranca e nas horas de folga tece tapetes. Mantém uma de suas peças no hall do apartamento e só produz por encomenda dos amigos. Outro passatempo são os quebra-cabeças. "Estou montando mil peças de uma paisagem com cavalos. Passo meses montando", diz. Quando pode, Paulo viaja para Paraty, litoral de São Paulo, onde mantém a pousada Pardieiro - sua única fonte de renda, fora o teatro. Segundo ele, um lugar onde os pais podem tirar férias dos filhos. Desde que seu então sócio e grande amigo Fábio Vilaboim - que morreu em 1994, de câncer - foi vítima da malcriação do filho de um dos hóspedes, Paulo proibiu a entrada de menores de 15 anos na pousada. "Não pense que não gosto de crianças. Gosto das educadas", afirma.

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