21 de fevereiro de 2000
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Família

"Para a favela minha mãe não volta mais"
André Gonçalves resgata das ruas a mãe com problemas mentais, acolhe uma irmã de 5 anos que desconhecia e descobre que tem dois irmãos perdidos no Rio

Luís Edmundo Araújo

Foto: Kiko Cabral
Com o irmão Marcelo, que localizou a mãe: "Estou meio confuso. Vou precisar de análise"

Na tarde do sábado 5, um Citröen ano 1994 parou em frente à Escola Municipal Cardeal Leme, na favela Parque Arará, em Benfica, na zona norte do Rio de Janeiro. Do carro saiu o ator Marcelo Gonçalves, 25 anos, que foi direto ao encontro de Maria da Penha Vieira Gonçalves, 45, conhecida entre os moradores do Parque Arará por viver pelas ruas da favela, acompanhada da filha Vitória, de 5 anos. Marcelo abraçou Maria da Penha, colocou-a no carro junto com a filha e partiu rumo ao apartamento que divide com o irmão, o ator André Gonçalves, 24 anos, que atualmente faz sucesso na minissérie A Muralha, da Rede Globo. Três horas depois, num prédio do Jardim Botânico, zona sul do Rio, André reencontrou a mãe, de quem fora separado há 20 anos.

Além da mãe, o ator também acolheu em sua casa a irmã caçula, filha de outro relacionamento de Maria da Penha. "Nunca soube da existência dela", revelou, emocionado. "Ela será criada aqui, com a gente." André já pediu ao seu advogado, Sylvio Guerra, que providencie uma certidão de nascimento para a menina, que não foi registrada. Ele soube também que tem mais dois irmãos perdidos no Rio de Janeiro. Antes de Vitória nascer, Maria da Penha teve dois filhos, mas ambos se perderam dela, em função das crises provocadas por seu distúrbio mental. "Como Maria da Penha perdeu os mais velhos, andava agarrada a Vitória pelas ruas com medo de perdê-la também", conta a tia do ator, Maria da Graça.

Foto: Angelo Antonio/O Globo
A mãe, Maria da Penha, com a filha Vitória: elas vagavam pela favela Parque Arará

O início do drama começou em 1980, quando o pai dos atores, Carlos Eugênio Barbosa, saiu de casa e levou André para Natal, no Rio Grande do Norte, junto com os irmãos Marcelo e Maria Cristina. A família saiu de lá quando André fez 12 anos. Nesse período, ele só viu a mãe uma vez, numa passagem pelo Rio, quando tinha 11 anos. O encontro foi traumático, já que Maria da Penha, que sofre de distúrbios mentais, não quis falar com André e Marcelo. "Pressionamos meu pai para conhecer nossa mãe. No Natal, fomos até o Parque Arará e, quando ela nos viu com ele, começou a chorar e correu de nós", conta André. Depois disso, o ator voltou a procurar a mãe quando retornou ao Rio de Janeiro, para morar na favela da Vila do João, na zona norte da cidade. Apesar de andar sempre pelas ruas do Parque Arará, Maria da Penha não era achada facilmente, pois sempre fugia dos encontros com os filhos.

Tratamento
Em 1992, finalmente, quando já era ator da Rede Globo, André mobilizou vários amigos que tinham carro e procurou a mãe por toda a cidade. Encontrou-a no centro do Rio. Maria da Penha chegou a ficar quatro dias na casa dele, que na época morava em Vargem Grande, zona oeste. Ela pediu para ir embora. André não tinha recursos na época para tratá-la e a deixou ir. Agora, o ator garante que a história será diferente. "Farei tudo para que minha mãe fique morando comigo. Não quero ela na rua de novo. Para a favela ela não volta mais", disse. Não será fácil. No dia seguinte ao reencontro, Maria da Penha pediu para ir embora novamente. Desta vez, porém, André e Marcelo não deixaram a mãe desaparecer e a internaram em uma clínica particular. "Minha mãe está com problemas psiquiátricos muito sérios. Ela precisa de cuidados", afirma André Gonçalves.

Até os 4 anos, ele vivia normalmente com a mãe, o pai e o irmão Marcelo, no Parque Arará. Os problemas começaram quando nasceu a terceira filha do casal, Maria Cristina, em 1980. Logo após o parto, Maria da Penha começou a apresentar distúrbios mentais. "A família dela tem histórico desse tipo de doença", conta Barbosa. "Não sabia de nada até seu comportamento mudar." Nessa época, Barbosa mudou-se com a família para São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Foi uma tentativa de voltar a viver tranqüilamente ao lado de Maria da Penha, mas não deu certo. A família ficou seis meses na Baixada Fluminense e voltou para o Parque Arará.

Quando Maria Cristina completou oito meses, Maria da Penha saiu de casa com a filha e só voltou um mês depois, sem a criança. Na véspera de voltar para casa, ela deixou a filha na calçada, em frente ao Hospital do Andaraí, na zona norte do Rio. Maria Cristina só foi encontrada graças a um vizinho da família, que tinha visto a mãe carregando a filha no colo nas proximidades do hospital, minutos antes de a criança ser abandonada. "Fui até lá e minha filha já tinha sido recolhida. Ela estava na maternidade", lembra Barbosa.

O episódio foi a gota d'água para o pai de André Gonçalves. A família ficou um ano morando na casa da tia de André, Maria da Graça Medeiros, 43, também no Parque Arará, antes de ele levar os filhos para Natal, no Rio Grande do Norte. "Deixei a Maria da Penha com os pais dela, que também moravam na favela. Nunca imaginei que ela ficaria desse jeito", diz Barbosa. Além de Rafael e dos três filhos com Maria da Penha, Carlos é pai de Carla Priscila, 18, e Carla Michelle, 15, filhas de seu segundo casamento. Aos 48 anos, o pai de André Gonçalves está morando no Rio com a terceira mulher e o filho Rafael, de 12 anos, e trabalha como produtor de eventos. Hoje com 20 anos, Maria Cristina mora no Rio e está grávida de cinco meses do primeiro filho.

Criado na favela
Mesmo depois de sair do Parque Arará, André Gonçalves continuou freqüentando a favela onde nasceu e foi criado. Conhecido como uma criança brincalhona, o ator nunca deixou de visitar a tia, Maria da Graça, casada com um irmão de Barbosa. Acostumada a levar o sobrinho para passeios junto com as filhas Viviane, 22, e Tatiane, 19, Maria da Graça passou a ver André com menos freqüência quando começou a ficar famoso. "Eu mesma falava para ele não ir com a gente. Não teríamos sossego. Com ele junto, todo mundo iria querer autógrafo", diz.

O passado difícil não é problema para André Gonçalves, que fala com orgulho da infância e adolescência vividas no Rio, entre o Parque Arará e a Vila do João. Nesta última favela, o ator aprendeu capoeira, o que acabou contribuindo para o início da carreira artística. Aos 12 anos, André vendia pipoca nas proximidades da Rodoviária Novo Rio, na zona portuária da cidade, quando foi descoberto pelo ator Roberto Bontempo, que procurava atores para a minissérie Capitães de Areia, exibida em 1989 pela Bandeirantes.

Já na Globo, André Gonçalves começou a ganhar destaque com o papel de Sandrinho, um gay, na novela A Próxima Vítima, em 1995. Ao mesmo tempo em que se destacava na carreira, começava a ter namoradas famosas. A primeira foi a atriz Carol Machado, com quem André viveu. Depois, namorou ainda Renata Sorrah e Myriam Rios. Com Teresa Seiblitz, André teve sua única filha, Manuela, que completou 1 ano no domingo 13, nascida de uma fugaz experiência amorosa. A atitude do ator com a mãe não surpreendeu Teresa. "Recolher a mãe foi bonito e já esperava isso do André. Ele sobreviveu a uma infância difícil e se tornou uma pessoa ótima e um excelente pai."

Foto: Divulgação
A atriz Teresa Seiblitz, com quem André tem uma filha: "Ele é ótima pessoa e excelente pai"

Atualmente, André namora Alessandra Negrini, sua colega de cena em A Muralha, a minissérie em que o ator faz o papel do índio Apingorá. Vitória, ao que tudo indica, conquistou Alessandra Negrini. No sábado 12, enquanto Maria da Penha estava internada numa clínica - cujo nome o ator não revela -, André Gonçalves levou a irmã para passear de carro junto com a namorada, por volta das 13h.

Envie esta página para um amigoSe está feliz por ter achado a mãe, André Gonçalves não esconde a angústia pelo estado de saúde de Maria da Penha, que também sofre de alcoolismo. Dividindo o aluguel de um apartamento de dois quartos com o irmão Marcelo e um amigo, o ator disse que está vendendo o Citröen 1994, seu único patrimônio, para custear as despesas com o tratamento da mãe. Apesar de ter participado de A Muralha, André não é empregado da Rede Globo. Em meio aos problemas, o ator se prepara para estrear a peça O Avarento, de Moliére, em março, sob a direção de Amir Haddad, e faz previsões para o futuro. "Estou meio confuso, mas posso dizer que estou feliz por ter achado minha mãe", diz André. "Quando tudo ficar bem, acho que eu vou precisar de análise."

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