|
Acidente
Atropelos
dos Pires
Erros da polícia dificultam apuração
do acidente que matou José Alves Sobrinho e família
de Alexandre Pires pressiona tevê a omitir informações
Rodrigo Cardoso
de Uberlândia (MG)
| Foto: Max
Pinto |
 |
Às 22
horas do sábado 5, os funcionários da casa noturna
Coliseu, em Uberlândia, Minas Gerais, estavam a postos para
receber os foliões da noite. Seria mais um expediente normal,
não fosse o fato de, na madrugada de domingo 6, o cantor
Alexandre Pires, 24 anos, líder do grupo de pagode Só
Pra Contrariar (SPC), resolver visitar a casa onde iniciou sua carreira
que hoje tem dimensões internacionais. "Ele chegou às
2h30 e, no camarote em que estava, junto com dez amigos, foram consumidos
quatro litros de uísque", disse a Gente um funcionário
do Coliseu. "Até as 6h30, hora em que terminei meu expediente,
o cantor ainda estava lá." Naquela noite, Alexandre,
subiu ao palco do Coliseu para cantar. O funcionário relata
um incidente entre o cantor e um cliente da casa: "Um rapaz
disse ao Alexandre que ele havia terminado o namoro com a Carla
Perez porque não dava no couro. O cantor ouviu, abaixou-se
no palco e insistiu para que o rapaz repetisse o que havia dito.
Ele ficou quieto." Às 7h30 daquele domingo, Alexandre
atropelou o vendedor José Alves Sobrinho, 36 anos, que morreu
três dias depois.
Logo após
o acidente, os familiares de Alexandre e os policiais envolvidos
na investigação fizeram uma série de declarações
contraditórias que somente dificultaram a elucidação
do caso. Seu irmão Fernando Pires mentiu ao afirmar que ambos
passaram a madrugada de domingo gravando em um estúdio da
cidade. Por meio de sua assessoria, o cantor só admitiu ter
ido à casa noturna dois dias depois do acidente.
| Foto: Beto
Oliveira |
 |
| Sinderley
Silva, gerente do Coliseu: "Alexandre é da geração
saúde" |
O gerente do
Coliseu, Sinderley Silva, 32 anos, amigo de infância do músico,
confirma que os dois estiveram lá. Ele conta que viu Fernando
Pires, irmão do cantor, bebendo uísque, mas garante
que Alexandre tomou refrigerante a noite toda. "Ele é
da geração saúde e, às 5 horas, tinha
ido embora", diz. À polícia, afirmou que o cantor
tomou quatro latas de bebida energética.
Na quarta-feira
9 à tarde, quando foi anunciada a morte cerebral de Sobrinho,
Maria Abadia e João Pires, pais de Alexandre, procuraram
a família da vítima no Hospital das Clínicas
da Faculdade de Medicina para confortá-la. Abadia encontrou
Rosemeire Alves, a esposa do vendedor, no saguão de entrada
do hospital, e sugeriu uma conversa mais reservada. Numa sala, a
mãe do cantor disse à família da vítima:
- O Alexandre
nunca bebeu uma gota de álcool. Só toma refrigerante.
- Quer dizer, então, que sou cego?! - rebateu o estudante
Túlio Henrique Lopes, colega de Sobrinho, que acompanhou
Rosemeire até a sala e afirma ter visto o cantor bebendo
uísque na casa noturna.
- Quem é você?
| Foto: Piti
Reali |
 |
| Túlio
Lopes, amigo da família da vîtima, ampara Rosemeire,
a viúva |
Em resposta,
Lopes diz ter colocado a carteira de identidade a um palmo do rosto
de Abadia e afirmou ser segurança particular de Rosemeire.
"Falei isso porque a Rose recebeu uma ameaça pelo telefone",
disse ele a Gente. Após a discussão, o empresário
do SPC, Matheus Nazareth, perguntou aos familiares se precisavam
de dinheiro. Nervosa, Rosemeire deixou o hospital e só voltou
depois que a família Pires deixou o local.
Contra Alexandre,
dificilmente será comprovada a acusação de
embriaguez, porque as autoridades não submeteram o músico
- que não permaneceu no local do acidente - ao teste do bafômetro.
Um policial da 16.ª Delegacia da Polícia Civil de Uberlândia,
no entanto, acrescenta mais um motivo. "Só existem dois
aparelhos de bafômetro na cidade. Um pertence à PM
e outro à Polícia Civil. O da PM, que prestou socorro,
está quebrado. Mesmo que o Alexandre estivesse lá,
não faria o teste." No momento em que tomaram conhecimento
do caso, os policiais da 16.ª DP deveriam ter enviado uma diligência
à casa do cantor, para submetê-lo ao bafômetro
ou informá-lo da necessidade de coletar sangue para análise.
"Isso não aconteceu pela falta de pessoal. O plantão
da DP, naquele dia, era feito por um delegado e um assistente. Se
um saísse, o outro ficaria desguarnecido", justificou
o policial. Professor de Psiquiatria da Universidade Federal de
São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira explica que, a cada
meia dose de uísque, o organismo leva uma hora para eliminá-lo.
"Em poucas horas, o organismo está livre da embriaguez",
diz ele. "O teste de alcolimia deve ser feito imediatamente."
O inquérito foi instaurado após a morte de Sobrinho,
três dias após o acidente, mas poderia ter sido aberto
no mesmo dia. Segundo o delegado responsável, Marco Antonio
Noronha, 28 anos, bastaria ele ter enviado ao juiz do Fórum
de Uberlândia um "termo circunstancial de ocorrência".
"Se obtivesse a permissão do juiz, investigaria uma
possível omissão de socorro", explica. Mas afirma
que não optou por essa conduta porque, com a morte da vítima,
seria aberto automaticamente o inquérito para apurar se houve
homicídio culposo.
Na manhã
da terça-feira 8, o pai de Alexandre, João Pires,
o empresário Matheus e o advogado da família, Antonio
Caixeta, estiveram na TV Integração, afiliada da Globo
em Uberlândia, para reclamar das reportagens feitas pela emissora.
"Disseram que nós estávamos arrumando problemas
para eles", afirma André Aguera, diretor superintendente
da Integração. "O João estava com os ânimos
alterados. Dizia que iríamos derrubá-lo e acabar com
a carreira de seu filho. Pediram para que nós parássemos
com as matérias." Na tarde do mesmo dia, o repórter
Luís Gustavo da Luz, funcionário da emissora, foi
recebido por Alexandre, que concedeu a única entrevista depois
do acidente. Na noite da terça-feira 8, no Jornal Nacional,
o cantor apareceu com um terço e, chorando, disse que era
conhecido de Sobrinho e "queria estar no lugar dele".
Alexandre não falou sobre as acusações de embriaguez,
omissão de socorro e condução em alta velocidade.
"Não fiz as perguntas porque, antes de gravar, o Alexandre
disse que não tinha condições de responder",
diz Luz.
Um jornalista
da TV Integração conta que viu o advogado Caixeta
acompanhando a edição da entrevista: "Os dois
estavam juntos no andar da ilha de edição, na tarde
da terça-feira. Ninguém pôde assistir à
fita e ficamos surpresos com o dramalhão." Luz diz que
Caixeta esteve na tevê porque a emissora é cliente
do advogado e nega que ele tenha interferido na edição.
"Editei sozinho e não mostrei a ninguém para
preservar meu trabalho. Isso gera ciúme dos colegas",
diz. Segundo o editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner,
"editorialmente, o processo que norteou a edição
da entrevista do Alexandre seguiu os critérios do JN."
Após
a morte de Sobrinho, a família do vendedor contratou um advogado
que negocia um acordo de indenização com os Pires.
As córneas da vítima foram doadas para duas pessoas
e a perícia sobre o atropelamento sai esta semana. Ela irá
concluir se Alexandre guiava em alta velocidade. Fernando Pires
depõe sexta-feira 18 e Alexandre foi intimado para quinta
24. Por enquanto, não quer se defender publicamente. Sua
assessoria diz que ele se encontra sem condições de
falar. Se o inquérito concluir que houve homicídio
culposo, será enviado ao juiz de direito do fórum
da cidade. Seguirá para o Ministério Público,
que decidirá pela denúncia do cantor. O juiz decidirá
pelo seu acatamento e conseqüente instauração
de processo judicial.
|