21 de fevereiro de 2000
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Acidente

Atropelos dos Pires
Erros da polícia dificultam apuração do acidente que matou José Alves Sobrinho e família de Alexandre Pires pressiona tevê a omitir informações

Rodrigo Cardoso
de Uberlândia (MG)

Foto: Max Pinto

Às 22 horas do sábado 5, os funcionários da casa noturna Coliseu, em Uberlândia, Minas Gerais, estavam a postos para receber os foliões da noite. Seria mais um expediente normal, não fosse o fato de, na madrugada de domingo 6, o cantor Alexandre Pires, 24 anos, líder do grupo de pagode Só Pra Contrariar (SPC), resolver visitar a casa onde iniciou sua carreira que hoje tem dimensões internacionais. "Ele chegou às 2h30 e, no camarote em que estava, junto com dez amigos, foram consumidos quatro litros de uísque", disse a Gente um funcionário do Coliseu. "Até as 6h30, hora em que terminei meu expediente, o cantor ainda estava lá." Naquela noite, Alexandre, subiu ao palco do Coliseu para cantar. O funcionário relata um incidente entre o cantor e um cliente da casa: "Um rapaz disse ao Alexandre que ele havia terminado o namoro com a Carla Perez porque não dava no couro. O cantor ouviu, abaixou-se no palco e insistiu para que o rapaz repetisse o que havia dito. Ele ficou quieto." Às 7h30 daquele domingo, Alexandre atropelou o vendedor José Alves Sobrinho, 36 anos, que morreu três dias depois.

Logo após o acidente, os familiares de Alexandre e os policiais envolvidos na investigação fizeram uma série de declarações contraditórias que somente dificultaram a elucidação do caso. Seu irmão Fernando Pires mentiu ao afirmar que ambos passaram a madrugada de domingo gravando em um estúdio da cidade. Por meio de sua assessoria, o cantor só admitiu ter ido à casa noturna dois dias depois do acidente.

Foto: Beto Oliveira
Sinderley Silva, gerente do Coliseu: "Alexandre é da geração saúde"

O gerente do Coliseu, Sinderley Silva, 32 anos, amigo de infância do músico, confirma que os dois estiveram lá. Ele conta que viu Fernando Pires, irmão do cantor, bebendo uísque, mas garante que Alexandre tomou refrigerante a noite toda. "Ele é da geração saúde e, às 5 horas, tinha ido embora", diz. À polícia, afirmou que o cantor tomou quatro latas de bebida energética.

Na quarta-feira 9 à tarde, quando foi anunciada a morte cerebral de Sobrinho, Maria Abadia e João Pires, pais de Alexandre, procuraram a família da vítima no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina para confortá-la. Abadia encontrou Rosemeire Alves, a esposa do vendedor, no saguão de entrada do hospital, e sugeriu uma conversa mais reservada. Numa sala, a mãe do cantor disse à família da vítima:

- O Alexandre nunca bebeu uma gota de álcool. Só toma refrigerante.
- Quer dizer, então, que sou cego?! - rebateu o estudante Túlio Henrique Lopes, colega de Sobrinho, que acompanhou Rosemeire até a sala e afirma ter visto o cantor bebendo uísque na casa noturna.
- Quem é você?

Foto: Piti Reali
Túlio Lopes, amigo da família da vîtima, ampara Rosemeire, a viúva

Em resposta, Lopes diz ter colocado a carteira de identidade a um palmo do rosto de Abadia e afirmou ser segurança particular de Rosemeire. "Falei isso porque a Rose recebeu uma ameaça pelo telefone", disse ele a Gente. Após a discussão, o empresário do SPC, Matheus Nazareth, perguntou aos familiares se precisavam de dinheiro. Nervosa, Rosemeire deixou o hospital e só voltou depois que a família Pires deixou o local.

Contra Alexandre, dificilmente será comprovada a acusação de embriaguez, porque as autoridades não submeteram o músico - que não permaneceu no local do acidente - ao teste do bafômetro. Um policial da 16.ª Delegacia da Polícia Civil de Uberlândia, no entanto, acrescenta mais um motivo. "Só existem dois aparelhos de bafômetro na cidade. Um pertence à PM e outro à Polícia Civil. O da PM, que prestou socorro, está quebrado. Mesmo que o Alexandre estivesse lá, não faria o teste." No momento em que tomaram conhecimento do caso, os policiais da 16.ª DP deveriam ter enviado uma diligência à casa do cantor, para submetê-lo ao bafômetro ou informá-lo da necessidade de coletar sangue para análise. "Isso não aconteceu pela falta de pessoal. O plantão da DP, naquele dia, era feito por um delegado e um assistente. Se um saísse, o outro ficaria desguarnecido", justificou o policial. Professor de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Ronaldo Laranjeira explica que, a cada meia dose de uísque, o organismo leva uma hora para eliminá-lo. "Em poucas horas, o organismo está livre da embriaguez", diz ele. "O teste de alcolimia deve ser feito imediatamente." O inquérito foi instaurado após a morte de Sobrinho, três dias após o acidente, mas poderia ter sido aberto no mesmo dia. Segundo o delegado responsável, Marco Antonio Noronha, 28 anos, bastaria ele ter enviado ao juiz do Fórum de Uberlândia um "termo circunstancial de ocorrência". "Se obtivesse a permissão do juiz, investigaria uma possível omissão de socorro", explica. Mas afirma que não optou por essa conduta porque, com a morte da vítima, seria aberto automaticamente o inquérito para apurar se houve homicídio culposo.

Na manhã da terça-feira 8, o pai de Alexandre, João Pires, o empresário Matheus e o advogado da família, Antonio Caixeta, estiveram na TV Integração, afiliada da Globo em Uberlândia, para reclamar das reportagens feitas pela emissora. "Disseram que nós estávamos arrumando problemas para eles", afirma André Aguera, diretor superintendente da Integração. "O João estava com os ânimos alterados. Dizia que iríamos derrubá-lo e acabar com a carreira de seu filho. Pediram para que nós parássemos com as matérias." Na tarde do mesmo dia, o repórter Luís Gustavo da Luz, funcionário da emissora, foi recebido por Alexandre, que concedeu a única entrevista depois do acidente. Na noite da terça-feira 8, no Jornal Nacional, o cantor apareceu com um terço e, chorando, disse que era conhecido de Sobrinho e "queria estar no lugar dele". Alexandre não falou sobre as acusações de embriaguez, omissão de socorro e condução em alta velocidade. "Não fiz as perguntas porque, antes de gravar, o Alexandre disse que não tinha condições de responder", diz Luz.

Um jornalista da TV Integração conta que viu o advogado Caixeta acompanhando a edição da entrevista: "Os dois estavam juntos no andar da ilha de edição, na tarde da terça-feira. Ninguém pôde assistir à fita e ficamos surpresos com o dramalhão." Luz diz que Caixeta esteve na tevê porque a emissora é cliente do advogado e nega que ele tenha interferido na edição. "Editei sozinho e não mostrei a ninguém para preservar meu trabalho. Isso gera ciúme dos colegas", diz. Segundo o editor-chefe do Jornal Nacional, William Bonner, "editorialmente, o processo que norteou a edição da entrevista do Alexandre seguiu os critérios do JN."

Envie esta página para um amigoApós a morte de Sobrinho, a família do vendedor contratou um advogado que negocia um acordo de indenização com os Pires. As córneas da vítima foram doadas para duas pessoas e a perícia sobre o atropelamento sai esta semana. Ela irá concluir se Alexandre guiava em alta velocidade. Fernando Pires depõe sexta-feira 18 e Alexandre foi intimado para quinta 24. Por enquanto, não quer se defender publicamente. Sua assessoria diz que ele se encontra sem condições de falar. Se o inquérito concluir que houve homicídio culposo, será enviado ao juiz de direito do fórum da cidade. Seguirá para o Ministério Público, que decidirá pela denúncia do cantor. O juiz decidirá pelo seu acatamento e conseqüente instauração de processo judicial.

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