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| Cordás: passarelas são propagadoras de doenças |
Não é necessário buscar confirmação
científica para verificar o aumento do interesse nos transtornos
ligados ao comportamento alimentar. A anorexia e a bulimia nervosa
há mais de 10 anos escancararam as portas dos hospitais e consultórios
e viraram assuntos freqüentes de toda a sociedade. A anorexia
nervosa ocorre mais em adolescentes e mulheres jovens onde se busca
de forma obsessiva o emagrecimento. Essas pacientes atingem níveis
de emagrecimento assustadores e – contra as orientações
(e súplicas) de médicos, familiares e amigos –
continuam querendo emagrecer. Um dos achados mais intrigantes é
a distorção da imagem corporal: apesar de extremamente
emagrecida a paciente se vê obesa. Cerca de 15% dessas meninas
tristemente morrem da doença. Já a bulimia foi descrita
no fim dos anos 70 e ocorre em mulheres entre 20 e 40 anos. Mulheres
com bulimia não são pessoas magérrimas. São
muitas vezes elegantes, aparentemente normais e de modo oculto têm
compulsões alimentares seguidas de vômitos provocados,
uso de laxantes e diuréticos para perder peso.
Estudos genéticos tem apontado maior freqüência
dessas doenças em irmãs e membros da mesma família
e alterações de substâncias químicas
cerebrais responsáveis pelo controle do apetite. Aspectos
do relacionamento familiar e traços da personalidade poderiam
predispor ou manter as doenças. O grande de debate é
entender como a influência social pode levar ao surgimento
desses quadros. A ditadura da magreza é traduzida pelo maciço
estímulo da mídia por mais e mais fórmulas
para emagrecer. Este suposto ideal de magreza aplaude não
só a beleza aceita e imposta como correta, mas une-se à
receita do sucesso profissional econômico e afetivo. Na busca
para ser como a mais nova modelo bem sucedida, não há
idade para começar e cada vez mais adolescentes e crianças
passam a se preocupar com seus corpos, levando ao surgimento dessas
doenças cada vez mais cedo. A insatisfação
com o corpo real não mede esforços para se manifestar:
plásticas, fórmulas para emagrecer, moderadores de
apetite e o bizarro surgimento de sites de estímulo à
Anorexia. Esses últimos macabros reforçadores da doença
orientam pela internet como comer quase nada ou passar uma semana
tomando água.
Antes de concluirmos que estamos diante de doenças modernas,
cabe um alerta: há descrições dessas doenças,
em particular da Anorexia Nervosa, desde há muitos séculos.
Temos estudado a vida de santas e beatas da Idade Média que
jejuavam prolongadamente e submetiam-se à todas as privações
emagrecendo e morrendo com a intenção de santificar-se
e se aproximar de Deus. A mesma doença muda o enredo e, séculos
depois, Deus é substituído por Lagerfeld. As passarelas
da moda são propagadoras de doenças. Muitas de nossas
pacientes são modelos. É impossível, do ponto
de vista médico, ter uma alimentação normal
pesando o que pesam várias top-models conhecidas. A estrutura
física que permite pessoas muito magras comerem normalmente
é raríssima.
O Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM)
do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (FMUSP)
foi criado em 1992, como o primeiro centro no País para tratamento
desses problemas. Tínhamos um caso a cada 15 dias. Hoje,
são 10 pacientes novos por semana. Se o tratamento é
longo e penoso, infelizmente a prevenção é
uma interrogação. Trabalhos com orientação
em escolas não parecem surtir efeito para diminuir índices
de Transtornos Alimentares. Talvez porque essas atitudes sejam gotas
de chuva num deserto.
Taki Cordás é psiquiatra, chefe do Ambulatório
de Bulimia e Transtornos Alimentares
(AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em
São Paulo
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| Pílulas |
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» Nos Estados Unidos, de 0,5% a 1% da população
feminina sofre de anorexia ,
enquanto a bulimia atinge de 3% a 4% da mesma população
» Nem anorexia nem bulimia tem remissão
espontânea. São doenças que desaparecem
sem tratamento médico
» Se seu índice de massa corpórea
(seu peso em quilos dividido pela altura ao
quadrado) está abaixo de 17,5 você sofre
de anorexia nervosa, se está entre 17, 5
a 19,5, essa faixa abrange as pacientes bulímicas
» Nas doenças de transtorno alimentar,
90% dos doentes são mulheres
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