Saúde  
O perigo da anorexia
Cerca de 15% de meninas e mulheres morrem vítimas de anorexia. Cada vez
mais elas sofrem de doenças do comportamento alimentar, como também a
bulimia, e o desafio é como deter essa tendência diante da ditadura da magreza
Taki Cordás

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Wellington Cerqueira
Cordás: passarelas são propagadoras de doenças
Não é necessário buscar confirmação científica para verificar o aumento do interesse nos transtornos ligados ao comportamento alimentar. A anorexia e a bulimia nervosa há mais de 10 anos escancararam as portas dos hospitais e consultórios e viraram assuntos freqüentes de toda a sociedade. A anorexia nervosa ocorre mais em adolescentes e mulheres jovens onde se busca de forma obsessiva o emagrecimento. Essas pacientes atingem níveis de emagrecimento assustadores e – contra as orientações (e súplicas) de médicos, familiares e amigos – continuam querendo emagrecer. Um dos achados mais intrigantes é a distorção da imagem corporal: apesar de extremamente emagrecida a paciente se vê obesa. Cerca de 15% dessas meninas tristemente morrem da doença. Já a bulimia foi descrita no fim dos anos 70 e ocorre em mulheres entre 20 e 40 anos. Mulheres com bulimia não são pessoas magérrimas. São muitas vezes elegantes, aparentemente normais e de modo oculto têm compulsões alimentares seguidas de vômitos provocados, uso de laxantes e diuréticos para perder peso.

Estudos genéticos tem apontado maior freqüência dessas doenças em irmãs e membros da mesma família e alterações de substâncias químicas cerebrais responsáveis pelo controle do apetite. Aspectos do relacionamento familiar e traços da personalidade poderiam predispor ou manter as doenças. O grande de debate é entender como a influência social pode levar ao surgimento desses quadros. A ditadura da magreza é traduzida pelo maciço estímulo da mídia por mais e mais fórmulas para emagrecer. Este suposto ideal de magreza aplaude não só a beleza aceita e imposta como correta, mas une-se à receita do sucesso profissional econômico e afetivo. Na busca para ser como a mais nova modelo bem sucedida, não há idade para começar e cada vez mais adolescentes e crianças passam a se preocupar com seus corpos, levando ao surgimento dessas doenças cada vez mais cedo. A insatisfação com o corpo real não mede esforços para se manifestar: plásticas, fórmulas para emagrecer, moderadores de apetite e o bizarro surgimento de sites de estímulo à Anorexia. Esses últimos macabros reforçadores da doença orientam pela internet como comer quase nada ou passar uma semana tomando água.

Antes de concluirmos que estamos diante de doenças modernas, cabe um alerta: há descrições dessas doenças, em particular da Anorexia Nervosa, desde há muitos séculos. Temos estudado a vida de santas e beatas da Idade Média que jejuavam prolongadamente e submetiam-se à todas as privações emagrecendo e morrendo com a intenção de santificar-se e se aproximar de Deus. A mesma doença muda o enredo e, séculos depois, Deus é substituído por Lagerfeld. As passarelas da moda são propagadoras de doenças. Muitas de nossas pacientes são modelos. É impossível, do ponto de vista médico, ter uma alimentação normal pesando o que pesam várias top-models conhecidas. A estrutura física que permite pessoas muito magras comerem normalmente é raríssima.

O Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (FMUSP) foi criado em 1992, como o primeiro centro no País para tratamento desses problemas. Tínhamos um caso a cada 15 dias. Hoje, são 10 pacientes novos por semana. Se o tratamento é longo e penoso, infelizmente a prevenção é uma interrogação. Trabalhos com orientação em escolas não parecem surtir efeito para diminuir índices de Transtornos Alimentares. Talvez porque essas atitudes sejam gotas de chuva num deserto.

Taki Cordás é psiquiatra, chefe do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares
(AMBULIM) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas em São Paulo
Pílulas
 

» Nos Estados Unidos, de 0,5% a 1% da população feminina sofre de anorexia ,
enquanto a bulimia atinge de 3% a 4% da mesma população

» Nem anorexia nem bulimia tem remissão espontânea. São doenças que desaparecem
sem tratamento médico

» Se seu índice de massa corpórea (seu peso em quilos dividido pela altura ao
quadrado) está abaixo de 17,5 você sofre de anorexia nervosa, se está entre 17, 5
a 19,5, essa faixa abrange as pacientes bulímicas

» Nas doenças de transtorno alimentar, 90% dos doentes são mulheres

 
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