Entrevista  
‘‘Fui operado (do coração) no
dia 17 de março (de 2001) e
voltei a andar em 11 de março do outro ano. Estive morto por 50 minutos, tempo em que os
médicos me massagearam’’
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CONTINUAÇÃO

Como se sente perto dos 70?
• Por que parou de atuar?
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Herval Rossano
‘‘Vou incomodar mais a Globo’’
continuação

Nívea pôde sair de casa tranqüilamente?
Eu disse que podia levar tudo, que só deixasse minha cadeira de rodas. Em 10 de dezembro de 2002, vim a São Paulo para fazer uma revisão no meu marcapasso. Ela disse que mudaria no dia 12. Retornei no dia 11 e encontrei a cozinha alagada. Levaram o filtro de água gelada, um filtro!, e não fecharam o tanque. Subi as escadas e encontrei um colchão e os armários embutidos, claro. Olhei para aquilo tudo e falei: “Bom, tenho de comprar tudo de novo”.

Havia se divorciado, estava recuperando-se de um enfarto e foi dispensado da Globo depois de 30 anos. Desanimou-se da vida?
Fiquei decepcionado com a Globo. Trabalhei doente e, quando tinha direito a uma gratificação por produtividade, um cara me diz: “Você não está sendo útil para a Rede Globo”. Aquilo foi pior que uma facada. Como poderia ser útil, se levei oito meses na cama? E, quando fiquei bom, a primeira coisa que fiz foi trabalhar. Fui comunicado da dispensa numa sexta-feira, às 7 da noite. Sexta-feira! Não tinha com quem falar, nenhum executivo! Senti uma desilusão.

Viu a morte de perto com o enfarto?
Senti um enjôo e pensei que uma lagosta tivesse feito mal. Quando vi, estava na mesa de operação. Fui operado no dia 17 de março (de 2001) e voltei a andar em 11 de março do outro ano. Estive morto por 50 minutos, tempo em que os médicos me massagearam. Eles costumam massagear por 20. Me penduraram duas horas de barriga pra cima, duas pra baixo, duas de um lado e duas de outro, para me salvar. Meu pulmão foi massacrado e peguei uma infecção hospitalar.

Por que parou de atuar?
Quando era da Tupi, existia um ator do rádio, Paulo Porto, o grande amor de Ioná Magalhães. Ele fez um escândalo, quando fui escalado para fazer um papel. Eu tinha 19 anos. Ele, 40. Olhei para ele e disse: “Quando ficar velho, não quero ser isso não”. Comecei a pedir para dirigir uns programinhas, musicais, teleteatro, até que estourou 1964.

Construiu carreira no Exterior por causa da ditadura?
Participei de movimento estudantil. Fui delatado e sofri muito por uma frase que disse numa choperia, em Copacabana: “Tinha vergonha de ser dominado por uma bota”. Fui preso, não me tocaram, mas foi uma tortura lenta, nojenta. Havia uma privada, num canto de 1 metro por um metro e meio, cheia de merda e uma panela de feijão podre. Um rapaz de cor do meu lado esquerdo e um senhor de idade em frente. De vez em quando chamavam o rapaz de cor lá para dentro e ele voltava com golfadas de sangue. Me chamavam, me deixavam 15 minutos no corredor e me mandavam de volta. Mas não me tocaram.

Como escapou da tortura física?
Fui preso às 10 da noite. Às 7h30 passou um detetive que era figurante de filme. Ele falou com o delegado, me colocou dentro do carro e disse: “Vai embora”. Um dia, um tenente, conversando comigo na praia, olhou para um avião e disse: “Tá vendo aquele avião lá em cima? De vez em quando, a gente coloca pessoas ali dentro e joga em alto mar”. Aquilo me apavorou. Casei, tive três filhos e fui embora para o Chile. Fui o primeiro a fazer telenovela no Chile. Fiquei 8 anos lá. Trabalhei no México também.

Como foi o início da carreira de ator?
Morava numa pensãozinha com mais quatro num mesmo quarto e namorava longe! Deixei a casa dos meus pais aos 16. Tudo tem mulher no meio! Existia uma mulher que era sustentada por um coronel, como chamávamos os caras que as financiavam, e eu tinha um caso com ela, que me ajudava até financeiramente. Um dia, ela me disse: “Gosta da mulherzinha que tem? Da roupa lavada? Da comidinha que come? Pois é, perdeu tudo. Você falou no calçadão da praia do Flamengo que tinha um caso comigo, meu coronel soube e está me mandando para São Paulo”. Ela tinha um nome bonito: Gilda.

Foi galã nos anos 50, 60. Como era o fanatismo?
Era impossível ir ao banco, porque iam atrás de mim. Eu tinha um SP2 e as meninas rodeavam o carro e o beijavam, desenhavam corações e escreviam “eu te amo”. O Boni falava: “É o êxito”. E eu: “É o êxito, mas vou ter de lavar o carro”. Tinha mulher de todo tipo, vedete, cantora, fãs, mas eu não as cantava, elas me cantavam, era mais cômodo e eu sempre fui péssimo conquistador.

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