Reportagens  

Personalidades do ano 2004

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“Tive que enfrentar o que ninguém enfrentou antes, as máfias que mandavam no sistema de ônibus há décadas. Até colete à prova de balas tive que usar”, diz a prefeita
Marta Suplicy tem 59 anos,
3 filhos e 3 netos. Foi casada com Eduardo Suplicy por 36 anos, separou-se em abril de 2001 e em agosto assumiu o romance com Luis Favre, 54 anos, com quem se casou
em setembro de 2003
Marta Suplicy estreou na política como deputada federal em 1995. Em 1998, concorreu ao governo do Estado, mas não se elegeu. Eleita prefeita de São Paulo em 2000, ela encerra dia 31 de dezembro os 4 anos de mandato na prefeitura que tem o terceiro maior orçamento do Brasil, com R$ 13,7 bilhões. A cidade, que completou 450 anos em 2004, tem 11 milhões de habitantes, frota de 15 mil ônibus, e por ela circulam 5,7 milhões de automóveis. No governo Marta foram plantadas 150 mil árvores e 1 milhão de m2 de ruas foram recapeadas e pavimentadas
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Capa - Personalidade do ano 2004
Marta Suplicy

A prefeita de São Paulo encerra o mandato elogiada
por suas ações na educação e no transporte, fala dos preconceitos que sofreu e se diz uma avó coruja, que
gostaria de ter tido mais tempo para os netos
texto: Daniela Mendes
fotos: edu lopes

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Marta no heliponto da prefeitura: “Não se tolera mulher
que se porte em desacordo com o estereótipo feminino”

É uma tarde quente de primavera em São Paulo. De uma das sacadas do Edifício Patriarca, onde funciona a sede da prefeitura, conhecido como Banespinha, avistam-se alguns dos cartões postais da cidade. À esquerda, o Teatro Municipal, à direita, a Praça do Patriarca, e ao centro o Viaduto Santa Ifigênia. A prefeita Marta Suplicy chega elegante num terninho bege e posiciona-se na varanda para o início da sessão de fotos. “Estamos com você”, grita, do Viaduto do Chá, um passante que recebe um aceno e um sorriso da prefeita. Falta menos de um mês para Marta deixar de administrar a maior cidade da América Latina, com 11 milhões de habitantes e dona do terceiro maior orçamento do País, atrás apenas da União e do Estado de São Paulo. “Quase nunca faço fotos com a Praça do Patriarca ao fundo. Gostaria de fotografar aqui para guardar de recordação”, diz ela.

Marta foi eleita prefeita de São Paulo em 2000 e encontrou uma cidade destroçada após as gestões de Paulo Maluf e Celso Pitta. No início do governo pôs a casa em ordem. Logo, porém, elegeu a educação como uma das prioridades. E é na educação que deixará sua marca. Marta construiu 21 CEUs, escolas de excelência na periferia, com ensino de qualidade, lazer e cultura. Deu uniformes e material escolar a 1 milhão de crianças, transporte para mais de 100 mil alunos e criou 200 mil novas vagas nas escolas. Esta pequena revolução é a menina-dos-olhos da prefeita. “Onde os CEUs foram instalados não havia rua asfaltada ou iluminação, nem número nas casas, os Correios nem chegavam lá”, diz ela. “Depois deles, as pessoas da região ganharam mais cidadania, não só os alunos.”

No transporte público também fez uma administração ousada. Enfrentou a máfia dos transportes e criou o bilhete único, uma das medidas mais populares de sua administração. “A Marta fez um excelente governo em São Paulo. Foi uma das mais criativas administrações municipais do PT”, avalia o presidente da Câmara
João Paulo Cunha (PT-SP). Segundo ela, mexer na estrutura do transporte público foi seu maior desafio na prefeitura. “Tive que enfrentar o que ninguém enfrentou antes, as máfias que mandavam no sistema de ônibus há décadas. Até colete à prova de balas tive que usar”, conta ela. A coragem é uma qualidade histórica da prefeita, que se tornou conhecida nos anos 80 ao falar de sexo na televisão, algo inédito na época, no TV Mulher, da Rede Globo.

Ela admite erros na administração: “As taxas foram muito pesadas para uma parcela da população”, reconhece Marta

Por coerência, essa coragem estende-se à vida pessoal. Marta teve peito de dissolver um casamento de 36 anos com o senador Eduardo Suplicy por um novo amor. Membro da Secretaria de Relações Internacionais do PT, o argentino naturalizado francês Luis Favre, 54 anos, conquistou Marta, que se separou em abril de 2001, quatro meses após a posse. Em agosto do mesmo ano, assumiu o romance que chegou ao altar em setembro do ano passado numa cerimônia para 400 pessoas. Marta e Favre tiveram como padrinho de casamento o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Marido de uma das mulheres mais importantes do País, Favre não se incomoda de ficar à sombra dela aos olhos da população. “Estar casado com uma figura pública implica compreensão sobre o papel dela, e saber ficar em segundo plano, isto não é problema”, diz ele.

Apesar de todas as realizações, a prefeita não conseguiu se reeleger. “Houve uma frente anti-PT e antigoverno Marta e nós não fomos eficientes para desmontar isso”, acredita o presidente do PT José Genoino. A prefeita se disse vítima de preconceito durante o governo e a campanha – a propaganda de José Serra, seu adversário, só a chamava de “Dona Marta”. A mulher, segundo ela, é mais cobrada. “Cobra-se do cabelo à roupa, da casa aos filhos... tudo.” Para a prefeita, as posições de muito poder e visibilidade ainda são território masculino. Além disso, no aspecto pessoal, ela se diz muito direta na expressão de suas opiniões. “Todos esses elementos juntos acabam se confrontando com conceitos e expectativas de comportamento há muito enraizados. É aí que afloram os preconceitos.” Genoino adiciona outros elementos: “Estimulou-se um preconceito pela condição de mulher e pela história de vida dela”.

Na opinião da prefeita, a separação e o novo casamento podem ter pesado para uma parcela da população e serviram para se juntar a outros tipos de preconceito. “Não se tolera mulher que se porte em desacordo com o estereótipo feminino”, afirma Marta, defensora de propostas inovadoras como a união civil de pessoas do mesmo sexo. Quem quebra tabus, paga um preço, mas Marta acha que era muito importante para as mulheres, principalmente para as mais jovens, ter uma prefeita na quarta maior cidade do planeta. “É um modelo e um espaço que a menina não tinha antigamente e que é diferente daqueles apresentados pela televisão.”

Olhando para trás, a prefeita fala de alguns arrependimentos nos quatro anos de governo. “As taxas foram muito pesadas para uma parcela da população”, afirma. “Não conseguimos explicar a necessidade delas para a construção de novos aterros de lixo nem fazer ver àqueles isentos do IPTU (um milhão de lares) que a taxa
era muito menor que o IPTU pago.” Além disso, algumas das pessoas que pagavam as taxas não se sentiam beneficiadas pelo CEU, não tinham filhos na escola e na família havia desempregados. “Essas pessoas se revoltaram com uma despesa para a qual não viam benefício evidente e lhes pesava”, afirma.

Marta percorre os corredores da sede da prefeitura, decorada com quadros de artistas paulistas, e deixa transparecer saudade. “Este prédio é muito bonito”, comenta, antes de dizer que faz planos de
tirar um retrato no local com seu neto mais velho, Teodoro, de 3
anos, filho do advogado André, 35. “Acho que ele irá gostar de ver a foto no futuro”, diz ela, também avó de Laura, de um ano e meio, e Maria Luiza, de cinco meses, filhas do músico João, 30. O roqueiro Supla, 38, é solteiro e ainda não deu um herdeiro aos Suplicy.
Marta se define como uma avó coruja, mas diz que gostaria de
ter tido mais oportu-nidade de estar com eles. “Este é um tem-
po precioso que não volta mais.”

Mas não há sinais de arrependimentos no comentário. Marta diz que, embora o dia-a-dia seja desgastante, é muito satisfatório poder ver suas propostas tornarem-se realidade. Ela desconversa quando perguntada se em seus planos futuros estão disputar o governo do Estado ou mesmo chegar à Presidência. Seu projeto mais imediato é criar um instituto para produzir propostas na área de políticas públicas que também propague as realizações de sua administração. No futuro, também pretende escrever sobre esses anos à frente da prefeitura. “Não há experiência mais intensa e gratificante”, resume.

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