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Entrevista: Jair Bolsonaro
"Eu
defendo a tortura"
O deputado que defende fuzilamento de FHC
ficou 28 anos sem falar com o pai alcoólatra
Cláudia
Carneiro
| Foto: Roberto
Jayme |
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Entre os companheiros
de quartel no Rio de Janeiro, o capitão reservista do Exército
Jair Messias Bolsonaro era conhecido como "cavalão".
Seu porte atlético, em 1,86 metro de altura e 75 quilos,
desenvolvido nos exercícios da Escola de Educação
Física do Exército, garantiu-lhe o título de
pentatleta das Forças Armadas. Mas foi a língua solta
que o ajudou a ganhar fama nacional, quando começou a questionar
governos, há mais de uma década, para defender a corporação
à qual pertenceu. Nas últimas semanas, manteve o hábito
de causar polêmica ao propor o fuzilamento do presidente Fernando
Henrique Cardoso. No terceiro mandato federal, eleito com 103 mil
votos, o deputado Jair Bolsonaro (PPB-RJ), 44 anos, abre fogo contra
colegas da Câmara dos Deputados que combateram a ditadura
militar, defende a tortura, a censura e a pena de morte e não
se arrepende de ter pregado o fuzilamento do presidente. Pai de
três filhos adolescentes com a primeira mulher, Rogéria
Bolsonaro, e de um bebê com a segunda, Cristina, 32 anos,
Bolsonaro revela em entrevista a Gente que sonha disputar a Prefeitura
do Rio de Janeiro. "Mas eu não estou preocupado em ser
prefeito. Eu quero é espaço."
Teme algum
dia ser cassado por suas declarações?
Não. Se um soldado está na guerra e tem medo de morrer,
é um covarde. Se eu fosse cassado, seria o parlamentar cortando
seu próprio direito de opinião, palavra e voto. Tenho
poucos inimigos dentro da Câmara.
Ainda acha
que o presidente deveria ser fuzilado?
Eu não errei em falar isso naquele local, naquela oportunidade
e naquele momento. E acho que tenho o direito de falar. Eu não
xinguei o presidente, nem disse que ele não conhece o pai
dele. Acho que o fuzilamento é uma coisa até honrosa
para certas pessoas.
Isso não
é incitação ao crime?
Se eu estivesse conspirando, não falaria isso. Não
é difícil matar o presidente. Só tem que ter
coragem. O esquema de segurança dele é falho. Por
exemplo, tenho uma casa no litoral em Mambucabinha, próxima
do local onde ele passeia quando vai a Angra dos Reis. Sou primeiro
lugar no curso de mergulho do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro.
Bastava planejar. E as chances de sucesso de se cumprir a missão
são grandes. Não é difícil eliminar
uma autoridade no País. Isso até serve para alertar
o presidente.
Como isso seria feito?
Tudo depende de planejamento. Pode-se pegar uma arma com mira e
matar o presidente em Brasília. Com uma besta (espécie
de arco e flecha) dá para eliminar uma pessoa a 200 metros.
Até com um canivete dá para chegar no cangote do presidente.
Mas quero deixar claro que não estou incitando ninguém
a fazer. E não tenho nenhum plano para eliminar o presidente.
Eu não partiria para uma missão suicida.
O senhor
fuzilou alguém?
Não. Eu já saquei arma uma vez. Estava indo a pé
para o quartel, no Rio, por volta da meia-noite, e vi que estava
sendo perseguido. O elemento então saiu correndo. Devia ser
um ladrão barato.
Seus colegas
de Congresso o consideram uma pessoa truculenta. Como o senhor é
em casa?
Nunca bati na ex-mulher. Mas já tive vontade de fuzilá-la
várias vezes. Também nunca dei um tapa num filho.
Gosto de chamar para conversar, contar piadas.
O que levou
ao fim seu casamento de 19 anos?
Meu primeiro relacionamento despencou depois que elegi a senhora
Rogéria Bolsonaro vereadora, em 1992. Ela era uma dona-de-casa.
Por minha causa, teve 7 mil votos na eleição. Acertamos
um compromisso. Nas questões polêmicas, ela deveria
ligar para o meu celular para decidir o voto dela. Mas começou
a freqüentar o plenário e passou a ser influenciada
pelos outros vereadores.
Não
era uma atitude impositiva de sua parte?
Foi um compromisso. Eu a elegi. Ela tinha que seguir minhas idéias.
Acho que sempre fui muito paciente e ela não soube respeitar
o poder e liberdade que lhe dei. Mas estou muito feliz na minha
segunda relação. Vivo muito bem com a Cristina.
O que o senhor
acha da legalização do topless?
Não sou contra, não. Desde que seja com a mulher dos
outros. Depois que todas as mulheres estiverem usando, aí
a minha poderá usar. O fio dental foi um escândalo
e hoje é normal. Tudo é evolução.
E sobre a
legalização do aborto?
Tem de ser uma decisão do casal.
O senhor
já viveu tal situação?
Já. Passei para a companheira. E a decisão dela foi
manter. Está ali, ó. (Bolsonaro aponta para a foto
no mural de seu filho mais novo, Jair Renan, de 1 ano e meio, com
Cristina.)
O senhor
segue alguma religião?
Eu acredito em Deus. Sou católico. Mas é coisa rara
ir à Igreja. Eu já li a Bíblia inteirinha,
com atenção. Levei uns sete anos para ler. Você
tem bons exemplos ali. Está escrito: "A árvore
que não der frutos, deve ser cortada e lançada ao
fogo". Eu sou favorável à pena de morte.
Pena de morte
é a solução?
Acho que um elemento que pratica um crime premeditado não
pode ter direitos humanos. O José Gregori (secretário
nacional dos Direitos Humanos) fala em indenizar os familiares dos
111 mortos no Carandiru. E ele não dá uma palavra
às viúvas e órfãos que os 111 fizeram
em sua vida de marginalidade.
A polícia
agiu corretamente no Carandiru?
Continuo achando que perdeu-se a oportunidade de matar mil lá
dentro. Pena de morte deve ser aplicada para qualquer crime premeditado.
Isto inclui
tráfico de droga?
Aí é outra história, aí eu defendo a
tortura. A pena de morte vai inibir o crime. Nunca vi alguém
executado na cadeira elétrica voltar a matar alguém.
É um a menos.
Em que outras
situações o senhor defende a tortura?
Um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem que ser
colocado no pau-de-arara imediatamente. Não tem direitos
humanos nesse caso. É pau-de-arara, porrada. Para seqüestrador,
a mesma coisa. O objetivo é fazer o cara abrir a boca. O
cara tem que ser arrebentado para abrir o bico.
E a tortura
praticada pela ditadura militar?
Admito que houve alguns abusos do regime militar, mas a tortura
não foi em cima de um simples preso político. Aquelas
pessoas estavam armadas e matavam. Só na Guerrilha do Araguaia
perdemos 16 militares.
O senhor
disse que o deputado José Genoino (PT-SP) era mentiroso e
delatou seus companheiros da Guerrilha do Araguaia. O senhor tem
provas?
Tenho informações seguras. Eu tenho orgulho de dizer
que não fui um Genoino da vida, um deputado mariposa. O Genoino
fala que pegou em armas por dois anos. O que ele fez nesses dois
anos? Assaltou bancos, seqüestrou? Quantos ele matou?
O que pensa
sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo?
Eu sou contra. Não posso admitir abrir a porta do meu apartamento
e topar com um casal gay se despedindo com beijo na boca, e meu
filho assistindo a isso.
Tem algum
homossexual na família?
Graças a Deus, não. Eu desconheço. Se tivesse,
nem quero pensar.
E como o
senhor trata da liberação sexual com seus filhos?
Certas coisas não se pode ser contra ou a favor. Prefiro
que um filho meu leve uma namoradinha para dentro de minha casa,
num dia que eu não esteja lá, do que ele ser rendido
na rua e assassinado dentro de um carro.
Como foi
que o senhor perdeu a virgindade?
Com 17 anos de idade. Meio tarde, né? Meus filhos vão
pegar no meu pé por causa disso. Eu estava na Escola Preparatória
de Cadetes do Exército, em Campinas. Ninguém tinha
dinheiro. Juntávamos uns 20 alunos, fazíamos um sorteio,
íamos para o baixo meretrício e os cinco sorteados
faziam fila com a mesma mulher.
Seu pai era
agressivo em casa?
Eu não conversava com ele (Percy Geraldo Bolsonaro, morto
em 1995) até os 28 anos de idade. Ele bebia descaradamente
e brigava muito em casa, com minha mãe e os filhos. Mas nunca
bateu em filho. Um dia constatei que não iria mudá-lo.
Resolvi pagar uma pinga para ele. Nos tornamos grandes amigos.
Por que decidiu
ser militar?
Por causa do Lamarca. Eu tinha 15 anos de idade, usava cabelo com
gumex, calça boca-de-sino, sapato "cavalo de aço",
quando o Lamarca passou por Eldorado Paulista, em 1970. O Exército
chegou lá. Eu então conheci e me apaixonei pelo Exército
brasileiro.
Pretende
disputar nova eleição para a Câmara?
Tenho que ficar com os cabelos mais brancos para um dia tentar um
cargo no Executivo. Na Prefeitura do Rio de Janeiro, para eu fazer
meu nome. Daí, quando perguntarem sobre enchente num debate,
eu vou responder sobre reservas indígenas. Não estou
preocupado em ser prefeito, eu quero espaço, quero mostrar
o que a mídia não mostra.
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