| Em algum
momento de sua vida se achou velho?
Tive a crise do vovô. Foi terrível. Me senti
velho mesmo, foi a única coisa que me derrubou. A enfermeira
chegou com minha neta dizendo “olha aí o vovô”,
e eu disse “que que é isso?”. Queria já
sair na porrada com a enfermeira. Foi difícil na época,
mas hoje em dia já esculhambou tudo, tenho oito netos.
Me acostumei. A tudo você se acostuma, né? (a
neta mais velha de Renato é Inara, 22 anos, filha de
Ricardo).
Ter sido pai aos 64 anos o fez
sentir mais jovem?
Isso é verdade. Quando pensei que tinha encostado a
chuteira vi que iria começar tudo de novo. Na verdade
é isso. A liberdade que você tinha acaba. É
o único problema. No resto, é maravilhoso, parece
que você revive, renasce. Vou ter que viver o suficiente
para dar uma boa educação a Lívian. Isso
é a única coisa com a qual me preocupo.
É um pai presente?
Vou buscar no colégio sempre que posso e já
fui até a festa de criança na escola. Foi uma
festa caipira. Para mim é complicado ir a essas festas.
A criançada cai em cima, fica aquele tumulto. Adoro,
mas quando a coisa aperta eu saio fora. Dessa vez não
podia decepcionar, todos os pais estavam lá. Eram mais
de mil pessoas. Ainda bem que tinha gente do colégio
que compreendeu a situação. Cheguei lá,
dei um tchau pra Lívian, ela piscou pra mim, e quando
a garotada veio eu atendi rapidamente e saí logo depois.
Cumpri minha missão.
Restringe os programas que a
Lívian assiste na televisão?
Nem eu nem a Lílian deixamos ela ver violência
ou programas impróprios. Você hoje assiste um
desenho animado japonês e o cara desmancha a cabeça
do outro com uma pistola do futuro, o futuro dela. Se você
for ver todos os canais, tevê aberta e a cabo, vai ter
uns 80 assassinatos por dia, um mau exemplo danado. Mas a
gente também não diz “sai daí”,
não, porque o proibido atrai. Quando começa
a passar algo que achamos ruim falamos “Lívian,
dá licença um instantinho, vamos ver o que tem
ali no outro canal?”.
Como se sentiu ao ser acusado
pelo Grupo Gay da Bahia (em julho passado) de insultar
os homossexuais com suas piadas?
Quem faz humor tem que ser irreverente. Não se pode,
em lugar nenhum, ser 100% politicamente correto num veículo
de comunicação. Mas eu policio tudo, procuro
não sacanear muito as pessoas gordas, nem as feias
ou os homossexuais. Mas, enfim, o humor vive disso, então
temos de dar uma pincelada sem agredir ninguém. Agora,
quem de vez em quando não dá um escorregão?
Às vezes, você acha que não atingiu ninguém
com uma piada e atingiu. Há muitos anos, ainda na Tupi,
fiz um super-homem que bebia óleo e tomava sopa de
prego, era o homem de ferro. Não percebi nada, nem
o diretor do meu programa, mas alguém viu e lembrou
que as crianças em casa podiam, de repente, pegar um
bocado de prego ao alcance da mão e botar na água
para tomar. Olha o problema criado. Temos que ter muito cuidado
com isso.
Acha que a cobrança em
ser politicamente correto está maior hoje em dia?
Hoje não poderia metade das piadas dos Trapalhões.
O Mussum, por exemplo, tomava umas e assumia. Isso era verdadeiro
e era ótimo. Ele dizia: “Vim do morro, posso
tomar pinga e não vou esconder, que é pior”.
Mas o Mussum tinha uma cumplicidade com os espectadores
que mostrava que só ele podia fazer aquilo, o resto,
não, porque só quem se estrepava na piada era
ele. Hoje nem comentar isso em televisão você
pode, e eu sou o maior fiscal disso. Vejo nas novelas o ator
chegar em casa e pegar um copo de uísque. Os amigos
vão a
um bar conversar e já tem cerveja. Não pode
fazer isso. Você tá induzindo inconscientemente
o adolescente que tá começando na
vida a chamar o amigo para ir a um bar, está fabricando
alcoólatras.
Você concorda com quem
diz que A Turma do Didi está parecida com os
antigos Trapalhões?
Foi coincidência isso. Decidi montar uma curriola exatamente
para não ficar parecido, porque na época que
começamos A Turma a Globo estava reprisando
os Trapalhões. Aí o Jacaré e o
Tadeu Mello se identificaram com Mussum e Zacarias. Só
faltava trazer o Dedé Santana, se bem que o Marcelo
Augusto também ficou um pouco parecido com ele. A garotada
gostou deles, mas é o pessoal que não conheceu
os Trapalhões e não compara, porque o
duro é a comparação. Ninguém iria
aceitar se fosse uma substituição. Tem substituto
para o Mussum? Para o Zacarias? Para o Dedé? Não,
eles são eles.
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