Entrevista  
“Jogo futebol uma vez por semana e caminho sempre que posso, de 30 a 40 minutos”, conta Renato
• • •

CONTINUAÇÃO

Você nunca pensou em
mudar de profissão?
• Ter sido pai aos 64 anos
o fez sentir mais jovem
?
• • •
Renato Aragão
‘‘Sou como cabrito. Vou até o último berro’’
O humorista completa 70 anos, lança seu primeiro
romance, que mostra violência e cenas de sexo, e
diz que tem o direito de fazer uma coisa diferente

Enviar para um amigo

Texto: Luís Edmundo Araújo
fotos: Alexandre Sant’anna

Os fãs de Didi Mocó vão se surpreender. Renato Aragão, que completará 70 anos em janeiro, lança na quarta-feira 17 seu primeiro romance, Amizade sem Fim, pela editora Mondrian. A história, que aborda temas religiosos, mostra a violência carioca e cenas de sexo, desconstrói a imagem do humorista cultivada há décadas. Há dois anos ele escreveu um livro de pensamentos, Meus Caminhos. Dessa vez se propôs um desafio maior. Pai de cinco filhos (Paulo, 43, Ricardo, 41, Renato Jr., 38, Juliana, 26, e Lívian, 5) e avô de oito netos, Renato garante: essa é mais uma de suas facetas. Casado há 13 anos, com Lílian Taranto, 37, mãe da filha caçula, ele não pensa em abandonar o humor circense que o tornou famoso. Só não gosta de rever seus filmes antigos, por um único motivo. “Tenho muita saudade”, resume, referindo-se aos companheiros Mussum e Zacarias, já falecidos.

Por que decidiu escrever um romance?
A idéia surgiu da minha prática com roteiros. Escrevi 37 dos mais de 40 filmes que fiz. Nos últimos, surgiam idéias que não eram para temas infantis, não tinha como encaixar o Didi nelas. Comecei a perceber que aquilo daria um livro. O tempo foi passando e fui criando mais coragem. Por que não podia fazer um livro? Não era uma coisa errada. Tenho projeção nacional como palhaço, mas tinha também a pretensão de escrever pelo menos um romance.

Não tem receio da crítica?
Tenho medo de se aproveitarem do Didi. Eles já vêm pra cima de mim como se fosse um livro do Didi Mocó, mas estou calejado. Nos meus filmes, estou acostumado a levar porrada. Quanto mais eu levava porrada mais bilheteria dava. O que tenho a dizer é que fiz um livro
com seriedade e com minha experiência de redação nos roteiros. Se você entra na praia dos outros, acham que é um invasor. Mas me
sinto um convidado, e garanto que não vou jogar papel nem garrafa
na praia dos outros.

O livro tem cenas de violência e sexo. Não teme chocar seu público infantil?
Quem escreveu o livro foi o Renato Aragão. Meu público vê o Didi Mocó. Essa é a minha saída. Não quero deixar meu público infantil, mas o romance é outra faceta minha que não queria deixar guardada num canto. Tenho o direito de fazer alguma coisa diferente.

Nunca pensou em mudar de profissão?
Sou um palhaço, vou morrer fazendo humor infantil, circense, primário, humor de palhaço. Para isso não como carne, gordura, fritura, bebo só socialmente. Para conservar o meu físico, poder pular, saltar janela, porque o meu humor é visual. O dia que eu não puder fazer tudo isso, vou parar.

A chegada dos 70 anos o incomoda?
Não fala disso, não. É tanta idade que eu até nem sei mais. Minha mulher quer comemorar essa data, mas eu não gosto disso, não. Sei
lá, principalmente esse número. Não sei o que vou fazer com esse número. Pula isso aí.

Está em crise por causa dos 70 anos?
Não, eu sou como cabrito. Vou até o último berro. A idade cronológica não me interessa. Me interessa a idade física, o que eu posso fazer no momento. Faço ginástica, passo fome, sempre fiz dieta, passei minha vida toda me policiando. Afinal, uso o corpo para fazer as crianças rirem, é minha ferramenta de trabalho.

Como mantém a forma?
Jogo futebol uma vez por semana e caminho sempre que posso, de 30 a 40 minutos. Aliás, eu dou conselho a qualquer um: troque seus re-
médios, seus comprimidos por um par de tênis, porque ele resolve todos os seus problemas físicos, mexe com tudo, seu corpo, sua cabeça. Aquela insônia, aquela depressão que às vezes você tem, tudo passa.

Comente esta matéria