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Quando ele ingressou em Harvard, os colegas diziam: "Você é brasileiro. Então venha limpar o chão, ou lavar nossos pratos"
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Televisão
Um astro brasileiro em Beverly Hills

O cirurgião plástico Robert Rey, levado para os
Estados Unidos aos 12 anos, quando morava numa
casa de um quarto em São Paulo, chega a faturar
US$ 100 mil por dia e estrela reality show
Texto: Fábio Farah
foto: Cláudio Gatti

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Aos 12 anos, Roberto chegou em casa com brinquedos e doces que havia furtado de um supermercado em São Paulo. No dia seguinte, dois jovens americanos bateram na porta de sua casa. “Deixe-me levar essas crianças para os Estados Unidos. Eu os crio para você e lhe tiro esse estorvo”, disse um dos missionários mórmons ao chefe da família. O falido engenheiro americano Robert Rey, naturalizado brasileiro, aceitou prontamente, apesar das lágrimas copiosas da esposa, a gaúcha Avelina Reisdörfer. Foi assim que Roberto – e seus três irmãos – saíram da casa de um quarto no bairro da Lapa de Baixo e foram parar no Estado de Utah, adotados por uma comunidade religiosa. “Meu pai era um monstro, e minha mãe não tinha voz. Estava contentíssimo de sair daquilo”, recorda-se ele, que até então dormia sobre uma mesa. Robert nunca mais viu o pai, mas, aos 16 anos, reencontrou a mãe e voltou a morar com ela, no Arizona.

Após 31 anos, Roberto Miguel Rey Júnior – Robert Rey para os americanos – está entre os cinco melhores cirurgiões plásticos de Beverly Hills, chega a ganhar US$ 100 mil por dia, mora numa mansão de US$ 10 milhões, opera celebridades – embora não divulgue nomes – e é a estrela principal do reality show Dr. 90210 (o número é CEP de Beverly Hills), do E! Entertainment Television, que conquistou uma audiência média de 330 milhões de telespectadores, em 120 países. A partir do domingo 17, às 20h, os conterrâneos do doutor Robert também poderão acompanhar seu dia-a-dia: o relacionamento com a esposa Hayley, 30, e com a filha Sydney, 3, as cirurgias plásticas autorizadas por pacientes e seus momentos de lazer. “Idealizei o programa para mostrar que os cirurgiões plásticos são pessoas éticas, não são playboys com vícios e cheios de filhos ilegítimos”, diz Robert, que propôs o reality show indignado com os médicos de má índole retratados no seriado Nip Tuck, da Fox. “Eu não fumo, não uso drogas, não bebo, sou um marido fiel e faço uma oração antes de cada cirurgia”, completa ele, que é mórmon.

Sua vida nos Estados Unidos nem sempre foi um mar de rosas. Quando ele passou nos exames e foi admitido na Harvard University, uma das mais prestigiadas do mundo, os colegas zombavam dele. “Você é brasileiro. Então venha limpar o chão, ou lavar nossos pratos”, diziam eles. Robert chegou a ser abandonado por uma namorada que abriu sua carteira e descobriu seu nome verdadeiro. “Os latinos, negros e chineses nem eram convidados para as festas. Quase não passei do primeiro ano”, conta o médico.

Dezessete anos depois, na formatura, um professor advertiu: “Você vai para uma das áreas mais competitivas do mundo e para o lugar que tem a maior concentração de cirurgiões plásticos por habitante. Será difícil obter sucesso”. Ele não deu ouvidos. Pegou todas as suas coisas, colocou no banco de trás de um Mustang velho e dirigiu para Beverly Hills. “Minha auto-estima estava baixa, e eu precisava me tornar um dos melhores. Hoje recebo os parabéns dos mesmos colegas que me humilhavam”, diz o doutor Robert Rey. Ele é a prova de que, aqui ou nos Estados Unidos, brasileiro vence na raça.

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