Reportagens  
A profissão de ator o aproximou
do pai: “Se entrasse no universo dele, falaríamos a mesma
língua”, diz Leonardo
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Revelação
A face do herdeiro

Filho de Christiane Torloni e Dennis Carvalho,
Leonardo Carvalho resistiu a se tornar ator e
conta como superou a morte do irmão gêmeo
texto: Nina Arcoverde Mansur
fotos: Alexandre Sant’Anna

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Quando se formou no ensino médio, Leonardo Carvalho tinha apenas uma certeza. A única profissão que não desejava seguir era a de ator. Filho de Christiane Torloni e Dennis Carvalho, ele cresceu nos bastidores de televisão e nas coxias de teatros e desde cedo conviveu com a instabilidade comum à carreira e com o ônus causado pela fama. “Eu me assustava quando minha mãe parava num sinal e as pessoas batiam no vidro do carro”, lembra. Por isso, optou pela faculdade de jornalismo. Após seis períodos, porém, percebeu que aquele ainda não era o seu caminho. Depois de alguma resistência, rendeu-se aos conselhos da mãe e assistiu a algumas aulas de um curso de teatro. A experiência foi suficiente para despertar no então indeciso Leonardo a vontade de ser ator.

Hoje, quatro anos depois, ele mostra que se descobriu e o que aprendeu como o lutador Gatto de Senhora do Destino. Mas até chegar ao horário nobre, Leonardo enfrentou muita resistência. A primeira foi do pai. Assim que soube da decisão do filho, Dennis foi incisivo. “Ele me mandou estudar primeiro porque existe muito ator ruim por aí”, conta. E foi exatamente o que Leonardo fez. Formou-se em teatro pela Casa de Artes Laranjeiras, no Rio, e fez “estágio” nos bastidores de Celebridade até aceitar o convite de Wolf Maya. “Eu queria estar pronto, não queria constranger minha família”, diz ele, que além da novela das oito está no elenco do longa Odiquê?, exibido no Festival do Rio. “É difícil não estar vinculado a meus pais. Mas quero trilhar meu próprio caminho.”

A escolha profissional o aproximou mais de Dennis. “Meu pai sempre foi workaholic, sempre senti muito a ausência dele”, conta. “Se entrasse no universo dele falaríamos a mesma língua”, completa, afirmando que hoje se sente feliz com o fato de estarem mais unidos. O diretor concorda. “Quando ele voltou de Portugal nos unimos na dor. Mas a decisão de ser ator nos aproximou mais ainda”, admite Dennis. Leonardo e Christiane moraram em Portugal após o acidente de carro que matou Guilherme, irmão gêmeo de Leonardo, em 1991.

A temporada em Portugal foi fundamental na vida do ator. Ele conta que a decisão de sair do País surgiu ainda no hospital, um dia após o acidente do irmão. “Minha mãe me disse que a situação estava barra-pesada e que precisava sair fora”, lembra. Um mês e meio depois, os dois desembarcaram na Europa para morar num pequeno apartamento em Cascais. Ali, Leonardo viveu uma realidade muito distante da a que estava acostumado no Brasil. Como Christiane não sabia passar, cozinhar ou lavar, ele precisou aprender tudo. “Passei dois anos comendo carne torrada e usando calça queimada do ferro”, recorda. Também não fez amigos. Em seu tempo livre, costumava pedalar acompanhado apenas do walkman pelas redondezas. “Era um fantasminha. No luto você não se deixa ser feliz.”

Os laços com o teatro marcaram a grande virada na vida de Leonar-
do. Foi com a arte que ele superou a morte de Guilherme quando retornou ao Brasil. Hoje, sempre antes de entrar em cena o ator
pensa no irmão. “Me sinto mais protegido, parece que ele está comigo”, diz ele, que, solteiro, prepara-se para morar sozinho.

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