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Ronnie ficou na FAB dos 15 aos 18 anos. Saiu depois que uma babá dele foi visitá-lo com um bolo de chocolate e ele virou chacota. Para superar, fez terapia durante oito anos. “Eu já era cantor e sonhava que estava voltando para a escola de cadetes”, diz Ronnie
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Carreira
Ares de príncipe

A convite de Gente, o cantor e apresentador Ronnie Von
revive na base aérea de Guarulhos seu tempo de cadete
da FAB, conta que entrou no universo feminino para poder
criar os filhos sozinho e se diz metrossexual
texto: Rodrigo Cardoso
fotos: claudio gatti

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O Príncipe da Jovem Guarda na base paulista da FAB:
“Imagine eu fardado, de quepe. As meninas deliravam!”, diz ele
Céu de brigadeiro na base paulista da Força Aérea Brasileira (FAB), em Cumbica, Guarulhos. Numa tarde de setembro, um ar saudosista tomou conta do cantor e apresentador Ronaldo Von Schilgan Cintra Nogueira, o Ronnie Von, assim que ele pisou no local. Impecável, de paletó e óculos escuros, Ronnie foi recebido por coronéis, majores, sargentos. No reencontro com seu passado, proposto por Gente, a comenda da FAB reluzia em seu paletó. “A Força Aérea foi o norte da minha vida”, diz o ex-cadete, emocionado. “Entrei com 15 anos na escola preparatória de cadetes e, lá, formei minha personalidade, aprendi disciplina, organização, hierarquia e respeito à lei.”

Aos 60 anos, Ronnie carrega daquela época hábitos como jamais permitir que uma mulher abra a porta de um carro e enviar flores no dia seguinte para “as meninas” que são gentis. À FAB, ele também deve o fato de saber arrumar corretamente a cama e a acordar, sem resmungar, às 5h30, o que ele faz para apresentar o Todo Seu, diariamente na tevê Gazeta. “Imagine eu fardado, de quepe. As meninas deliravam!”, relembra Ronnie.

O fascínio por aviões começou na infância. Já adulto, ele teve quatro aeronaves – chegava a limpar os equipamentos de bordo com cotonete –, foi piloto da Vasp e computou 4.820 horas de vôo, tal qual brigadeiro. Poderia ter voado mais, não tivesse interrompido, aos 18 anos, o sonho para seguir os passos do pai economista e diplomata. Ronnie se formou e trabalhou no mercado de capitais. Mas encontrou a fama ao empunhar o microfone, jogar o pescoço para tirar a franja que cobria os olhos verdes e soltar a voz com o hit “Meu Bem”. Desde então a Jovem Guarda ganhou seu Príncipe – assim o chamavam – e ele vendeu 10 milhões de discos.

Um episódio pitoresco selou seu desligamento da FAB. Certo dia, sua babá, Amélia, foi vê-lo. “Amélia fazia um bolo de chocolate precioso”, lembra Ronnie. No portão, pediu para falar com o cadete Nogueira e identificou-se: “Sou a babá dele e trouxe o bolinho de chocolate que ele adora”. Ronnie conta como o recado foi passado pelo auto-falante. “Atenção, cadete Nogueira, sua babá veio lhe visitar e lhe trouxe um bolo de chocolate.” Ronnie ouviu gozação durante meses e deixou a FAB. Deprimido, fez oito anos de terapia. “Eu já era cantor e sonhava que estava voltando para a escola de cadetes”, conta. “Tive de superar o fato de sair da FAB sem querer ter saído.”

Na vida afetiva, Ronnie não permitiu interferências familiares. A mãe dele, Noly, insistia para que ele se casasse com uma moça da sociedade carioca. Ele estava interessado em Miúcha, a grande menina do posto 4 de Copacabana, e tinha um encontro com ela. À mãe, ele dissera que se casaria com a primeira mulher que visse na praia. Miúcha teve uma amigdalite, 40º de febre e não foi. Ronnie conheceu ali Aretusa, com quem foi casado durante 12 anos e teve dois filhos: Alessandra, 34 anos, e Ronaldo, 33.

“Tenho cuidado de passar um creminho
antes de dormir, pentear legal o cabelo,
ter a roupa impecável’’ Ronnie Von
Ao se separarem, ele ficou com a guarda deles. Da experiência de criá-los, lançou Mãe de Gravata, livro que está na 11ª edição. “Sofri preconceito até de amigos quando passei a freqüentar a tribo feminina, que não era a minha, mas me ensinou a administrar a casa, trocar fralda, fazer mamadeira.” Cristina, 49 anos, mulher de Ronnie há 18, explica como eles se completam: “Tenho cabeça de homem, Ronnie pensa como mulher”, diz. “Batemos de frente um pouco. Temos dois castiçais em cima da mesa que, todo dia, coloco para frente e ele, para trás.”

Ronnie confirma que seus valores, sua visão de mundo, têm a ótica das mulheres. Até no trabalho – além de apresentar um programa feminino, ele é dono de uma agência de publicidade e de uma empresa da construção civil – está cercado de mulheres. “Tenho vaidade feminina, não de pintar a unha como o David Beckham. Mas tenho cuidado de passar um creminho antes de dormir, pentear legal o cabelo, ter a roupa impecável”, diz. Ele conta que conhece cama, mesa e banho como ninguém, qualquer ponto de bordado, qualquer renda. Lava, passa, cozinha. “A roupa da minha mulher quem compra sou eu, do sapato à lingerie”, diz. “Isso é ser metrossexual? Me considero um, então.”

Nesse exato momento, o papo, pontuado pelo som de pouso e decolagem de aviões, é interrompido por Cristina. Ela lembra Ronnie que o dia seguinte começaria para ele às 5h30. O top gun Ronnie Von deixa a base aérea. Não sem antes anotar o nome da esposa do comandante da FAB, que o recebeu cordialmente, para lhe enviar flores no dia seguinte.

Agradecimentos: fab/ base aérea de são paulo

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