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Revelação
Rebelde com causa
Diretor de Cama de Gato, o mais polêmico filme da temporada, Alexandre Stockler
diz que aborda o lado feio da classe média alta porque cresceu nela e a conhece
texto: Claudia Jordão
foto: Piti Reali

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"A violência não existe só na periferia, o que acontece é
que a classe média alta é hipócrita e esconde essas coisas"
As lembranças daquele dia ainda estão frescas na memória de Alexandre Stockler. Ao chegar à escola, de classe média alta, num bairro bacana de São Paulo, onde cursava o ensino médio, ele soube que uma colega havia sido estuprada por um cara com quem costumava sair. Ela havia sido violentada dentro do armário de um quarto durante uma festa. Apesar de gritar, ninguém tentou salvá-la. E depois todos agiram como se nada tivesse acontecido. Na primeira chance que teve, Stockler, um sujeito pacífico, deu um murro no estuprador.

Foram fatos assim que o indignaram a ponto de nortearem uma pesquisa sobre o comportamento dos jovens de classe média alta, que durou cinco anos e culminou no longa-metragem Cama de Gato, em cartaz em São Paulo. “O que me incomoda é que daqui a 20 anos serão esses jovens que estarão no poder”, diz Stockler, 31 anos. O filme mais polêmico da temporada conta a história de três amigos que, por diversão, se envolvem num estupro e numa série de assassinatos. “A violência não existe só na periferia, o que acontece é que a classe média alta é hipócrita e esconde essas coisas.”

O curioso é que a classe social criticada por Stockler é a dele. “Sei o que acontece porque cresci nela.” Filho de um engenheiro e de uma psicanalista, Stockler é bisneto do educador Christiano Stockler das Neves, que foi prefeito de São Paulo, sempre estudou em bons colégios e, na adolescência, viajou para a Europa. Ao mesmo tempo, caminhava na contra-mão disso tudo. Por rebeldia e indisciplina, foi expulso quatro vezes de escolas. Sua viagem foi feita com dinheiro que juntou promovendo festas. Seus amigos mexiam com mendigos e travestis na rua, mas ele se sentia um peixe fora d’água e se afastava. “No Brasil, custa caro dizer o que se pensa. E o Alexandre não nasceu para facilitar. Ele sempre foi contestador”, diz o pai dele, Christiano. Stockler é formado em artes cênicas e dirigiu espetáculos de sucesso como Woyzeck, de George Büchner.

De temática difícil, Cama de Gato teve dificuldades para conseguir patrocínio para sua realização e distribuição. “Ouvimos muitos nãos”, conta o diretor. O filme, totalmente independente, foi captado
em digital, custou R$ 97 mil e arrecadou R$ 44 mil em duas semanas. O reconhecimento da crítica começou fora do Brasil. Em 2000, Stockler levou o prêmio de longa-metragem de diretor estreante – o primeiro dos cinco conquistados até agora –, além de menção honrosa e elogios do consagrado ator francês Gérard Depardieu no 26º Festival de Filmes do Mundo de Montreal, no Canadá. Stockler já
tem dois projetos engatilhados, que mais uma vez abordam a classe média. “Vamos ver até que
ponto Cama de Gato vai ajudar”, diz.
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