7 de fevereiro de 2000
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Entrevista - Simone

"Amo branco, preto, homem ou mulher"
Cantora diz que não tem opção sexual e que experimentaria até um terceiro sexo

Rosângela Honor

Foto: André Durão

Ex-jogadora de basquete da seleção brasileira e professora de educação física, Simone Bittencourt de Oliveira viu sua vida mudar radicalmente em 1972, quando foi descoberta por um diretor da gravadora Odeon enquanto cantava para amigos em uma festa em São Paulo, onde morava. Daquele momento até o dia em que estreou, um ano depois, no palco do Olympia, em Paris, a baiana parecia estar vivendo um sonho. A estréia no Brasil só aconteceu depois de apresentações na Alemanha e na Bélgica. Simone se transformou numa das cantoras de maior sucesso nas décadas de 70 e 80. Tem 31 discos lançados no Brasil e no exterior. Agora, aos 50 anos, completados no dia de Natal, ela conta a Gente, na pérgula do Copacabana Palace, que convive naturalmente com o fato de não fazer o mesmo sucesso de 20 anos atrás. "Poucos artistas, como Roberto Carlos, conseguem se manter lá em cima durante tanto tempo", diz. "Não caí no ostracismo, não sou fracassada." Neste mês, começa a selecionar o repertório do próximo disco, que será gravado em março. Avessa a preconceitos, ela conta que está sozinha, mas em busca de alguém, com apenas uma condição: que seja de sua idade. Seu espetáculo, Fica Comigo Esta Noite, está rodando pelo País e estréia em 6 de abril no Palace, em São Paulo.

Depois de oito anos você volta a fazer parceria com Ney Matogrosso em Fica Comigo Esta Noite...
Nós nos conhecemos em 1974, quando o Secos & Molhados apareceu. Desde então, estamos juntos, somos amigos de freqüentar a casa um do outro.

Namorou o Ney Matogrosso?
Namoramos nos anos 80.

E como foi?
Foi ótimo. O que mais você quer que eu diga?

Aos 50 anos, tem alguma crise?
Tenho 50 anos, o que posso fazer? Crise? Tive há muitos anos, até já esqueci. Não tem como reverter. Tem que encarar. O auge da idade de uma mulher é aos 35, 40, 45 anos. É claro que a pele muda. Entrei na menopausa há dois anos. Mas no primeiro dia do ano fiquei mocinha, depois de um longo e tenebroso inverno. A gente incha, engorda, fica com um humor de cão. Já tenho pavio curto, fiquei pior. Ter celulite e não ser durinha incomoda. Mas vou fazer o quê? Vou meter minha cabeça na parede, me rasgar inteira? Não vou!

Faria uma cirurgia plástica?
Claro. Já fiz um lifting. Não fiquei nem um pouco grilada. Nunca falei sobre isso porque nunca ninguém me perguntou e não vou ficar anunciando. Jamais faria uma coisa para ficar com a pele esticada, parecendo um peixe. As coisas têm de ser feitas na hora certa, e eu fiz. Foi só para suavizar a expressão. Se precisar fazer novamente, eu faço.

Você é muito crítica quando se olha no espelho?
Acho que estou bem para a minha idade. Eu não sabia o que eu era quando tinha trinta e poucos anos. Hoje, quando vejo uma foto minha, nua, no Taiti, eu penso: meu Deus! Se eu soubesse, naquela época, que eu era isso tudo, teria dado um trabalho desgraçado. Mas nunca liguei para isso. Quando comecei a ligar, o tempo já tinha passado.

Colocaria silicone no seio?
Há mulheres que ficam com aquela muchibinha depois da amamentação. Eu colocaria silicone. É ruim olhar no espelho e ver aquela coisinha triste, olhando para o pé. O problema é o exagero, aquelas duas bolas na cara. Não gosto.

Você tem cuidados com sua forma física?
Como de tudo. Ando diariamente e malho. Faço abdominais, exercícios de braços e pernas. Dedico duas horas e meia do meu dia a isso, faço por prazer. Quando tenho compromissos ou estou cansada, não faço. Gosto também de andar, sou muito tensa. Meu nome é Tensão Bittencourt de Oliveira.

Depois de 27 anos de carreira, você ainda consegue manter o entusiasmo inicial?
Até mais. Quanto mais o tempo passa, mais fascinante. Esta história de que o domínio do palco fica maior, é mentira. Os deuses do teatro passam uma rasteira e você cai sem saber onde. A gente trabalha com a emoção. E emoção não é como um computador que você liga e ela surge.

Sua postura nos shows mudou?
Mudou. Antes ia para a praia, fazia dois shows por dia. Tomava sol até 5 da tarde. Hoje faço um show e volto esbodegada. Não falo, fico recolhida. Bebo um copo de vinho antes do show e às vezes levo um para o palco.

Já pensou em parar de cantar?
Não, a mesma pessoa que me fez cantar e que vai me fazer parar é o bonitão lá de cima, Deus.

Como reage às críticas ao seu trabalho?
Às vezes fico puta. Outras, deixo para lá. Já soube de críticas de meus shows sem que eles tivessem estreado. Quer queiram ou não, faço parte da música popular brasileira.

Como encara o fato de não fazer o mesmo sucesso de anos atrás?
Normalmente. Não caí no ostracismo, não sou fracassada. É difícil ficar 20 anos lá em cima. Tem os que até permanecem, como é o caso do Roberto Carlos. As pessoas nos querem sempre gravando discos, fazendo shows. Precisamos de tempo para pensar. Estou bem, estou legal. Não tenho nada do que reclamar. Os meus últimos discos, Café com Leite e Brasil, são lindos. Se vai tocar na rádio ou não, é outra coisa.

Acha que a música que é feita na Bahia hoje tem qualidade?
Sem dúvida, Carlinhos Brown é maravilhoso. Só que são tantas coisas acontecendo que muitas vezes não dá para digerir.

Quem é a melhor cantora brasileira atualmente?
Não acho que exista hoje uma cantora que reúna tudo para ser a melhor cantora do Brasil. Já se revolucionou o que havia para se revolucionar. Gosto da Nana Caymmi, da Maria Bethânia, da Gal Costa, da Zizi Possi. Não tenho nada contra ninguém. Falo de todas as divas. Gosto da Ana Carolina, da Cássia Eller. Estou doida para que Marina volte a cantar.

Sente-se transgressora?
Fui, sim. Cantar Tom Jobim e Milton Nascimento com bateria de escola de samba atrás não é transgredir? Quem foi que gravou primeiro o grupo As Meninas de Didá e Olodum? Eu. Depois, outras pessoas foram atrás. Gravei com Plácido Domingo. Tenho duas músicas gravadas pela Barbra Streisand. Sou considerada uma grande intérprete pelo Quincy Jones.

Nunca quis ter filhos?
Eu tentei, mas não consegui gerar, sabe Deus por quê. Gostaria de ter tido, mas agora já foi.

Que avaliação você faz de sua trajetória?
Fico orgulhosa. Nunca me corrompi. Sou direita, honesta, generosa. Me orgulho disso. Uma mulher solteira, aos 50 anos, brasileira. Não sou minoria porque não sou negra. Se fosse negra ainda seria minoria.

Não pensa em se casar?
Adoraria, mas teria que sair de casa, porque ninguém vai bater na minha porta. Sinto falta de namorar, de partilhar, de estar com uma pessoa. Estou esperando. Adoraria dividir minha vida com alguém, mas em casas separadas. Você passa a ter manias. Detesto ver uma escova de dentes jogada. Meu guarda-roupa é assim: branco, bege, azul clarinho, azul mais escuro e azul-marinho. Sou bem chata.

Por que está sozinha?
Não consigo entender. Quero que gostem de mim pelo que sou, não pelo que tenho ou possa proporcionar. Sempre acredito, vou de cabeça. Não sou de botar o dedão na beira da piscina para saber se a água está gelada. Quando tomo o susto, já foi. Vivi coisas boas e ruins. Só que hoje quero guardar apenas as coisas boas. Quero que Deus me ajude a limpar. Lixo é para a Comlurb!

Então não vê problemas em falar sobre sua opção sexual?
Eu não tenho opção sexual. Se eu amar, não tem o menor problema. Pode ser branco, preto, homem ou mulher. Quero só que seja da minha idade. O Ney Matogrosso costuma dizer que se existisse um terceiro sexo, ia lá ver como é. É verdade. O que importa é o amor. As únicas pessoas para quem eu devia satisfações eram os meus pais, que nunca me cobraram nada, muito pelo contrário.

Faz análise ou alguma terapia?
Faço duas vezes por semana. Fiquei oito anos sem fazer e voltei quando entrei na menopausa. É complicado entrar na menopausa. Dá calor, a libido vai para a casa do cacete. Fiquei inchada, me achava feia, engordei. É uma fase muito difícil para a mulher. O homem também tem isso, só que é menos exigido. Aos 40, 50 ele é um tesão. Pode ficar gordo, barrigudo, ter rugas e cabelo branco. Mas quer a mulher linda, enxuta e maravilhosa. A mulher tem que exigir também que ele seja um gato, gostosão e enxuto.

Envie esta página para um amigoJá usou drogas?
Só experimentei maconha algumas vezes, mas não gostei. Minha cabeça ficou enorme, parecendo um ET. Nunca usei outras drogas.

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