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Uma
vez por semana, Fernando Braga da Costa veste uniforme e
vai varrer ruas. Carrega esterco, limpa fossas, trabalha
debaixo de chuva ou sol. Por causa disso, desenvolveu tendinite
nos antebraços. A rotina começou há
10 anos, com um trabalho de Psicologia Social 2, disciplina
que cursava na USP e que propunha aos alunos assumirem uma
profissão reservada às classes pobres durante
um dia. Fernando escolheu ser gari na própria universidade.
As descobertas o levaram a estudar profundamente a relação
da sociedade com esses trabalhadores, o que resultou no
livro Homens Invisíveis – Relatos de uma
Humilhação Social (Globo, 256 págs.,
R$ 32).
“Como gari, senti na pele o que é um trabalho
degradante.
Vivi situações que me impulsionaram a entender
melhor o
nosso meio psicossocial”, explica ele, que desenvolveu
a tese sobre a “invisibilidade pública”,
isto é, profissionais como faxineiros, ascensoristas,
empacotadores e garis não são “vistos”
pela sociedade, que enxerga a função, não
a pessoa. Uma das situações experimentadas
por Fernando foi atravessar os corredores da faculdade uniformizado.
Ninguém nem sequer olhou para ele ou o cumprimentou.
“A invisibilidade e a humilhação repercutem
até na maneira como você anda,
fala, olha. Eles não conseguem nos olhar de frente
e, quando olham, piscam rapidamente. O modo de andar lembra
movimentos de robô”, conta ele.
O objetivo não é só conquistar condições
melhores para os varredores. “É preciso reinventar
a divisão de trabalho para que não exista
uma pessoa responsável por limpar nossa sujeira.
Se não, não conheceremos democracia de verdade
ou uma sociedade de iguais. O trabalho de gari parece natural
hoje como a escravidão era há 300 anos.”
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