31 de janeiro de 2000
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Música - MPB

João Voz e Violão
Canções inéditas e bem-vindas repetições em CD fora de padrão

Aluízio Falcão

Foto: J. F. Diorio/AE

Os grandes artistas, na imagem do escritor Henry Miller, chegam a um ponto em que simplesmente deixam cair seus frutos, como árvores maduras. Assim é João Gilberto. Em seu novo CD, ele não teve receio de repetir músicas e detonar, serenamente, em apenas meia hora, todos os cânones vigentes no mercado.

João Gilberto não é para principiantes. O seu trabalho do ano 2000 contrariou expectativas de quem aguardava apenas faixas inéditas ou arranjos opulentos. Ele foi ao estúdio somente com a sua voz e o seu violão - o que, convenhamos, já vale por uma legião de auxiliares. Para trocar idéias, levou Caetano Veloso. O resultado, na contramão dos dogmas, não poderia ser melhor.

Este é o 15.º disco de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira, 69 anos. Com quatro décadas na estrada, caso seguisse imposições de gravadoras, ele já estaria no 42.º. Mas João é, graças a Deus, fonograficamente incorreto. Isso vem assustando observadores desprevenidos que não compreendem a natureza de sua singularíssima personalidade.

Metade do CD é ocupada com bem-vindas repetições e a outra com leituras agradavelmente reveladoras. Esta é a visão de conjunto. Há, porém, brilhantes particularidades. Uma audaciosa situação-limite entre emissão e sussurro na faixa "Desde que o Samba é Samba". A redescoberta do clássico "Não Vou pra Casa" (Antonio Almeida e Roberto Roberti), onde a frase "o samba me criou" vale por uma entrevista sobre influências e origens. E a divisão, jamais experimentada, no samba-canção "Segredo". Talvez ouvida por ele do próprio autor, seu amigo Herivelto Martins.

Principal personagem da bossa nova, João Gilberto cria, no limiar do novo milênio, mais um impacto na indústria cultural. Vira pelo avesso todos os padrões do canto gravado. Mostra que a originalidade, tanto quanto a beleza, é fundamental.
Brilhantemente incorreto

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