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Entrevista
Fotos: Piti Reali
“Vejo um velhinho, de cabelo branco, com rugas, mas
digo: eu não estou velho!”, diz Daniel Filho sobre os encontros com o espelho

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CONTINUAÇÃO
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da Globo?

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Daniel Filho
‘‘Nada melhor que obedecer ordens’’
O diretor-geral da Globo Filmes volta a atuar na telona após 17 anos, em Querido Estranho, diz que lamenta a Rede Globo não ter concorrente
e que chora no cinema

Daniel Bergamasco

 

Quando o cineasta Ricardo Pinto e Silva telefonou para
Daniel Filho e o convidou para protagonizar o longa Querido Estranho, quase não acreditou na aceitação imediata.
“Topei o convite sem nem ter lido o roteiro”, conta Daniel. O filme que estréia dia 23 retrata um homem amargo que transforma o próprio aniversário em um inferno de agressões verbais e marca a volta de Daniel Filho como ator no cinema após 17 anos. O ator e diretor que completará 67 anos em setembro se diz feliz no casamento com a atriz Márcia Couto e com o posto de diretor-geral da Globo Filmes, que coleciona sucessos como O Auto da Compadecida e Cazuza – O Tempo Não Pára. Em outubro, ele lança seu novo longa atrás das câmeras, A Dona da História. “Como ator, ele também é um pouco diretor”, avalia Pinto e Silva. “Opina sobre as cenas no set e, depois do filme rodado, me mandou umas 30 sugestões para a montagem.”

Por que tanto tempo sem atuar?
Porque nunca recebo convites. Devem achar que não vou aceitar, que não terei tempo. É pena, porque adoro atuar.

Como é ser ator num set?
É como se eu fosse a uma pescaria. Problema zero. Como diretor, é problema 100! O diretor é responsável por tudo, o comandante de uma frota, fica todo mundo esperando o que você vai dizer. Como ator, você só tem que obedecer ordens.

Obedecer ordens é fácil para você?
É mole! Nada melhor que obedecer ordens! A responsabilidade é nenhuma. Difícil é dar as ordens.

Que tipo de ator dá mais trabalho?
Tenho trabalhado muito pouco com esses atores porque eu os elimino logo de cara. É aquele camarada que não chega na hora, não presta atenção, vem com o texto para decorar na hora. Tem outros que são pessoas geniosas, mas que são tão bons atores que valem a pena.

Algum exemplo?
O Miguel Falabella. Às vezes parece que está deprimido
(em tom dramático)
: “Não, hoje eu não pooosso! Hoje não, Daniel”. Mas aí dou dois esporros nele, falo: “Pô, não me enche o saco”, e fica tudo bem (risos). Cada ator é uma peça diferente de uma orquestra e deve ser tocada do seu jeito.

Mexeu com você fazer um personagem na terceira idade?
Tinha que começar uma vez, né? Afinal, estou na terceira idade.

O filme o levou a refletir sobre isso?
Refleti sobre o assunto quando fui comprar um ingresso de cinema em Paris e me ofereceram o de sênior, para quem tem mais de 60 anos. E eu tinha exatos 59 anos e 10 meses (risos). Depois voltei para a França na Copa do Mundo e fiz questão de pagar meio ingresso! Meu pai tem 97 anos e minha mãe 93. Se existe a terceira idade, já tenho certeza de que há a quarta. Me sinto bem disposto, mas às vezes tomo um susto quando me olho no espelho.

O que o espelho lhe mostra?
Pergunto: “Quem é aquele velhinho ali?”. Vejo um velhinho, de cabelo branco, com rugas, mas digo: eu não estou velho! Deve acontecer isso com a maioria das pessoas, especialmente nessa época em que vivemos, em que a ciência foi tão gentil com a minha geração.

Considera-se importante para a retomada do cinema nacional?
Sem modéstia, tenho a ver com isso, sim. São poucos os filmes da retomada com os quais não estou envolvido.

Como recebe as críticas de que a Globo Filmes não se arrisca em filmes de menor apelo popular?
(Indignado) Não se arrisca? O filme do Cazuza não é um risco? Que absurdo! Agora que o filme é sucesso, fica fácil falar. Mas eu botei minha cabeça no cutelo. Eu não tinha certeza de que Cidade de Deus ia ser um sucesso. Participei, junto com o Fernando (Meirelles, diretor), da opção de ter no elenco atores desconhecidos e não bonitos. O Leandro (Leandro Firmino da Hora, intérprete do Zé Pequeno) não é um cara bonito. Isso não é um risco? Pelo amor de Deus! Participei da última montagem do filme e tinha certeza de que ele era bom. Mas eu pensava: “Como vamos colocar as meninas bonitinhas que andam nesses shoppings e vêem o Harry Potter para ver esse filme?”. É um filme que tem um elenco de 98% de negros, e isso com o racismo violento que existe no Brasil.

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