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Entrevista
   
Fotos: Leandro Pimentel
‘‘Uma vez passei mal e liguei para a Elis Regina. Ela não usava drogas, me apanhou em casa e me botou debaixo de um chuveiro. Um ano e meio depois, a Elis morre de overdose’’
CONTINUAÇÃO
Ainda sente a morte de Guilherme?

Qual o papel da Deborah na sua vida?

Dennis Carvalho
‘‘Exorcizei a morte do
meu filho na novela’’

continuação

 

Pensou em abandonar a carreira ou se isolar?
Não. Foi o trabalho que me segurou. Era um alucinado. Queria fazer reunião à meia-noite. Coitados dos meus assistentes! Morro de pena deles. Hoje, dez e meia estou dormindo. Minha barra pesada foram as drogas. Era consumidor esporádico de cocaína, em festas. Depois da morte do meu filho, era quase todo dia. E trabalhava direto, sem querer dar bandeira, comandando mais de 100 pessoas.

Como foi esse período?
Ficava sem comer, sem dormir. Cheirava uns cinco gramas por dia em casa, a qualquer hora, para me anestesiar. De manhã, para poder trabalhar, porque virava a noite me destruindo em casa. Durou uns três anos, após a morte do Guilherme.
 

Como parou?
Cheguei num limite de o coração palpitar e eu ficar com medo de morrer. Foi acumulando e a Deborah falando para eu parar. Ela queria se separar. Com razão. Não agüentava uma pessoa ao lado como eu estava. Ela me ajudou, me deu coragem para me internar. Achava uma vergonha, mas foi o que me salvou. Fiquei 40 dias numa clínica de dependentes químicos e passei a freqüentar o NA (Narcóticos Anônimos) diariamente, por um ano e meio. Estou há nove anos limpo. Vou esperar o fim da novela para voltar lá uma vez por semana. É bom não parar.

Algum susto, quando consumia esporadicamente?
Uma vez passei mal em casa e liguei para a Elis Regina, que ficou minha amiga depois que o Milton Nascimento (padrinho de Tainá) nos apresentou. Ela não usava drogas, me apanhou em casa e levou para o Canecão (casa de espetáculos no Rio), onde faria um show. Me botou debaixo de um chuveiro. Me recuperei e, um ano e meio depois, a Elis morre de overdose. Aquilo também pirou minha cabeça.

Qual o papel da Deborah na sua vida?
São quase 16 anos juntos. É uma grande companheira.
Senti que ela falou “vou comprar essa briga”, e comprou. Passou muitos perrengues ao meu lado, sofreu e hoje conseguimos ter a vitória. Metade da responsabilidade
pela minha volta por cima é dela.

Os problemas consolidaram o casamento?
Sim. E a vinda da Luiza também. Além disso, a Tainá
tinha 9 anos quando a mãe dela morreu. Veio morar com
a gente e a Deborah foi mãe dela também, ajudou a
criá-la na fase mais difícil de uma garota, quando ela
precisa de uma mulher para orientar.

Teve medo de morrer ao detectar um câncer no pulmão?
Tive. A vida inteira passa na cabeça. Tive sorte porque detectei ele muito pequeno. Meu médico (Yunes Ryad, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo) decidiu operar e fiquei apavorado. Mas ficou tudo em ordem. Nem quimioterapia fiz.

Como foi a operação?
Fiquei apavorado na hora da anestesia. Nunca tinha tomado antes. Fiz um escândalo no hospital, gritava palavrão, um vexame. Foi há dois anos, durante a Copa do Mundo. Assisti à final no hospital, sem poder gritar porque doía à beça.

Ainda fuma?
Parei um ano após a operação. Voltei com a novela. É
muita ansiedade, mas estou fumando dois, três cigarros
por dia. Com o fim da novela, vou parar.

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