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Entrevista
   
Fotos: Leandro Pimentel
Há dois anos, o diretor detectou e operou um câncer no pulmão: “Estou fumando pouco, dois, três cigarros por dia. Quando acabar a novela, vou parar”, diz
CONTINUAÇÃO
Ainda sente a morte de Guilherme?
Qual o papel da Deborah na sua vida?  

Dennis Carvalho
‘‘Exorcizei a morte do
meu filho na novela’’

O diretor de Celebridade diz que aliviou
dor da perda do filho, há 12 anos, numa
cena da trama, aponta Juliana Paes como revelação e conta como deixou as drogas

Luís Edmundo Araújo
 

Casado pela sétima vez, com a atriz Deborah Evelyn, Dennis Carvalho gosta de se definir como um diretor de conflitos urbanos e humanos. Conflitos como a briga entre Maria Clara e Laura, personagens de Celebridade – novela que ele dirige e é recorde de audiência com média de 58 pontos, o equivalente a 2,8 milhões de residências em São Paulo. Aos 57 anos, com a experiência dos casamentos desfeitos com a atriz Bete Mendes, a psicóloga Maria Tereza Schimdt e as atrizes Christiane Torloni, Monique Alves, Ângela Figueiredo e Tássia Camargo, ele elege o tipo de cena que mais gosta: “Sou especialista em cenas de separação”. Pai de Leonardo, 24, seu filho com Christiane, Tainá, 22, filha de Monique, e Luiza, 11, fruto da união com Deborah, que pôs fim à longa lista de separações de Dennis. Com a ajuda dela, superou conflitos mais sérios, como a morte do filho Guilherme, gêmeo de Leonardo, há 12 anos, e as drogas.

Foi difícil estrear Celebridade após o sucesso de Mulheres Apaixonadas?
Dá pânico. Mulheres Apaixonadas foi um sucesso retumbante e há uma tradição de que a próxima novela comece mal, porque as pessoas ficam naquela “não vou mais ver novela”. Demos sorte porque o Gilberto (Braga, autor de Celebridade) colocou uns ganchos fortes no começo e o público se amarrou.

Aponte uma revelação da novela?
A Juliana Paes. Além de ser linda, ela me surpreendeu como comediante. É muito engraçada, inclusive nos bastidores. Ela tem uma carreira legal, se entrar nessa área da comédia.

Qual a participação do diretor no sucesso de uma novela?
Se não tiver uma boa história, não adianta. O telespectador quer saber o que vai acontecer. Cabe ao diretor coordenar. A cena em que a Maria Clara bateu na Cacau (Cláudia Abreu, intérprete da Laura na novela) foi um desafio. Era perigoso, podia ficar inverossímil duas mulheres brigando no banheiro. Fiquei sem dormir na noite anterior. Podia ter ficado um pouco melhor, mas o resultado foi dentro das expectativas.

Concorda com quem achou exagerados os hematomas no rosto de Laura, após a surra?
Às vezes a crítica procede. As pessoas acham que tinha de ter batido mais, mas aí achei que era demais. A Maria Clara não é uma lutadora. É difícil achar esse meio termo. Geralmente briga de mulher é de rolar no chão, puxar cabelo. Ali, o Gilberto pedia no texto que a Cacau tivesse o rosto transfigurado. O grau dos machucados foi mesmo para dar o impacto, para o público ver a vilã castigada, embora alguns achem que ela não apanhou tanto para ficar daquele jeito.

Concorda com isso?
Tenho a justificativa do anel da Maria Clara. Você não pode botar o caractere embaixo na hora da cena dizendo “aqui o anel da Maria Clara atingiu o rosto”. Não tem como explicar, é difícil. Mas essas coisas fazem parte da profissão.

Que outra cena lhe tirou o sono?
A morte do Bruno Ferrari (Fábio, filho de Fernando na trama) foi difícil. O Gilberto é tão legal comigo que, quando estava escrevendo a sinopse, me disse que mudaria a história se
a morte de um dos filhos fosse me fazer mal. Disse: “Não, vamos fazer”. Para mim foi meio como exorcizar a morte do meu filho. Na hora foi muito dolorido, mas fiz questão de
dirigir a cena. Todo mundo chorou no estúdio, eu chorei.
Minha filha (Tainá) é assistente de figurino da novela. Ela também sofreu com a cena.

Ainda sente a morte de Guilherme?
Perder um filho está fora da ordem natural das coisas. Ele
era muito criança, tinha 12 anos. Ele e o Leonardo eram gêmeos idênticos. Os dois não se largavam, eram muito ligados, nem se chamavam pelo nome. Era meu irmão pra lá, meu irmão pra cá. Quando cheguei no hospital e a Christiane falou “perdemos o Guilherme”, minha vista ficou preta, a perna tremeu, uma loucura. O sentimento de perda de um filho é terrível. Estava fazendo O Dono do Mundo. O Léo foi com a Christiane para Portugal. Eles não iam agüentar a barra
aqui. Foi duro, mas estamos aí.

O trauma foi superado?
Tá. Só tenho a curiosidade de ver como ele seria hoje, do tamanho que o Léo está. Seriam dois parrudos. O Léo tá forte, grande. A Christiane também foi forte. Ele morreu nos braços dela. Ela que segurou a barra toda, no carro e, depois, no caminho para o hospital.

Depois de tantas perdas (um mês antes da morte de Guilherme, Dennis perdeu a mãe, Djanira Carvalho. Sua ex-mulher, Monique Alves, mãe de Tainá, morreu em 1994, de leucemia), acredita em destino?
Acredito, um pouco, que as coisas estão traçadas. Só podia estar escrito. Meu filho, por exemplo, morreu num acidente bobo, de um carro cair de uma garagem (Christiane estava manobrando sua caminhonete na garagem de casa, em São Conrado, no Rio, quando o carro se desgovernou e caiu de uma altura de quatro metros no barranco situado atrás da garagem. Guilherme sofreu traumatismo craniano). Ele não estava surfando ou voando de asa delta.

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