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Teatro /Hamilton Vaz Pereira
A cara do Asdrúbal
O dramaturgo completa 30 anos de criação do grupo Asdrúbal
Trouxe o Trombone, que lançou Luiz Fernando Guimarães
e Regina Casé, e estréia sua 17ª peça no Rio

Luís Edmundo Araújo

 
Leandro Pimentel
“Me sinto um dinossauro. Há poucos iguais
a mim, mas torço por uma renovação”, diz
Hamilton Vaz Pereira

Ator bissexto, o dramaturgo Hamilton Vaz Pereira, 52 anos, poderia ter o rosto tão conhecido quanto os de seus colegas fundadores do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone: Regina Casé e Luiz Fernando Guimarães. Mas algumas exigências da profissão o incomodavam. “Odiava maquiagem e não tinha a preocupação com o corpo que o ator tem que ter”, diz. Hamilton não tem a popularidade que a televisão deu aos colegas, mas virou autor e diretor dos maiores sucessos do Asdrúbal, grupo que virou um marco no teatro brasileiro e este ano completa 30 anos.

O aniversário do Asdrúbal coincide com o da carreira de Hamilton, que estreou no teatro dirigindo O Inspetor Geral, de Gogol, primeira montagem do grupo. Em cartaz no Rio desde a quinta-feira 13, com A Leve, o Novo Nome da Terra, sua 17ª peça e a 28ª que dirige, o diretor se lembra do sucesso de seu primeiro texto, Trate-me Leão, que acaba de lançar num livro. “Criou-se uma atmosfera legal num ambiente de ditadura”, conta. No Asdrúbal, porém, prevalecia a democracia. “Cada um tinha um tempo para falar nas reuniões”, lembra Luiz Fernando Guimarães. “Estávamos na época de botar tudo para fora e o Hamilton coordenava aquilo”, completa o ator.

Enquanto via amigos perseguidos por questões políticas, o dramaturgo sofria com a patrulha ideológica de quem o chamava de alienado por causa de seus temas, centrados no cotidiano da juventude carioca. “Diziam que a gente não subia morro para fazer espetáculos, até que fui na casa de um dos que me acusavam e vi que a família dele era cheia da grana. Assim era fácil, mas eu precisava de dinheiro pra viver”, diz. Hoje, apesar da liberdade de expressão, Hamilton se sente sozinho na profissão ao pensar que os jurados do Prêmio Shell de Teatro não premiaram nenhum dramaturgo em 2003. “Me sinto um dinossauro, há poucos iguais a mim, mas torço por uma renovação”, afirma o autor, que sentiu a morte de Mauro Rasi, ano passado, seu vizinho no Leblon, zona sul do Rio. “Não éramos próximos, mas trabalhávamos na mesma área. Tem tão pouca gente dedicada a isso que senti mais a perda”, diz.

Nada que o impedisse de exagerar na dedicação à peça que marca seus 30 anos de carreira. “Nos ensaios o Hamilton está um garoto, cheio de energia e botando a gente para ralar”, diz o ator Pedro Vasconcellos. A Leve... foi escrita em 1994, na volta de uma viagem à Europa com a mulher, a atriz Lena Brito, que está na montagem. “Concebemos um filho nessa viagem e quisemos compor algo na volta ao Brasil, que agora virou peça”, diz Hamilton, pai de Yuri, 10 anos.

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