24 de janeiro de 2000
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Cinema

Cao Rá-Tim-Bum
Cao Hamburger, diretor de Castelo Rá-Tim-Bum, quis ser músico, fez animação sem desenhar e prepara longa com a criadora dos Teletubbies

Paula Quental

Foto: Pio Figueiroa

Um certo domingo ficou na memória do paulistano Carlos Império Hamburger. Tinha 15 anos e, de repente, se deu conta de que ele era resultado de uma surpreendente mistura cultural. Após a macarronada dominical de praxe na casa da avó materna, italiana e católica, o garoto seguiu para o lanche com os avós paternos, judeus alemães que vieram para o País refugiados da Segunda Guerra. Logo depois, à noite, estava a postos para o ensaio da bateria da escola de samba Pérola Negra, à qual resolvera aderir naquele ano. "Imagina o samba do crioulo doido! Aí eu entendi o que é ser brasileiro", diz o premiado criador de programas infantis. Aos 37 anos, ele faz sua estréia como diretor de longa-metragem com a superprodução Castelo Rá-Tim-Bum - O Filme, em cartaz desde o dia 14. A formação variada de Cao, como é conhecido, não pára por aí. Filho dos físicos Amélia Império e Ernst Hamburger, ele teve contato cedo com o conhecimento científico, mas acabou pendendo para as artes inspirado no exemplo do tio, o artista plástico, cenógrafo e figurinista Flávio Império (1935-1985). "Ele era um gênio, um artista renascentista, que fazia tudo à mão", diz. "Nem de longe quero me comparar, mas posso dizer que herdei dele a vontade de fazer arte."

Só não adivinhava que a sua arte seria o cinema e a televisão. Na infância, Cao e os quatro irmãos passavam as tardes ora ensaiando e encenando peças de teatro, ora explorando o laboratório de Física da USP, onde seus pais eram professores e pesquisadores. Também costumavam desbravar o campus da Universidade de São Paulo de bicicleta. "A USP era o meu quintal", conta. Na adolescência, decidiu que queria ser músico. Deu aulas de violão para crianças e fez parte, como guitarrista, da banda de rock Os Camarões, liderada por Nando Reis, mais tarde um dos Titãs. "Percebi que não teria futuro, era um músico medíocre", diz Cao. O titã discorda: "Com a banda, chegamos a ganhar o Festival de Música Secundarista do Colégio Santa Cruz, em 1979". Nando ainda se lembra de outra qualidade do amigo de infância. "Cao era ótimo goleiro."

Entrou em três faculdades - Educação Artística, Geografia e Filosofia - e não se formou em nenhuma. Um belo dia, se inscreveu num curso de cinema de animação. Entusiasmou-se e começou a freqüentar como ouvinte as aulas da Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, onde fez curtas como o premiado Frankenstein Punk. Formou uma equipe e uma produtora de animação e efeitos especiais, que fechou com o Plano Collor, em 1990.

Foi então procurar emprego na TV Cultura. Na emissora pública, teve a oportunidade de fazer a primeira série de animação da tevê brasileira, Urbanóides, e o seu primeiro trabalho expressivo dirigindo atores, a série de vinhetas sobre prevenção de acidentes domésticos Lucas e Juquinha - Perigo, perigo, perigo!. "Estava louco para dirigir atores. Me especializei em direção e animação de bonecos, mas me perguntava: como isso foi acontecer se não sei desenhar nem fazer bonecos? Entrei no cinema por uma porta meio diferente", diz Cao. Logo foi convidado para dirigir a série Castelo Rá-Tim-Bum, um sucesso tão grande que os 90 episódios são reprisados há cinco anos. "A Cultura funciona como um grande laboratório, um lugar onde cabeças criativas se encontram e desenvolvem projetos. O Cao é uma delas, ele nunca pára de criar, até na hora de gravar muda tudo", diz Renato Fernandes, diretor da programação infanto-juvenil da Rede TV! e ex-parceiro de Cao.

Envie esta página para um amigoContratado da Globo há mais de um ano para ajudar a mudar a programação infantil, Cao está de licença até o fim de janeiro, quando encerra a maratona de lançamento do filme. Só então saberá ao certo o que fará na emissora. Um dos seus projetos é o programa Capitão Sardinha, sobre o fundo do mar. Também já teve aprovada a sinopse de um infanto-juvenil, Menino do Espaço. Casado com Ana Maria, 36 anos, educadora e autora de livros infantis, e pai de Antônio, 10 anos, e Carolina, 9, Cao é do tipo que emenda um grande projeto em outro. Primeiro, deu vida aos personagens bruxos do Castelo Rá-Tim-Bum: Dr.Vítor, Morgana, Losângela e Nino - esse último, o mascote da turma, com 300 anos de idade - num castelo cenográfico que contém toda a arquitetura do mundo. Agora se prepara para até o fim do ano iniciar as filmagens de um novo longa. Só que, desta vez, sobre um menino comum, em parceria com a inglesa Anne Wood, criadora dos Teletubbies. Os dois se conheceram há quatro anos, quando Cao fez o curta O Menino, a Favela e as Tampas de Panela para produtora de Anne, a Ragdoll. "Isso foi antes de a Globo comprar os Teletubbies. Quando aconteceu, imagina, a Anne me ligava pedindo referências dessa tal emissora!", diverte-se Cao.

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