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Fotos: Edu Lopes
“Foi um desserviço o Lulinha paz e amor. Ele ficou com uma imagem de bebezão que não combina”, diz Fernanda

Cinema - Fernanda Montenegro
Simplesmente uma diva
Premiada no festival Cine PE por O Outro
Lado da Rua
, em que faz sua primeira protagonista no cinema desde Central do
Brasil
, ela se prepara para lançar longa dirigido pelo filho Cláudio e vai filmar com Fernanda Torres e o genro Andrucha Waddington

Mariane Morisawa
Fotos: Edu Lopes

 
Fotos: Edu Lopes
“Em vez de me chamar pelo nome, ele me chama
de minha mãe. Não sou de nhenhenhém”, diz a
atriz sobre o trabalho com o filho Cláudio Torres

"Temos tempo?" foi a única pergunta que Fernanda Montenegro fez ao ouvir a proposta de ser fotografada na praia. Segundos depois, estava afundando o salto na areia em frente ao hotel em Jaboatão dos Guararapes. A atriz
foi a Pernambuco para apresentar o filme O Outro Lado
da Rua
, de Marcos Bernstein, na abertura do Cine PE – Festival do Audiovisual. Na volta ao hotel, um tapete – de esteiras de praia, não vermelho – se estendeu para uma caminhada mais fácil, e ela agradeceu. Mais longe da
postura de diva, impossível.

Naquele momento, Fernanda não sabia que levaria o prêmio de melhor atriz do festival – O Outro Lado da Rua ganhou também as Calungas de melhor filme e fotografia. “Nessa idade, ter alguém que vota na gente é um carinho”, modes-
tamente afirmou depois. Mas se impressionou com a platéia de quase 3.000 pessoas que viu o longa-metragem no Cine-Teatro Guararapes e permaneceu em silêncio durante a cena de sexo com Raul Cortez. “Fiquei com medo de gritarem: ‘Olha lá a velha’”, diz a atriz. Ela saúda a coragem do diretor de colocar duas pessoas de 70 anos numa cama, mas o próprio Marcos Bernstein teve receio, porque, inicialmente, a seqüência não estava no roteiro. Cheio de cuidados, pergun-
tou a Fernanda se não tinha problema. “É preconceito!”, ela brinca. “É como o filho que não quer ver a mãe transar com o pai”, completa. Em sua primeira protagonista no cinema desde Central do Brasil, Fernanda interpreta Regina, uma aposentada que denuncia o que considera suspeito na vizinhança e se envolve com um suposto assassino.

A atriz confessa que esperava, aos 74 anos, mais tranqüilidade. “Pensava que estaria aposentada, fazendo uma coisinha aqui, outra ali. Mas a vida tem me solicitado muito, graças a Deus”, afirma. Neste ano, além de O Outro Lado da Rua, que estréia no próximo dia 28, ela lança Olga, de Jayme Monjardim, e Redentor, do filho Cláudio Torres. Fernanda Montenegro garante que não há diferenças de tratamento. “Em vez de me chamar pelo nome, ele me chama de minha mãe. Se eu maternalizo alguém, é inerente a mim e vem para qualquer jovem diretor com quem trabalho. Não sou de nhenhenhém”, diz.

Depois do lançamento do longa de Bernstein, ela arruma as malas para passar dois meses nos Lençóis Maranhenses, onde filma A Casa de Areia a partir de junho, novamente em família: Fernandona contracena com Fernanda Torres e é dirigida pelo genro Andrucha Waddington. Segundo a mãe, a filha é uma grande companheira de trabalho. “Temos uma relação de gente de mesmo ofício. A Fernanda é uma pessoa muito inteira”, diz. Com os netos, a coisa é um pouco diferente. “Achava que não ia me envolver. Falava que eles não me pertenciam, têm apenas 25% de sangue meu. Mas aí eles vêm tão pequenininhos, e, quando você percebe, está dominada”, diz ela, que confessa estragar um pouquinho os pequenos. “Mas também sou uma avó muito na linha de frente do trabalho. Não tenho tempo de ser a vovó”, diz a atriz, que faz oficinas de leitura dramática pelo Brasil.

Eleitora do PT há 20 anos, Fernanda Montenegro ainda espera do presidente. “Dá para ver que ele não está contente, mas o governo precisa vir com mais socorro, porque são 52 milhões de pessoas que votaram”, diz a atriz. “Foi um desserviço o Lulinha paz e amor. Ele ficou com uma imagem de bebezão que não combina”, diz. Palavra de uma diva, ainda que modesta.
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