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André Durão
Depois de solto, Estrella produziu show de
João Nogueira em
1998 e hoje trabalha
com grupos de hip hop
“O cara (um nome
do show bizz
) pedia
uma quantidade que
eu achava pequena
para ele. Aí o convenci a comprar mais, para
não ser incomodado outra vez’’
“Não me arrependo do que fiz, até porque tive experiências que me fizeram valorizar mais minha vida, minha saúde. Mas jamais faria tudo de novo’’ João Guilherme Estrella


Livros
Estrella não entrega as estrelas
Produtor musical conta em livro suas experiências como fornecedor de drogas da classe artística e da alta sociedade carioca e diz que já guardou 15 quilos de cocaína em casa

Luís Edmundo Araújo

 

João Guilherme Estrella tinha 28 anos quando, numa sexta-feira, no início dos anos 90, uniu-se a três amigos na zona sul carioca para comprar cinco gramas de cocaína. Quando o traficante chegou, os amigos já tinham desistido do negócio. Estrella propôs ficar com a droga e pagá-la na segunda-feira. No dia marcado, a desconfiança do traficante deu lugar a uma proposta. “Ele ficou surpreso por eu ter conseguido o dinheiro tão rápido e ofereceu 50 gramas de cocaína para que eu distribuísse”, conta.

Começava a trajetória do homem que até ser preso, aos 33 anos, tornou-se o principal fornecedor de drogas da alta sociedade carioca. Descrita no livro Meu Nome Não É Johnny, do jornalista Guilherme Fiuza – lançado terça-feira 13 –, a vida de Estrella (que foi denunciado à polícia com o nome de Johnny) entre 1990 e 1995 foi uma festa sem fim, regada a cocaína. “Ganhava R$ 500 mensais (como vendedor de assinaturas de um jornal) enquanto que, numa sexta-feira, lucrava R$ 5 mil vendendo droga”, lembra ele.

Por vender cocaína pura, que recebia de um laboratório de refino de Rondonópolis (MT), Estrella ganhou status na noite carioca. Artistas e músicos eram parcerias constantes. Com eles, comandava noitadas que duravam até quatro dias. Um de seus parceiros era um músico conhecido, cujo nome omite. Estrella financiava a droga e o amigo, as bebidas. “No fim sobrávamos eu e ele. Tínhamos uma resistência enorme para cheirar”, lembra ele, que consumia, num bar com famosos, 100 gramas de cocaína.

Alguns clientes de Estrella tinham tratamento especial. Um deles, figura do showbizz nacional, ligava para o ex-traficante às 10h pedindo mais cocaína, depois de passar a noite em claro consumindo a droga. “Em alguns casos o cara me pedia uma quantidade que eu achava pequena para ele. Aí o convencia a comprar mais, pra não ser incomodado de novo depois”, conta Estrella, que dispensava esse tratamento a dois ou três clientes vips, todos, segundo conta, artistas conhecidos.

Preso em seu apartamento em Copacabana com 6 quilos
de cocaína e condenado a quatro anos, Estrella teve a
pena reduzida para dois e a cumpriu no Manicômio Judiciário do Rio, já que seus advogados provaram que ele agia sob efeito da droga. “Gastava R$ 25 mil por mês. Comprei só
um Fiat Uno Mille, que foi roubado”, lembra. Mesmo assim Estrella virou um barão da droga e chegava a ter até 15 quilos de cocaína em casa. “O João era a bola da vez da polícia quando foi preso”, conta Guilherme Fiuza, que ouviu essa versão do delegado da Polícia Federal da época,
Flávio Furtado.

Casado e sem filhos, Estrella vive numa casa alugada no Humaitá e é produtor musical. Começou produzindo shows
em shoppings da zona norte do Rio e em 1998, produziu
um show de João Nogueira. Hoje trabalha com grupos de
hip hop e vai gravar seu primeiro disco, com músicas compostas na prisão. Teve ofertas para voltar a traficar,
mas recusou. “Não me arrependo do que fiz. As experiências me fizeram valorizar mais a vida, minha saúde. Mas jamais faria tudo de novo”, diz.

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