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Diversão & arte - Teatro
   
Divulgação

Andrea Beltrão é a sobrinha envolvida
com um tio

Drama
Como Aprendi a Dirigir um Carro
Andrea Beltrão e Paulo Betti tratam
de pedofilia sem obviedade

Cristian Avello Cancino

 

Dentre as muitas cenas que ficam na cabeça depois de assistir a Como Aprendi a Dirigir um Carro, da americana Paula Vogel, que estréia em São Paulo inaugurando o Teatro Vivo, há uma em que o personagem Peck (Paulo Betti), ao som de música sacra, arregaça a barra da calça e mergulha os pés num riacho. Como um Cristo, parece buscar a expiação de suas culpas – Peck é apaixonado pela sobrinha menor, Li’l Bit (Andrea Beltrão).

A história nos lembra imediatamente o polêmico livro de Vladimir Nabokov, o clássico Lolita, fonte de inspiração da autora. Aqui, entretanto, não somos guiados pelo pedófilo, mas pelo ponto de vista das memórias evocadas por quem, nesses casos, é chamada de vítima. Não temos raiva de Peck e nem mesmo Li’l Bit parece julgar com asco as ações do tio, antes há cumplicidade e alguma condescendência.

Tanto o texto como a encenação de Felipe Hirsch nos ajudam a abstrair o julgamento fácil e condenatório. O palco é inclinado e há um espelho enorme no fundo da cena – o retrovisor do carro de que fala o título –, que nos põe num mundo de tridimensionalidade e relativismo. As interpretações da dupla protagonista evitam os cacoetes fáceis e, com intenções claras e bem acentuadas, percorrem os caminhos da história, cheia de idas e vindas, arrebatando o público. Direção arrojada

 

• Teatro Vivo
Av. Chucri Zaidan, 860,
São Paulo, tel. (11) 3188-4147. Até 9/5.