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Romance
Ensaio sobre a Lucidez
José Saramago questiona democracia e fala de terrorismo em obra altamente politizada

Cristian Avello Cancino

 
José Saramago: as instituições que regem os Estados democráticos viram personagens
A crítica brasileira tem sido quase unânime na apreciação negativa do recém-parido Ensaio sobre a Lucidez (Companhia das Letras, 328 págs., R$ 39,50), do Nobel português José Saramago. Diz-se da história que padece de “miopia autoral”, lembrando, em figura de linguagem precipitada, o mal da cegueira que acomete o povo de uma cidade em Ensaio sobre a Cegueira, de 1995.

O livro de agora se refere à mesma comunidade daquela história, que, numa eleição corriqueira, resolve votar maciçamente em branco. As autoridades, desconcertadas, respondem declarando estado de sítio e patrocinam um ato terrorista procurando culpar os “insurgentes brancosos”, que desestabilizariam a democracia com o ato do voto em branco. Se, por um lado, os personagens desta ficção não são delineados em humana profundidade, como em Ensaio sobre a Cegueira, está clara a opção do autor por tornar protagonistas as instituições que regem os Estados (ditos) democráticos. E nesse alvo, em tempos como os de hoje, quando se faz a guerra em nome da democracia, é preciso acertar. Ou ao menos questionar.

Nesse sentido, o autor cumpre sua função artística com responsabilidade. Quanto ao estilo, de parágrafos longos e tortuoso (para brasileiros) português de Portugal, nada há que um bom dicionário e um pouco menos de preguiça não resolvam. Sempre lúcido