17 de janeiro de 2000
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Testemunhas do Século - Rinaldo De Lamare, 90 anos

Uma vida entre choros, fraldas e vacinas
Introdutor do soro caseiro no tratamento da desidratação e o primeiro a escrever um livro no Brasil com as noções básicas de pediatria, o médico prepara a 41.ª edição de sua obra A Vida do Bebê

Viviane Rosalem

Foto: Kiko Cabral

Aos 90 anos, completados no último dia 2, o pediatra Rinaldo De Lamare, autor do best seller A Vida do Bebê, lançado em 1941, continua em plena atividade. Até o fim do ano, publicará mais uma edição atualizada, a 41.ª da obra. O médico, que trocou Santos pelo Rio aos 16 anos para concluir seus estudos, conta que a opção pela carreira aconteceu numa época em que não havia muitas alternativas. "Na época, os jovens optavam entre três carreiras - engenharia, Direito e Medicina", conta. "Escolhi a que mais me fascinava", lembra.

Assim que chegou ao Rio, De Lamare foi morar com o avô, o almirante José Victor De Lamare, mas recebia do pai uma mesada de 200 mil réis, com a qual comprava livros de Medicina. Ao ingressar na Universidade do Brasil, hoje a Federal do Rio de Janeiro, o estudante levou trote. Na ocasião, desfilou com um chapéu de mulher pelas ruas e andou com o rosto maquiado.

Em 1932, quando se formou, aos 22 anos, De Lamare abriu sua primeira clínica em Madureira, no subúrbio do Rio. Cobrava 5 mil réis pela consulta, atendendo a cem crianças por dia. "Não havia antibióticos nem vacinas naquela época e todo mês eram freqüentes os casos de doenças contagiosas como sarampo, catapora e coqueluche", conta. Surtos de meningite também surgiram, assim como os de paralisia infantil. "Foi uma glória quando descobriram a vacina contra a poliomielite, em 1953, porque era muito triste dizer para uma mãe que o filho não estava gripado, e sim paralítico", lembra. Para tratar de seus pacientes, De Lamare, muitas vezes, receitava analgésico e aguardava o organismo se defender por conta própria.

Contra a desidratação, o pediatra introduziu o tratamento à base de soro caseiro, feito apenas com uma colher de açúcar, uma de sal e água, receita até então desconhecida no Brasil. "Salvei mais de 80% das crianças", orgulha-se. Além de clinicar, o pediatra passou a dar aulas na Universidade do Brasil, onde se formou. Juntou economias para abrir um novo consultório no Centro, bairro comercialmente nobre. Mas, até conseguir se firmar, ficou sem clientes por três anos. Foi quando resolveu escrever seu primeiro livro de puericultura, A Vida do Bebê. Sucesso nacional, a obra já alcançou a marca dos 5 milhões de exemplares vendidos em quase 60 anos. De Lamare acabou se transformando no pediatra mais famoso do País. A primeira edição vendeu mil exemplares, marca considerada ótima na época.

Na década de 50, o pediatra transferiu seu consultório para Copacabana, onde chegou a cobrar mil cruzeiros pela consulta. Ele era tão requisitado que teve de contratar dois motoristas para conduzi-lo nos atendimentos em domicílio. "Comparado com a época da Segunda Guerra Mundial, quando o racionamento de gasolina só permita o consumo de cinco a dez litros por dia, por pessoa, tudo havia ficado bem mais fácil", lembra.

De Lamare estava atendendo a um paciente com gripe quando soube, em 1954, do suicídio de Getúlio Vargas. "Ouvi a notícia pelo rádio e fiquei em estado de choque", conta. "Cheguei a parar de examinar o paciente para me refazer do susto." Dez anos depois, em 1964, o pediatra passou a ser diretor do Departamento Nacional da Criança no governo do general Castello Branco. Nessa época, ele quis distribuir pílulas anticoncepcionais no Nordeste, mas foi repreendido pelos militares. "Sempre acreditei no planejamento familiar", diz ele, que tem duas filhas com Germana De Lamare, sua mulher há 62 anos.

Pelas mãos de De Lamare passaram bebês ilustres como os netos dos presidentes Epitácio Pessoa, Arthur Bernardes, Castello Branco e Garrastazu Médici. Também passaram por seu consultório dois ex-presidentes do Banco Central, cujos nomes o médico prefere manter em sigilo. "Foram ladrões", argumenta.

De Lamare só parou de clinicar em 1985, aos 75 anos, quando se submeteu à primeira das quatro cirurgias de ponte de safena que fez nos últimos anos. "Fui salvo pelo progresso", diz. Desde então, o médico, que mora num confortável apartamento na avenida Vieira Souto, em Ipanema, de frente para o mar, caminha diariamente pelo calçadão da praia. Bisavô de Gabriela, de 4 anos, e Bruna, de 2, ele nunca as medicou. "Não conseguiria porque, depois de uma certa idade, a emoção supera a razão", afirma.

Envie esta página para um amigoHoje, o médico está concentrado na próxima edição de seu livro, atualizado de quatro em quatro anos. "Nos anos 40, precavi as mães quanto ao uso excessivo do ar-condicionado, uma novidade na época", conta. Nos anos 60 e 70, no auge do movimento feminista, alertou sobre os perigos de se fumar próximo aos bebês. "Enquanto puder, vou fazer de tudo pela pediatria no Brasil."

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