17 de janeiro de 2000
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Quevedo, o Mr. M de batina
O filho de um aristocrata do reino espanhol é o novo astro que desvenda truques de supostos fenômenos sobrenaturais

Cesar Guerrero

Foto: Pio Figueiroa

O senhor de todos os sortilégios não brilha mais aos domingos, mas a direção do Fantástico aposta todas as suas fichas em um novo Mr. M. Só que vestido de batina. O escolhido é o padre Oscar González Quevedo, um jesuíta com 69 anos que, apesar de morar no País há 41 anos, ainda carrega o sotaque da sua Espanha natal. A máscara preta do dedo-duro dos mágicos foi substituída por um semblante fechado, beirando a sisudez. No lugar da roupa preta colada ao corpo, entra em cena uma batina ou um terno de cores sóbrias. "Vou desmascarar as fraudes ditas paranormais e que enganam as pessoas de boa fé", afirma Quevedo.

A aposta da direção do Fantástico já deu retorno. No domingo 9, entre as 22h35 e 22h45 a audiência média saltou de 33 para 38 pontos, com picos de 42. O que equivale a dizer que pelo menos 5 milhões de pessoas passaram a assistir ao programa somente por causa do novo personagem de batina. Seu antecessor, o Mr. M, era nos EUA praticamente um artista anônimo. Mas, em pouco tempo, caiu nas graças dos brasileiros e chegou a manter média de 45 pontos - ou seja, mais de 45 milhões de telespectadores viam o mágico mascarado entregar os truques de seus colegas de profissão. Impulsionado pelas aparições semanais na tevê, Mr. M desembarcou como celebridade na primeira visita que fez ao Brasil, no ano passado.

A curiosidade dos brasileiros por fenômenos paranormais, mágicas e afins tornou-se comum na televisão brasileira nos anos 70, quando Uri Geller entrava em cena entortando colheres, garfos, facas e chaves e quebrando os relógios dos brasileiros que estavam em frente à telinha. De lá para cá, veio o galã David Copperfield - sempre vestindo preto e que fazia com que desaparecessem no ar de elefantes à Estátua da Liberdade, em Nova York. O mágico cortava mulheres ao meio, sumia com motocicletas no ar e saía voando como uma borboleta. Quevedo vai, na prática, fazer o mesmo que Mr. M fazia. Dedurar os truques, só que não de mágicas preestabelecidas pelos profissionais da área. E sim de anônimos que se dizem vítimas de fenômenos paranormais. Na sua primeira empreitada, ele mostrou a uma família do Rio de Janeiro que as lâmpadas, vidros e espelhos quebrados na residência não eram acontecimentos do além - e sim provocados por uma das moradoras da casa, que, com astúcia, conseguia enganar a todos.

Mas essa não foi a primeira experiência de Quevedo com luzes e câmeras. Por ser um especialista em parapsicologia e ter uma das maiores bibliotecas sobre o tema da América do Sul, ele já tinha sido entrevistado por Jô Soares e freqüentemente era convidado a participar de programas de auditório como o de Gugu Liberato, no SBT, ou de Ratinho, então da Rede Record. O convite para participar do Fantástico surgiu em outubro do ano passado, quando o padre estava no Rio de Janeiro para participar de uma palestra sobre parapsicologia. Quevedo não queria remuneração, já que padre jesuíta faz voto de pobreza. Ele estava ainda interessado em divulgar seu trabalho e abrir os olhos de quem acredita somente no que vê. Mas fechou um cachê simbólico para que a emissora pudesse contar com sua exclusividade. Estabeleceu-se assim uma remuneração de R$ 1.200 por programa. Em contrapartida, o padre terá de pagar uma multa de R$ 50 mil, caso decida aparecer numa emissora concorrente. O contrato vai até março, quando será revisto pela direção da Globo.

Para lançar o novo personagem, a direção criou um logotipo: Mr. Q. "Mas eu não aceitei", diz Quevedo. "Então chegamos ao acordo de que eu poderia ser o caçador de enigmas." Mr. Q não foi aceito pelo padre também porque seu superior na igreja, José Antonio Netto, da Ordem dos Jesuítas - uma das forças tradicionais da Igreja Católica -, é contra atrelar a imagem do padre à do mágico americano. "Quando soube que ele poderia substituir o Mr. M na tevê, escrevi uma carta pedindo explicações", diz Netto, padre superior da Província Brasil Centro-Leste. "Acho esse trabalho importante porque o brasileiro acredita demais em tudo o que vê", conclui. A direção da Globo bolou então um jeito de transformá-lo em caçador de enigmas e colocou o padre para gravar a abertura do quadro do Fantástico no forte de Santa Cruz em Niterói, no Estado do Rio de Janeiro. Foram três horas de gravação para se utilizarem apenas 20 segundos de imagens do padre andando por um corredor escuro. "Eu tive que repetir a gravação umas 18 vezes", diz.

Pai fuzilado

A explicação da obsessão de Quevedo em desvendar fenômenos paranormais vem de infância. Seu pai, Manoel González Quevedo, um deputado tradicionalista de Madri, na Espanha, era ligado à corte do rei Alfonso XIII. Quevedo tinha educação ímpar. Mas seu pai foi preso pelo regime estabelecido pela Frente Popular, que reunia republicanos e comunistas. O garoto, então com 3 anos, estava habituado a visitar o pai na prisão, quando foi informado por sua mãe, Angeles Bruzon, de que ele tinha sido fuzilado. A família teve que morar um tempo em Gibraltar para fugir da perseguição política e Quevedo passou a conviver mais com um tio que acreditava em espiritismo. Por conta dessa convivência com o irmão de sua mãe, ele começou a ler livros sobre o tema. Tinha então 7 anos. "Eu era católico, mas era muito supersticioso", lembra Quevedo.

Foto: Pio Figueiroa

A vocação religiosa, ele a descobriu quando estudava humanidades na universidade de Salamanca, no norte da Espanha. O jovem se formou em Psicologia e Filosofia na Universidade de Santander e entrou no seminário jesuíta. Padre Quevedo é um poliglota: além do português e espanhol, ele domina hebraico, latim e grego. Estudou mágica e ilusionismo nas horas vagas da escola e acabou se tornando conhecido no campus da faculdade. Depois de se formar, seguiu o conselho do padre Vicente Gonzales, reitor da faculdade de Filosofia, que recomendou que ele conhecesse o Brasil, considerado na Europa um terreno fértil para pesquisadores dos temas sobrenaturais. Quevedo desembarcou no Rio de Janeiro e foi direto para um seminário em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, onde foi ordenado padre em 1961. Decidiu morar em São Paulo, por causa da Faculdade Anchieta, vinculada a uma comunidade jesuíta. Foi então que fundou o Centro Latino-Americano de Parapsicologia (Clap) para estudar e formar pesquisadores do tema.

Hoje, Quevedo mora na comunidade jesuíta do Colégio São Luís, na Avenida Paulista, em São Paulo. Acorda todos os dias às sete da manhã. Faz uma série de orações e segue para o Clap, onde passa o dia estudando. Lá o padre mantém uma biblioteca com mais de 10 mil volumes sobre paranormalidade, leciona um curso de pós-graduação e presta atendimento a pessoas com distúrbios psíquicos. Apesar de não acreditar e nem temer bruxaria e mau-olhado, o padre confessa que já passou por momentos em que sofreu com o medo que sentiu. Há dois meses, quando chegou ao convento para celebrar a missa, dois homens armados o assaltaram. Eles levaram o carro do padre, um Volkswagen Voyage, ano 1994. "Eu não tenho medo de bruxos, mas ladrão é um perigo", diz Quevedo.

Vítimas de Quevedo

Em dois domingos no mês, Quevedo vai perseguir falsos paranormais. Entre suas vítimas está Marcos Fabian Vieira, 37 anos. Ele pratica magia negra e ficou conhecido no Rio de Janeiro por garantir que incorpora a alma de Lúcifer. Vieira afirma que, sob a influência do anjo caído, consegue comer vidro e andar sobre brasas sem ter um arranhão ou bolhas nos pés. De frente um para o outro, o Fantástico vai mostrar que Quevedo consegue desvendar mais um enigma. Como? Quevedo espera Marcos Vieira incorporar Lúcifer e em seguida faz algumas perguntas ao anjo das trevas. Mas em hebraico, grego e latim, suas línguas originais, segundo relatos vindos da Bíblia. "Lúcifer jamais poderia falar essas línguas num corpo de brasileiro", justifica Vieira no programa após ser questionado pelo padre. "Ele é um falsário", acusa Quevedo. "Ele desrespeita as religiões que não são cristãs", retruca Vieira. "Se alguém diz que recebe espíritos, duendes ou demônios, eu provo que é mentira", garante Quevedo.

Em outro episódio, o programa vai mostrar uma casa no Jardim Japão, zona norte de São Paulo, que pega fogo sem explicação. A dona de casa Maria Josefina da Silva Santos, 48 anos que mora com o marido e os três filhos do primeiro casamento, estava lavando a louça quando viu a casa em chamas. Foram sete incêndios em uma semana, cinco dos quais só puderam ser controlados com o auxílio dos bombeiros. A família perdeu quase todos os móveis da casa. Quevedo foi até o local e, mais uma vez, desvendou a fraude. "Encontrei barbantes queimados embebidos em querosene", denuncia o padre. Josefina não aceitou o seu diagnóstico. "O padre mente. Aquele barbante era da juba de um leão de pelúcia da minha filha", argumenta Josefina.

Envie esta página para um amigoNos seus estudos, o padre afirma que existem ocorrências autênticas de pessoas que vêem um fogo aparecer repentinamente em parte do próprio corpo, a chamada pirogênese. "Existem fenômenos paranormais que são verdadeiros e eu acredito nisso", diz Quevedo. Há 20 anos, ele mesmo confirmou um desses casos, numa mulher que atraía objetos metálicos, uma faculdade chamada aporte. "Os fenômenos autênticos não são controláveis, são espontâneos e ainda assim têm uma explicação científica", garante.

Por desvendar truques e combater o charlatanismo, o padre já foi alvo de bruxaria. Em 1981, encontrou um despacho na porta de seu escritório com velas pretas e um sapo com a boca amarrada. Quevedo procurou um amigo otorrinolaringologista que verificou através de um instrumento médico que dentro da boca do sapo havia uma foto do padre. "Eu quero que todos eles façam feitiços contra mim" diz. "Não tenho medo algum."

Colaborou Rosângela Honor, do Rio de Janeiro

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