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Capa
Quevedo,
o Mr. M de batina
O filho de um aristocrata do reino espanhol
é o novo astro que desvenda truques de supostos fenômenos sobrenaturais
Cesar Guerrero
| Foto: Pio
Figueiroa |
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O senhor de
todos os sortilégios não brilha mais aos domingos,
mas a direção do Fantástico aposta todas as
suas fichas em um novo Mr. M. Só que vestido de batina. O
escolhido é o padre Oscar González Quevedo, um jesuíta
com 69 anos que, apesar de morar no País há 41 anos,
ainda carrega o sotaque da sua Espanha natal. A máscara preta
do dedo-duro dos mágicos foi substituída por um semblante
fechado, beirando a sisudez. No lugar da roupa preta colada ao corpo,
entra em cena uma batina ou um terno de cores sóbrias. "Vou
desmascarar as fraudes ditas paranormais e que enganam as pessoas
de boa fé", afirma Quevedo.
A aposta da
direção do Fantástico já deu retorno.
No domingo 9, entre as 22h35 e 22h45 a audiência média
saltou de 33 para 38 pontos, com picos de 42. O que equivale a dizer
que pelo menos 5 milhões de pessoas passaram a assistir ao
programa somente por causa do novo personagem de batina. Seu antecessor,
o Mr. M, era nos EUA praticamente um artista anônimo. Mas,
em pouco tempo, caiu nas graças dos brasileiros e chegou
a manter média de 45 pontos - ou seja, mais de 45 milhões
de telespectadores viam o mágico mascarado entregar os truques
de seus colegas de profissão. Impulsionado pelas aparições
semanais na tevê, Mr. M desembarcou como celebridade na primeira
visita que fez ao Brasil, no ano passado.
A curiosidade
dos brasileiros por fenômenos paranormais, mágicas
e afins tornou-se comum na televisão brasileira nos anos
70, quando Uri Geller entrava em cena entortando colheres, garfos,
facas e chaves e quebrando os relógios dos brasileiros que
estavam em frente à telinha. De lá para cá,
veio o galã David Copperfield - sempre vestindo preto e que
fazia com que desaparecessem no ar de elefantes à Estátua
da Liberdade, em Nova York. O mágico cortava mulheres ao
meio, sumia com motocicletas no ar e saía voando como uma
borboleta. Quevedo vai, na prática, fazer o mesmo que Mr.
M fazia. Dedurar os truques, só que não de mágicas
preestabelecidas pelos profissionais da área. E sim de anônimos
que se dizem vítimas de fenômenos paranormais. Na sua
primeira empreitada, ele mostrou a uma família do Rio de
Janeiro que as lâmpadas, vidros e espelhos quebrados na residência
não eram acontecimentos do além - e sim provocados
por uma das moradoras da casa, que, com astúcia, conseguia
enganar a todos.
Mas essa não
foi a primeira experiência de Quevedo com luzes e câmeras.
Por ser um especialista em parapsicologia e ter uma das maiores
bibliotecas sobre o tema da América do Sul, ele já
tinha sido entrevistado por Jô Soares e freqüentemente
era convidado a participar de programas de auditório como
o de Gugu Liberato, no SBT, ou de Ratinho, então da Rede
Record. O convite para participar do Fantástico surgiu em
outubro do ano passado, quando o padre estava no Rio de Janeiro
para participar de uma palestra sobre parapsicologia. Quevedo não
queria remuneração, já que padre jesuíta
faz voto de pobreza. Ele estava ainda interessado em divulgar seu
trabalho e abrir os olhos de quem acredita somente no que vê.
Mas fechou um cachê simbólico para que a emissora pudesse
contar com sua exclusividade. Estabeleceu-se assim uma remuneração
de R$ 1.200 por programa. Em contrapartida, o padre terá
de pagar uma multa de R$ 50 mil, caso decida aparecer numa emissora
concorrente. O contrato vai até março, quando será
revisto pela direção da Globo.
Para lançar
o novo personagem, a direção criou um logotipo: Mr.
Q. "Mas eu não aceitei", diz Quevedo. "Então
chegamos ao acordo de que eu poderia ser o caçador de enigmas."
Mr. Q não foi aceito pelo padre também porque seu
superior na igreja, José Antonio Netto, da Ordem dos Jesuítas
- uma das forças tradicionais da Igreja Católica -,
é contra atrelar a imagem do padre à do mágico
americano. "Quando soube que ele poderia substituir o Mr. M
na tevê, escrevi uma carta pedindo explicações",
diz Netto, padre superior da Província Brasil Centro-Leste.
"Acho esse trabalho importante porque o brasileiro acredita
demais em tudo o que vê", conclui. A direção
da Globo bolou então um jeito de transformá-lo em
caçador de enigmas e colocou o padre para gravar a abertura
do quadro do Fantástico no forte de Santa Cruz em Niterói,
no Estado do Rio de Janeiro. Foram três horas de gravação
para se utilizarem apenas 20 segundos de imagens do padre andando
por um corredor escuro. "Eu tive que repetir a gravação
umas 18 vezes", diz.
Pai fuzilado
A explicação
da obsessão de Quevedo em desvendar fenômenos paranormais
vem de infância. Seu pai, Manoel González Quevedo,
um deputado tradicionalista de Madri, na Espanha, era ligado à
corte do rei Alfonso XIII. Quevedo tinha educação
ímpar. Mas seu pai foi preso pelo regime estabelecido pela
Frente Popular, que reunia republicanos e comunistas. O garoto,
então com 3 anos, estava habituado a visitar o pai na prisão,
quando foi informado por sua mãe, Angeles Bruzon, de que
ele tinha sido fuzilado. A família teve que morar um tempo
em Gibraltar para fugir da perseguição política
e Quevedo passou a conviver mais com um tio que acreditava em espiritismo.
Por conta dessa convivência com o irmão de sua mãe,
ele começou a ler livros sobre o tema. Tinha então
7 anos. "Eu era católico, mas era muito supersticioso",
lembra Quevedo.
| Foto: Pio
Figueiroa |
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A vocação
religiosa, ele a descobriu quando estudava humanidades na universidade
de Salamanca, no norte da Espanha. O jovem se formou em Psicologia
e Filosofia na Universidade de Santander e entrou no seminário
jesuíta. Padre Quevedo é um poliglota: além
do português e espanhol, ele domina hebraico, latim e grego.
Estudou mágica e ilusionismo nas horas vagas da escola e
acabou se tornando conhecido no campus da faculdade. Depois de se
formar, seguiu o conselho do padre Vicente Gonzales, reitor da faculdade
de Filosofia, que recomendou que ele conhecesse o Brasil, considerado
na Europa um terreno fértil para pesquisadores dos temas
sobrenaturais. Quevedo desembarcou no Rio de Janeiro e foi direto
para um seminário em São Leopoldo, no Rio Grande do
Sul, onde foi ordenado padre em 1961. Decidiu morar em São
Paulo, por causa da Faculdade Anchieta, vinculada a uma comunidade
jesuíta. Foi então que fundou o Centro Latino-Americano
de Parapsicologia (Clap) para estudar e formar pesquisadores do
tema.
Hoje, Quevedo
mora na comunidade jesuíta do Colégio São Luís,
na Avenida Paulista, em São Paulo. Acorda todos os dias às
sete da manhã. Faz uma série de orações
e segue para o Clap, onde passa o dia estudando. Lá o padre
mantém uma biblioteca com mais de 10 mil volumes sobre paranormalidade,
leciona um curso de pós-graduação e presta
atendimento a pessoas com distúrbios psíquicos. Apesar
de não acreditar e nem temer bruxaria e mau-olhado, o padre
confessa que já passou por momentos em que sofreu com o medo
que sentiu. Há dois meses, quando chegou ao convento para
celebrar a missa, dois homens armados o assaltaram. Eles levaram
o carro do padre, um Volkswagen Voyage, ano 1994. "Eu não
tenho medo de bruxos, mas ladrão é um perigo",
diz Quevedo.
Vítimas
de Quevedo
Em dois domingos
no mês, Quevedo vai perseguir falsos paranormais. Entre suas
vítimas está Marcos Fabian Vieira, 37 anos. Ele pratica
magia negra e ficou conhecido no Rio de Janeiro por garantir que
incorpora a alma de Lúcifer. Vieira afirma que, sob a influência
do anjo caído, consegue comer vidro e andar sobre brasas
sem ter um arranhão ou bolhas nos pés. De frente um
para o outro, o Fantástico vai mostrar que Quevedo consegue
desvendar mais um enigma. Como? Quevedo espera Marcos Vieira incorporar
Lúcifer e em seguida faz algumas perguntas ao anjo das trevas.
Mas em hebraico, grego e latim, suas línguas originais, segundo
relatos vindos da Bíblia. "Lúcifer jamais poderia
falar essas línguas num corpo de brasileiro", justifica
Vieira no programa após ser questionado pelo padre. "Ele
é um falsário", acusa Quevedo. "Ele desrespeita
as religiões que não são cristãs",
retruca Vieira. "Se alguém diz que recebe espíritos,
duendes ou demônios, eu provo que é mentira",
garante Quevedo.
Em outro episódio,
o programa vai mostrar uma casa no Jardim Japão, zona norte
de São Paulo, que pega fogo sem explicação.
A dona de casa Maria Josefina da Silva Santos, 48 anos que mora
com o marido e os três filhos do primeiro casamento, estava
lavando a louça quando viu a casa em chamas. Foram sete incêndios
em uma semana, cinco dos quais só puderam ser controlados
com o auxílio dos bombeiros. A família perdeu quase
todos os móveis da casa. Quevedo foi até o local e,
mais uma vez, desvendou a fraude. "Encontrei barbantes queimados
embebidos em querosene", denuncia o padre. Josefina não
aceitou o seu diagnóstico. "O padre mente. Aquele barbante
era da juba de um leão de pelúcia da minha filha",
argumenta Josefina.
Nos
seus estudos, o padre afirma que existem ocorrências autênticas
de pessoas que vêem um fogo aparecer repentinamente em parte
do próprio corpo, a chamada pirogênese. "Existem
fenômenos paranormais que são verdadeiros e eu acredito
nisso", diz Quevedo. Há 20 anos, ele mesmo confirmou
um desses casos, numa mulher que atraía objetos metálicos,
uma faculdade chamada aporte. "Os fenômenos autênticos
não são controláveis, são espontâneos
e ainda assim têm uma explicação científica",
garante.
Por desvendar
truques e combater o charlatanismo, o padre já foi alvo de
bruxaria. Em 1981, encontrou um despacho na porta de seu escritório
com velas pretas e um sapo com a boca amarrada. Quevedo procurou
um amigo otorrinolaringologista que verificou através de
um instrumento médico que dentro da boca do sapo havia uma
foto do padre. "Eu quero que todos eles façam feitiços
contra mim" diz. "Não tenho medo algum."
Colaborou Rosângela
Honor, do Rio de Janeiro
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