17 de janeiro de 2000
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Maturidade

Antonio Fagundes ocupa todos os espaços
Aos 50 anos, o ator já parou em delegacia por proibir atrasos em suas peças, faz teatro, tevê e cinema ao mesmo tempo e quer ir para o rádio

Chantal Brissac

Foto: : Pio Figueiroa

Uma vez, na cidade paulista de Piracicaba, Antonio Fagundes saiu do espetáculo Vida Privada, que encenava com a mulher, a atriz Mara Carvalho, direto para a delegacia. Foi fazer ocorrência, exigido por um espectador "poderoso" que chegou alguns minutos atrasado à peça e, barrado na porta, foi raivosamente apelar à polícia. Com o ingresso na mão, Fagundes explicou ao delegado que estava certo, pois no bilhete constava a informação de que ninguém poderia entrar depois do início do espetáculo. O policial achou a história tão absurda que nem formalizou a ocorrência. Juntou-se com os colegas em torno de Fagundes e Mara para garantir os seus autógrafos, em pedacinhos do relatório da queixa.

Como faz há 15 anos, o ator continua sendo pontualmente britânico para entrar em cena no teatro. Não admite sequer tolerância de cinco minutos. "Tenho responsabilidade com o público que está sentado na platéia na hora em que a peça vai começar, e que, felizmente, é a maioria", diz ele. No dia-a-dia, também é rigoroso com o relógio. Se não fosse, ele provavelmente não conseguiria dar conta de uma agenda fabulosa, recheada de compromissos profissionais. Ator da novela Terra Nostra, da Rede Globo, em que interpreta o personagem Gumercindo, Fagundes encena Últimas Luas, no teatro Cultura Artística, em São Paulo, de quinta a domingo, faz cinema - este ano, será visto em dois filmes, Bossa Nova, de Bruno Barreto, e Villa-Lobos, Uma Vida de Paixão, de Zelito Vianna -, tem uma coluna no jornal Agora São Paulo, lançou um CD, Tributo a João Pacífico, em que interpreta canções do compositor caipira falecido há um ano, e - ufa! - ainda pretende fazer rádio e o que mais pintar. "Sou o famoso espaçoso", confessa Fagundes. "Abriu um espaço, eu ocupo."

Sem se definir como um workaholic, ele é um apaixonado pelo que faz. Hoje já consegue realizar o que sempre sonhou: trabalha por prazer. Sempre almejou ter dinheiro para poder trabalhar e montar o que quisesse. Diz que isso é possível por ser um homem de prazeres frugais. Dispensa grifes famosas e nem tem sonhos de consumo. A bordo de sua pick-up Chevrolet 1992, circula com Mara por teatros e cinemas nos fins de semana. "É o que mais gostamos de fazer", diz ela. Nas férias, costumam cumprir roteiros exóticos, como Índia e Tibete. A vida pessoal, Fagundes preserva com discrição, embora deixe escapar algumas revelações. Usou durante seis anos cuecas vermelhas, porque, supersticioso como poucos, ouviu alguém comentar que trajar a peça daquela cor era bom. "Comecei a comprar cueca vermelha e, quando vi, só tinha desta cor. Agora, esqueci essa fase", brinca. Se diz apaixonado pela mulher, Mara, com quem está casado há dez anos, sua parceira na maior parte dos espetáculos que produz. "Quero ficar 24 horas por dia com ela", declara-se. Em Últimas Luas, dirigido por Jorge Takla, Fagundes interpreta um intelectual de 80 anos que sai de casa para morar num asilo. Enquanto arruma a mala, conversa com a mulher (Mara Carvalho), morta há 30 anos. O filho (Petrônio Gontijo) o aguarda para levá-lo ao asilo, e o que acontece neste primeiro ato já é uma surpreendente leitura do tema velhice, feita pelo autor italiano Furio Bordon e traduzida por Millôr Fernandes. Na pesquisa, Fagundes se impressionou com a abordagem do filósofo italiano Norberto Bobbio no livro O Tempo da Memória, que o despertou para a crueza da velhice.

Foto: : Pio Figueiroa

Não há na peça o velho piegas. O personagem é culto, tem saúde, dinheiro, é lúcido e dono de um humor extraordinário. Ele decide morar num asilo por achar que está atrapalhando o cotidiano de sua própria casa, onde mora com o filho, a nora e dois netos. Espera que o filho implore para que fique. Mas a ausência de comunicação entre eles e o orgulho, que não o deixa confessar os seus sentimentos, fazem com que vá viver seus últimos anos de vida sozinho. O texto de Bordon, encenado em 13 países, foi o último trabalho teatral de Marcello Mastroianni, em 1995, e emociona pela maneira inédita de tratar do assunto. Para Fagundes, que se interessa pelo tema há muitos anos, não é exclusividade do Brasil a recusa em discutir a velhice. "Isso é universal. A velhice é encarada como uma coisa indigna na civilização ocidental, talvez porque na nossa sociedade o homem tenha que estar produzindo para valer alguma coisa", afirma. "E o mais incrível é que as pessoas se recusam a discutir como se não fossem chegar lá."

No final do espetáculo, que tem alcançado lotação máxima - de outubro para cá, já foram 25 mil espectadores -, o que se vê é uma platéia emocionada, de pessoas das mais variadas idades. Famílias, grupos de jovens, casais e caravanas de velhinhos aplaudem de pé e muitas vezes chegam ao camarim para ver o ídolo. Fagundes adora saber das impressões do público, e costuma brincar com os que chegam, chorando, que não era a sua intenção estragar a pizza. A peça impressionou bastante sua filha mais velha, Diná, 19 anos, que saiu dizendo: "Não vou deixar isso acontecer com você, papai". Além de Diná, o ator é pai de Antonio, 18, e Diana, 16, do casamento com a atriz Clarisse Abujamra, e de Bruno, 10 anos, de Mara Carvalho. O sonho de Fagundes é prosseguir com o espetáculo atual em todo o Brasil, até que não precise mais usar maquiagem para envelhecer. Mas sem deixar os outros projetos que tem na manga. Em abril, ele e Mara começam a filmar um roteiro de curta-metragens escrito por ela. O título, ainda provisório, é Porra!. Foi ela quem também escreveu Vida Privada (1994), que fala de infidelidade.

Mara se ressente de alguns comentários do público. "Tem gente que acha que só estou no palco por causa dele." Fagundes reafirma sua admiração pela mulher: "Não consigo imaginar outra atriz fazendo esta personagem, embora existam milhões de boas atrizes". Preocupada em não irritar o marido, que se fecha em copas quando o assunto é vida pessoal, ela diz, quando indagada sobre algum traço curioso da personalidade de Fagundes. "O que você quer que eu fale? Que ele adora presunto cru?" Antonio Fagundes, na verdade, é um sujeito tímido. Nunca gostou do frenesi de fãs à sua volta e odeia dar autógrafos. Caseiro, seu programa preferido é a leitura. Lê de três a quatro livros por semana. É por isso que admite ainda não ter sucumbido à Internet. Pressente nela a morte do livro. "Ler na tela do computador é um retrocesso, parece que voltamos ao papiro, sem o prazer de poder folhear", comenta.

Ele também descarta o rótulo de galã, que considera pejorativo. Chegou a procurar no Aurélio o significado preciso só para entender melhor a insistência dos que procuram enquadrá-lo no termo. Acha que a palavra vai contra o seu trabalho em teatro, cinema e televisão. O ator fez mais de 40 espetáculos teatrais, 21 novelas, 37 longa-metragens, além de ter atuado em dezenas de minisséries e teleteatros. Recebeu 24 prêmios na sua carreira de 30 anos. Para Fagundes, ser símbolo sexual é uma agradável surpresa. "Fico envaidecido que as pessoas me achem como uma boa figura", diz, meio desajeitado. "Minha filha costuma dizer: 'Que povo bom, né, meu pai?'" Fagundes não é do tipo que se esfola para aparentar menos idade do que tem. Odeia fazer ginástica e adora os prazeres da boa mesa - a barriga está aí para provar ambas as coisas. As bolsas sob os olhos mostram que sua prioridade não é a forma física. Preocupa-se mais com a sua forma dramática no palco, no cinema ou na televisão. Para o autor Benedito Ruy Barbosa, que já trabalhou com ele em várias novelas, Fagundes chega a ser um exemplo para novas gerações. O autor de Terra Nostra lembra que, na época em que Fagundes fazia o Rei do Gado, e contracenava com um grupo jovem formado por atores como Marcelo Anthony e Leonardo Brício, os estreantes pediam ao escritor para fazer mais cenas com ele. Outra característica deste ator carioca radicado em São Paulo há 44 anos é o respeito ao texto do autor. Benedito ressalta que ele é um dos poucos que não altera uma vírgula da sua fala. "E não precisa de muito tempo para decorar. Lê uma vez e já está pronto. Eu me sinto mais responsável quando escrevo para ele." Segundo o diretor Jayme Monjardim, a criação do personagem Gumercindo foi uma troca intensa entre ele e o ator. "É um prazer trabalhar com Fagundes."

Antonio Fagundes fez seu primeiro personagem aos 12 anos, em uma peça teatral no Colégio Rio Branco, em São Paulo. Interpretava um cardeal de 75 anos, figura que ele caracterizou com uma boa dose de graxa de sapato na cabeça. A partir daí foi se revezando nos mais variados meios. Aos 20 anos, subiu ao palco, nu, na peça Hair, junto com a atriz Sônia Braga, sua parceira amorosa oito anos mais tarde na novela Dancing Days. Nos anos 70, não ficou de fora das pornochanchadas, e no início dos 80 chegou a apresentar um programa juvenil na TV Cultura, É Proibido Colar, ao lado de Clarisse Abujamra. O ator, que trabalhou com vários diretores, diz que aprendeu muito com todos. A exceção foi Gerald Thomas, com quem fez Carmem com Filtro (1986). "O que ele faz não é teatro", afirma. "Por isso, a relação foi difícil. Eu estava no auge da minha busca de contato com o público, e ele dizia que teatro era só de vanguarda, que as pessoas tinham que ter alto nível cultural para entender o que ele faz." Para Fagundes, aquilo era uma heresia. Ele acredita que uma das principais funções do teatro é emocionar o maior número possível de pessoas.

Petista declarado, ainda que não filiado ao partido, Fagundes vê com tristeza a situação atual do País. "Interessa aos que estão no poder, há 500 anos, que sejamos um povo ignorante e que esteja a serviço de outros interesses. Não vejo saída", lamenta. Em sua coluna da segunda-feira 10 no jornal Agora São Paulo, ele convidou o povo a formar um exército: "Somos capazes de produzir o suficiente para sermos roubados diariamente pelos que estão no poder e ainda assim não naufragar. (...) Temos que aprender a formar nosso próprio exército e nos encher de ódio pelo que acontece. (...) Temos de vestir o uniforme da decência e aprender o caminho das armas, do bom combate. Não basta querer a paz. É preciso lutar por ela."

Envie esta página para um amigoSem falar de seus rendimentos, vê-se como um privilegiado. "Tenho oito empregos, não sei onde ganho bem ou mal", escapa o ator, um dos mais bem pagos da Globo. "Tenho um bom salário na emissora, mas se tivéssemos mais concorrência ele seria multiplicado por dez. A Globo sabe disso." Sua versatilidade, tanto na capacidade de trabalho quanto no talento para encarnar variados personagens ao mesmo tempo, é apreciada por profissionais e colegas que o vêem também como um ator que, mesmo aos 50 anos, se mostra ávido em crescer. "Não importa a idade que Fagundes venha a ter, ele irá continuar com sua vontade de descobrir e aprender", diz Jayme Monjardim.

Colaborou Alessandra Nalio

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