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Abaixo, com os pais:
“O Oswaldo tinha um certo quê de patriarca. Pagú era tímida e meiga”, diz Rudá, repetindo a pose da foto clássica
de seu pai
Reprodução

Televisão
O filho de Pagú e Oswald de Andrade
Filho de dois ícones do movimento
antropofágico, o cineasta Rudá de Andrade fala da caracterização de seus pais em Um Só Coração e da infância tumultuada que teve

Fábio Farah

 

Na quinta-feira 26, enquanto a Rede Globo exibia na minissérie Um Só Coração o nascimento de Rudá, filho de Oswald de Andrade e Pagú, o verdadeiro Rudá estava em seu sítio em Pedra Bela, interior de São Paulo, e não pôde assistir ao seu “nascimento”, pois a antena da tevê estava com defeito. Aos 73 anos, no terceiro casamento e pai de três filhos, Rudá Poronomenare nasceu em pleno movimento antropofágico – daí o nome, uma junção de dois deuses tupi-guaranis. Ele soube seu nome inteiro apenas aos dez anos. “Antes me chamavam por apelido”, diz ele. Aposentado há oito anos, o fundador da atual sede do Museu de Imagem e Som (MIS) e criador do curso de cinema da Universidade de São Paulo (USP), é testemunha ocular da história cultural brasileira. Para ele, Oswald é Oswaldo e, pela trajetória de seus pais, Rudá teve uma infância nada convencional, como revela a seguir:

O que acha da caracterização de seus pais como personagens em Um Só Coração?
Tenho a impressão de que o Oswaldo era mais contido e sério antes do meu nascimento. Não devia ser irreverente e provocador o tempo todo. A visão que tenho de Pagú também é diferente. Ela era uma pessoa tímida e meiga – coisas que ainda não apareceram na tevê. Isso não impedia que em determinados momentos ela explodisse.

Quais as lembranças que tem da infância?
Minha vida foi muito agitada. Pela história dos meus pais, não tive uma vida normal. Eu mudava muito de cidade, morava com um, morava com outro, com alguém da família, com algum amigo, fazia um pouco de colégio no Rio de Janeiro,
um pouco em São Paulo, um pouco em Piracicaba, um pouco em Rio Claro.

Como eram seus momentos com Oswald?
Ele era muito carinhoso e familiar. Apesar de toda a agitação de sua vida nunca me senti abandonado. O Oswaldo tinha um certo quê de patriarca, no bom sentido da palavra de querer a família em volta, mesmo estando longe, sempre sob seu controle. Ele também era bom de briga, de discussão, enfrentava qualquer coisa e não tinha receio de nada. Às vezes eu ficava um pouco preocupado e nervoso de vê-lo enfrentar grupos de 30, 40 estudantes debatendo com ele e ele os insultando, não aceitando as idéias. Algumas vezes eu achava que ele iria apanhar.

As polêmicas de seu pai lhe causavam problemas?
Eu convivia em um ambiente conservador e estudava em colégio protestante. Naquela época era um escândalo falar que não era batizado, que era ateu. Você era excluído. Às vezes eu tentava esconder que Oswaldo era meu pai. Aos nove anos, por exemplo, perguntavam se eu era católico ou protestante. Eu não era nada, mas não podia dizer. Dava um jeito de sair de fininho. Aos doze anos havia um padre que dava ingresso para o cinema. Para poder entrar eu dizia que gostaria de assistir à missa, mas meus pais não me deixavam. Só assim ganhava ingresso.

É verdade que o senhor conheceu Pagú só aos cinco anos, e na prisão?
Antes dos cinco anos tive alguns momentos com ela. Mas foram poucos. Quando tinha quatro meses ela viajou e ficou muito tempo no Exterior. Quando voltou teve uma vida tumultuada, perseguição política, cadeia, essa coisa toda. Na prisão eu a visitei apenas uma vez.

Ficou impressionado?
Não foi dramático. Fui ao presídio e não me lembro de ter visto outros presos. Subi uma escada e a encontrei sentada. O encontro não foi caloroso da minha parte porque eu não tinha uma ligação estreita com ela nessa época.

Perguntava para Oswald sobre sua mãe?
O Oswaldo era muito paternalista e evitava essas coisas. Não gostava que os filhos fossem com as mães, nem eu nem meu irmão mais velho. A família era ali. Não havia diálogo. Era como se minha mãe estivesse fazendo as coisas dela, levando a vida dela.

Quando o senhor se aproximou de Pagú?
Ela saiu da cadeia, casou-se com Geraldo Ferraz (artista plástico, jornalista e militante político) e foi morar no Rio. Depois se mudou para São Paulo e nós ficamos muito amigos. O Geraldo também era uma pessoa doce e eu passei a ter duas famílias.

Na roda de amigos de Oswald havia alguém que o impressionava?
Tinha gente estranhíssima e inteligente. Havia um mulherão que fumava charuto na rua e andava com um macaco em cima do ombro. A casa era freqüentada por pessoas como (o artista plástico) Flávio de Carvalho, (o pintor) Lasar Segall e (o músico) Villa-Lobos. Na época eu achava que aquilo não tinha importância. Era feijão com arroz.

Oswald queria que o senhor fosse artista?
Não só eu e meus irmãos, mas todo mundo. Desde os onze anos comecei a desenhar e a pintar. Ele gostava dos desenhos, analisava meus quadros e mostrava aos outros. Mas com 14 anos eu me meti a fazer umas poesias que ele esculhambou completamente. Disse: “Isso é uma porcaria”. E eram mesmo (risos).

Depois disso nunca mais escreveu?
Voltei a escrever contos aos 19 anos, quando morava na Europa. Um deles foi comprado e dramatizado pela BBC. Oswaldo ouviu e não gostou. Era um texto romântico, bucólico. Outras coisas que escrevi não dei para ele ler. Demorei para me libertar dos vícios sentimentalóides.
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