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André Durão
Ele cresceu em Nilópolis, observando o trabalho de Joãosinho: “Ele revolucionou o Carnaval numa época em que o desfile das escolas estava em decadência”, diz Paulo
Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Carro do DNA, sucesso na avenida: a alegoria era formada pela coreografia de 127 pessoas pintadas de azul

Carnaval 2004
Carnavalesco revelação
Com idéias originais, Paulo Barros leva a Unidos da Tijuca ao segundo lugar no Carnaval do Rio e é apontado sucessor de Joãosinho Trinta

Luís Edmundo Araújo

 

Antes de estrear como carnavalesco no Grupo Especial do Rio de Janeiro, Paulo Barros, 41 anos, teve uma missão difícil: convencer o presidente da Unidos da Tijuca, Fernando Horta, a montar um enredo sobre as conquistas da ciência, tema considerado complexo para o Carnaval. “Achei complicado de início. Passei uns dias pensando até aceitar”, conta Fernando, que hoje não se arrepende. Com o enredo A Arte da Criação e a Criação do Sonho; a Arte da Ciência no Tempo do Impossível, a escola que só ganhara um Carnaval no longínquo 1936, e nunca figurou entre as grandes, conseguiu um inédito vice-campeonato, atrás da Beija-Flor. Paulo, o mentor do desfile, foi aclamado como a grande revelação de 2004.

Comissário de bordo da Varig por 14 anos – de 1983 a 1997 – Paulo é um apaixonado pelo Carnaval carioca desde os 13 anos. Nessa idade, começou a acompanhar os preparativos para o desfile da Beija-Flor de Nilópolis, escola da cidade onde nasceu e foi criado, na Baixada Fluminense. “Nas vésperas do desfile, o Farid (Abrahão David, irmão de Anísio, patrono da Beija-Flor) fazia um mutirão para ajudar a preparar a escola. Eu sempre ia”, lembra. Era a época em que Joãosinho Trinta tinha acabado de assumir a escola, transformando-a numa grande agremiação ao conquistar o tricampeonato de 1976-1978.

Com o tempo, Paulo passou a prestar atenção no mestre. Mesmo depois de sair de Nilópolis, em 1984, e assumir o emprego na Varig, continuou a freqüentar o barracão da Beija-Flor até 1993, último ano de Joãosinho na escola. Paulo só não aceita ser apontado como sucessor do carnavalesco. “Quem sou eu para hoje me achar sucessor desse homem. Ele revolucionou o Carnaval numa época em que o desfile das escolas estava em decadência”, afirma ele, que, solteiro, mora em Niterói, na região metropolitana do Rio.

Revolucionário também é um dos adjetivos que vêm sendo usados para definir o desfile da Unidos da Tijuca em 2004. Graças, principalmente, ao carro do DNA, no qual a alegoria era formada pela coreografia dos 127 componentes, pintados de azul. Considerada a criação mais inovadora do Carnaval desse ano, o carro é fruto da originalidade de um carnavalesco que aprendeu a trabalhar sem muito dinheiro desde 1994, quando assinou seu primeiro desfile com a pequena Vizinha Faladeira, do centro do Rio.

Logo no primeiro ano, conquistou o segundo lugar do Grupo de Acesso B (espécie de terceira divisão do Carnaval), subindo para o Acesso A. A partir daí, acumulou experiências. “O Grupo de Acesso foi minha universidade. Aprendi a trabalhar com poucos recursos”, conta Paulo, que estudou até o quarto período de Arquitetura e usa seus conhecimentos no barracão. “Até hoje sou eu quem desenha a planta dos carros”, diz.

Livre do emprego na Varig, ingressou na Arranco de
Engenho de Dentro, onde trabalhou de 1999 a 2001,
mas foi na Paraíso de Tuiuti, no ano passado, que o carnavalesco começou a chamar a atenção das escolas do Grupo Especial. “Me impressionei com um carro que só tinha latas de tinta, sem nenhum enfeite, e estava bonito”,
lembra Fernando Horta.

Após ser sondado pela Caprichosos de Pilares, penúltima colocada em 2004, Paulo acabou acertando com Fernando. Com o sucesso no Grupo Especial, ele só quer continuar inovando. “Cada carnavalesco tem sua marca, mas, talvez por comodismo, o desfile ficou monótono. Espero contribuir para mudar isso.”

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