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Felipe Barra
“Era uma brincadeira, fazia parte dos trotes, mas eu tive que agüentar essa história durante anos’’, conta a ministra
A TRAJETÓRIA
DE NICÉIA

Em 1978 (1), quando se formou em medicina pela Uerj.

Em 1980 (2) com os filhos Marcos e Pedro.

Em Paris (3), em 1983, quando fez estágio no Museu de História Natural.
em 2000 (4), quando tomou posse como reitora da Uerj.

Política
A ministra que foi musa
Nova titular da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire foi eleita em 1972 a mais bela caloura da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), onde 28 anos depois venceu eleição para reitora

Cecília Maia

 

Para incômodo das feministas, a nova ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, Nilcéia Freire, 51 anos, é exímia cozinheira e já ganhou um concurso de beleza. Em 1972, quando entrou para o curso de medicina da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, foi eleita a mais bela caloura daquele ano, com direito a desfile e tudo no pátio da faculdade. “Era uma brincadeira, fazia parte dos trotes, mas tive que agüentar essa história durante anos”, conta, quase constrangida. Embora nunca tenha atuado em movimentos feministas, Nilcéia também não se tornou uma “patricinha”. Ao contrário. Naquele mesmo ano, entrou para o movimento estudantil, filou-se ao Partido Comunista Brasileiro e participou de todos os protestos contra a ditadura militar. “Pertenci a uma geração que pegou a ressaca da repressão. A polícia era violenta, foram anos muito duros”, lembra.

Passados 28 anos dos tempos da rebeldia, quem diria, a musa das calouras da medicina passaria por uma outra eleição dentro da própria UERJ. Mas dessa vez foi escolhida reitora da Universidade para um mandato de quatro anos que terminou no ano passado. “Não sei como será viver fora da Universidade, já estou sentindo saudades”, diz. Durante todo esse tempo, ela deu aulas de Parasitologia no Departamento de Medicina enquanto participava de movimentos do corpo docente e pela redemocratização da Universidade. Ganhou visibilidade, conquistou a liderança.

Em 1995, filiou-se ao PT e foi vice-reitora antes de assumir o posto máximo no Campus. Na reitoria fez uma administração de destaque. “Ela foi uma excelente administradora e teve uma característica que falta nas universidades hoje: ousadia. Foi ela, por exemplo, a primeira a implantar o sistema de cotas para os negros na Universidade”, elogiou o ex-ministro da Educação Cristovam Buarque, que chegou a convidá-la para coordenar a implantação do novo sistema de avaliação das universidades brasileiras.

Mas Nilcéia fez opção por outro posto, o de ministra. “Ela tem uma história de luta democrática. Destaca-se pelo senso ético e ao mesmo tempo prático, de quem não se atrapalha com a burocracia. O presidente fez uma grande escolha”, comenta a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ). Mas para a ex-reitora, o cargo foi totalmente inesperado. “Um dia estava em casa quando recebi um telefonema de colegas de partido dizendo que eu estava na lista dos ministeriáveis. Não acreditei”, disse. A confirmação veio no dia seguinte, com outro telefonema do secretário particular do presidente da República, Gilberto Carvalho. “Embarquei no dia seguinte para Brasília e já participei da posse no Planalto”, conta.

Divorciada e mãe de dois filhos, Marcos, 26 anos, e Pedro, 24, Nilcéia pela primeira vez em anos vai morar sozinha, em Brasília, já que os filhos ficarão no Rio de Janeiro. “Estou avaliando se vou ficar num apart-hotel, o que seria mais fácil para mim, ou se alugo um apartamento”, conta. O drama é maior do que se pode imaginar. A nova ministra não consegue viver sem um fogão por perto. É especialista na elaboração de pratos com frutos do mar e peixes que encantam os convidados. “Adoro cozinhar, chamar amigos e fazer boas comidas”, conta. Desse jeito, é possível que faça muito sucesso na capital do País, afinal, num governo de churrasqueiros, quem ataca de tempero, forno e fogão pode se tornar rainha.

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