10 de janeiro de 2000
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Testemunha do Século: Norma Geraldy, 92 anos

Da Era do Rádio à novela global
Atriz de teatro, rádio e televisão, ela foi casada com Procópio Ferreira, recebia o presidente Getúlio Vargas em casa e, durante a Segunda Guerra, cantou para soldados brasileiros na Venezuela

Viviane Rosalem

Foto: Kiko Cabral

Quando criança, os olhos azuis da pequena Ione Sartini, batizada com o nome artístico de Norma Geraldy, brilhavam toda vez que o pai, o relojoeiro italiano Dante Sartini, e os quatro irmãos se desfaziam de suas velhas meias de malha colorida. Era com aquele material que a menina confeccionava suas bonecas de pano, seus únicos brinquedos na década de 20. "Se quisesse uma boneca de porcelana, tinha que torcer para alguém trazer da Europa porque, no Brasil, não existia", lembra. Na escola, ela se destacava não só pelas notas altas como por sua performance nas peças de teatro. Com o tempo, descobriu sua vocação para a carreira artística e passou a ter aulas de canto e piano, instrumento que até hoje, aos 92 anos, toca com desenvoltura, no apartamento em que mora, em Copacabana, a um quarteirão da praia, onde costuma caminhar diariamente.

Da infância em Uberaba, Minas Gerais, ela se recorda das viagens de trem para Araminas, onde moravam os tios. O maior passatempo da menina era ver o trem chegar à estação, com os vagões repletos de gente, bois, cavalos, cana e o que mais fosse preciso trazer para a população local. Quando a Primeira Guerra Mundial estourou, em 1914, Ione viu a gripe espanhola invadir sua casa e contagiar os irmãos. "Ajudei a cuidar deles sem contrair a doença", recorda-se, orgulhosa de nunca ter tido problemas sérios de saúde.

O talento para representar e cantar só foi descoberto quando a atriz chegou ao Rio de Janeiro, em 1932, e passou a percorrer várias rádios em busca de emprego. Nesta época, já havia se separado do primeiro marido, o bancário Urquiza de Carvalho, pai de seu único filho, Israel, hoje com 73. Ela se lembra bem da primeira vez em que foi à Rádio Mayrink Veiga. "Recebi um grande elogio da Carmem Miranda, que ficou encantada ao me ver tocar piano", conta ela. Carmem tornou-se uma de suas melhores amigas. "Era sempre convidada para festas em sua casa e foi lá que eu vi, pela primeira vez, uma cama de casal redonda", diverte-se. A morte de Carmem Miranda, em 1955, a deixou abalada.

Na ocasião, já usava o nome artístico de Norma Geraldy, escolhido pelo diretor de teatro Olavo de Barros em homenagem ao poeta francês Paul Geraldy. Norma pediu dispensa do Programa César de Alencar, na Rádio Nacional, para ir ao enterro, o segundo ao qual compareceu.

Um ano antes, em 1954, fez o mesmo na morte do então presidente Getúlio Vargas. "Getúlio era amigo do meu segundo marido, o Procópio Ferreira, e freqüentava a minha casa", conta.

No Rio, o primeiro emprego de Norma foi na Rádio Clube do Brasil, onde cantava operetas e fazia teatro. Para trabalhar, matriculou o filho num colégio interno e só o via nos finais de semana. Anos depois, ingressou na Companhia de Teatro de Dulcina de Moraes, de onde só saiu em 1936, quando passou a ser a atriz principal da Companhia Teatral de Procópio Ferreira, com quem dividiu o palco em 75 peças durante os dez anos de casamento. "Procópio se apaixonou por mim e chegou a pagar uma multa de 60 mil contos de réis para me contratar", conta Norma, que trocou a companhia de Dulcina pela do marido antes do término do contrato. Com o ator, ela não teve filhos, mas tornou-se madrasta da também atriz Bibi Ferreira. Hoje, Norma tem dois netos - a designer Angela de Carvalho e o guitarrista Celso Blues Boy - e três bisnetas.

Norma Geraldy também brilhou na música. Gostava tanto de cantar que viajou para o Pará e para a Venezuela, em plena Segunda Guerra Mundial, para entreter os soldados. Em 1953, através de concurso, ela ingressou no Coral do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde ficou por 30 anos. No início da década de 50, costumava nadar à noite na praia de Copacabana. "Eu chegava do Municipal por volta das 20h, vestia meu maiô e ia para a praia", diz. "Certa vez, encontrei com o Sílvio Caldas dentro d'água e nadamos juntos."

Somente aos 72 anos Norma Geraldy entrou para a tevê. Sua primeira novela foi Te Contei, em 1979, na Rede Globo. Mas seu grande sucesso veio em seguida, com a Tia Mena, de O Jogo da Vida. Foi nos anos 80 que ela virou funcionária da emissora. Recentemente, Norma fez uma participação no seriado Mulher, depois de atuar em Por Amor. Seu currículo é recheado de outras tramas de sucesso, como Sol de Verão, Vereda Tropical, A Gata Comeu e O Salvador da Pátria. "Gosto muito de viver e, como disposição e alegria não me faltam, não penso em parar de trabalhar", diz. Hoje, ela sempre prepara textos ou poemas para ler na Igreja Nossa Senhora da Ressurreição, em Copacabana, que costuma freqüentar. "Testemunhei muita coisa e queria registrar de alguma forma", explica.

Envie esta página para um amigoNa ditadura militar, ela se recorda de ter escapado de um tiroteio na Avenida Rio Branco, onde passeava com o filho. "Corremos para o antigo Café Nice e nos escondemos debaixo das mesas", recorda a atriz, que comemora seu aniversário duas vezes por ano. "Nasci no dia 21 de dezembro, mas meu pai só me registrou no dia 30 ", conta.

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