|
Música
A beijoqueira
embala a folia
Gil emagreceu dez quilos para cantar na Banda
Beijo, lançou a moda dos cocós e agora ensaia carreira-solo
Gerson de Faria
| Foto: Fábio
Domingues |
 |
O papo começou
com uma brincadeira inocente no sofá do programa da Xuxa:
"Quem você gostaria de beijar?", perguntou a apresentadora.
"O Luciano Szafir. Acho ele o máximo", respondeu
Gil, 24 anos, referindo-se ao ex-namorado e pai da filha da entrevistadora.
Para todos os efeitos, foi como uma cantada em rede nacional. Teve
até empresário intermediando ligações
celulares entre os dois na ponte telefônica Rio-Salvador.
Em seguida, veio o toque que faltava para a história ganhar
uma moldura. Na micareta de Recife, em outubro, no camarote oficial
da festa, recheado de globais, o cantor Netinho, com auxílio
de uma empilhadeira usada pelos blocos de trio para ganhar mobilidade
nos desfiles, ergue a cantora nos braços e a leva até
o parapeito do camarote: "É sua, Szafir!" O dublê
de ator e empresário chegou a amarelar diante dos lábios
de Gil e só correspondeu ao beijo sob pressão da galera,
que gritava: "Tu é gay!". A seqüência
foi constrangedora para Szafir, mas gloriosa para Gilmelândia
Palmira dos Santos. "Foi só uma brincadeira", ela
explica.
Faz pouco mais
de um ano que Gil apareceu na cena axé. Veio como a nova
vocalista da banda Beijo, que Netinho havia decidido tirar do limbo
onde estava jogada depois de uma disputa judicial. Empresário
da folia, ele assumiu o negócio e providenciou tudo a toque
de caixa: o tempo de ensaiar, de gravar o CD e de subir no trio
elétrico. Na mosca: "Peraê", uma das faixas
do disco, estourou como um dos três hits do Carnaval de 1999
e projetou a venda do CD para a marca das 350 mil cópias.
Uma nova diva do gênero pintava nas paradas.
Nesse meio tempo,
a vida de Gil deu uma guinada. Ela deixou a periferia de Salvador
e foi morar num apartamento alugado num bairro nobre da cidade.
"Ganho num show o que antes levava um ano para ganhar",
diz ela. Gil foi descoberta cantando enquanto lavava roupa no quintal
de casa. Tinha 15 anos. O caça-talento Tom Caldas, na época
um trintão, convenceu-a a se mandar com ele para um show
no interior da Bahia. Fez dela sua mulher e parceira numa dupla
para se apresentar na noite com repertório que incluía
de Reginaldo Rossi a Djavan. O relacionamento acabou pouco antes
dela entrar para a banda.
Para que Gilmelândia
se transformasse em Gil, uma maquiagem transformadora foi operada.
A cantora ganhou tops e calças de cintura baixa. Perdeu dez
quilos. Adotou tatuagens temporárias nos braços e
cocós nos cabelos (birotes feitos com auxílio de fios
de arame), que se tornaram uma marca registrada. O visual chegou
a ser condenado por consultoras de moda, o pessoal da banda torceu
o nariz e ela própria achou um horror. Mas, diz, Xuxa aprovou
e agora é como se não pudesse mais se separar da criatura.
Comprovou isso na micareta de Aracaju. "A meninada toda de
cocó na cabeça gritava querendo saber por que eu estava
sem os meus", conta. Gil emprestou novo estilo à banda.
Os shows ganharam um gás de aeróbica. O pique da cantora
é garantido por um personal trainer. Ela só não
conseguiu manter a silhueta prevista: dos dez quilos que perdeu,
já recuperou sete. Já para os cocós e os beijos
em cena ela prevê uma sobrevida de pelo menos uma temporada.
"Não iriam me reconhecer sem eles."
Em
2001, Gil engata carreira-solo. A decisão, tomada pelos empresários
e a gravadora Universal, foi divulgada há meses. O novo CD
da banda, com lançamento previsto para a primeira quinzena
de janeiro, leva o sugestivo nome de Meu Nome é Gil. A cantora,
porém, é reticente quanto à idéia, temendo
mexer em "um time que está ganhando". "Tudo
o que eu sonhei na vida foi ter um grupo e cantar as coisas que
eu gosto." O quê? "Música romântica,
coisas de Marisa Monte. Marisa é tudo pra mim", diz.
Enquanto o dia não chega, Gil mantém suas fichas no
sonho, mas não descarta a hipótese de estar vivendo
uma bolinha de sabão. "Se der tudo para trás,
é porque estava escrito assim. Mas quero agarrar essa chance."
Há quem ache que não há ilusão nenhuma.
A acelerada "Venha", que puxa o novo CD, já martela
nas rádios e é aposta para o Carnaval de 2000.
|