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Reportagens

22/12/2003

   
 
O beijo emocionado no instrumento que lhe deu fama ao término da execução do Hino Nacional Brasileiro no concerto em São Paulo
“Meu pai viveu até
os 102 anos. Tenho pela frente mais uns 40. É como se eu estivesse com meus 20 anos, começando tudo de novo”

João Carlos Martins
 
Personalidades
do ano 2003
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Sérgio Britto
João Carlos Martins

 

Personalidade do ano 2003 / Cultura
João Carlos Martins
Por causa da perda dos movimentos das mãos, o maior intérprete mundial de Bach é obrigado a abandonar o piano e recomeçar como regente

Texto: Eliane Trindade
Fotos: Wellington Cerqueira

 
O pianista convertido em maestro continua brincando com o piano de cauda na sala de casa, usando cinco dedos: dois polegares, dois indicadores e o anular da mão direita. “Se sobrar apenas o dedão, vou continuar tocando”, diz ele, que começou um caso de amor com o instrumento aos 8 anos de idade

Foram nove minutos de tirar o fôlego. Na noite de 17 de novembro, a platéia que lotou a Sala São Paulo, na capital paulista, foi brindada com um espetáculo único. No palco, as mãos disformes do pianista João Carlos Martins passeavam pelo teclado com a paixão que o consagrou como um dos maiores intérpretes do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750). Com apenas cinco dedos – dois polegares, dois indicadores e o anular da mão direita – e num esforço comovente, o homenageado da noite se despediu do instrumento que lhe deu notoriedade tocando duas peças do americano Chris Brubeck baseadas em prelúdios de Bach, compatíveis com as suas limitações físicas. “Foi um esforço terrível, mas ele inventou um jeito de tocar mesmo quando os dedos não articulam mais”, surpreende-se o maestro Júlio Medaglia, que foi coadjuvante do espetáculo em que viu o amigo e grande pianista se converter em maestro. Com entusiasmo de iniciante, apesar de ter no currículo feitos como ser o único a gravar a obra completa de Bach, aos 63 anos Martins assumiu o posto em frente à orquestra para reger o Concerto de Brandenburgo Número 3. Dispensou a batuta. Não conseguiria segurá-la entre os dedos enrijecidos.

Martins regeu com corpo e alma, na condição de aprendiz.
O pianista começou a estudar regência há quatro meses. “Ainda não posso ser chamado de maestro”, apressa-se em dizer. “Estou pegando dicas até com guarda de trânsito”, brinca ele, que acorda às 6 horas e fica até as 9h30 aprendendo os códigos do novo ofício, tarefa facilitada
pelo vasto conhecimento musical. Sabe de cor 400 composições de Bach, mas escolheu para sua despedida pública como pianista o Hino Nacional Brasileiro, tocado como um acalanto ao final do concerto na Sala São Paulo. A performance foi capaz de tocar homens de concreto como o empresário Antônio Ermírio de Moraes. “Fui dominado por uma inusitada alegria ao assistir à metamorfose de um grande pianista em um magnífico maestro”, emocionou-se o empresário. Após o último acorde do Hino Nacional, Martins fechou e beijou o piano, em sinal de agradecimento ao instrumento que tantas glórias lhe deu.

Ao som do acorde final lhe passaram pela memória flashes
de momentos mágicos como sua estréia no Carnegie Hall
aos 20 anos, a convite de Eleanor Roosevelt, ex-primeira-dama dos Estados Unidos. Despontando como virtuose, o jovem brasileiro escrevia os primeiros capítulos de uma biografia que misturaria lances espetaculares e trágicos. Entre os primeiros, o de poder contar para os quatro filhos e três netos que tocou numa mesma semana para o líder cubano Fidel Castro e para o presidente dos Estados
Unidos, John Kennedy, bem no auge da Guerra Fria. Era
abril de 1961. “Toquei para Fidel e peguei o último avião
que saiu de Havana para Miami”, recorda-se. Desembarcou em solo americano no dia 17 de abril, a data da desastrosa operação militar de invasão da Baía dos Porcos, que re-
sultou no rompimento de relações diplomáticas entre os dois países. Quatro dias depois, apresentava-se na inauguração do Festival Interamericano de Música, em Washington, presidido pela então primeira-dama Jacqueline Kennedy. Como o presidente se atrasou para o concerto, Martins
foi convidado a tocar um número para o convidado de
honra durante a recepção.

Cinco anos depois, o brasileiro começaria a viver o drama que decretou duas longas paradas em sua carreira e, por fim, a interrupção definitiva de sua história de amor com o piano. “Dos 18 aos 26 anos, minha vida parecia que ia ser só sonho”, pontua ele, para em seguida contar o primeiro pesadelo. Era verão de 1965 em Nova York e aceitou o convite para treinar com o time da Portuguesa, que estava em turnê nos Estados Unidos com apenas 18 jogadores. “Completei um dos times no treino no Central Park, mas acabei caindo e uma pedra entrou no meu braço, na altura do cotovelo, dando início ao meu calvário”, conta Martins, que teve o nervo cubital atingido na queda. Daí por diante, passou a entrar em campo para jogar pelada com os amigos munido de luvas de boxe, outra paixão. Mas a precaução chegou tarde. A lesão no nervo e os problemas com a mão direita o fizeram abandonar a carreira pela primeira vez em 1970. “Parei por frustração, não tinha coragem de entrar numa sala de concerto. Queria apagar aquilo da minha
vida”, relata. O descompasso entre sua condição técnica
e a física resultou numa pausa de sete anos, quando
decidiu trabalhar no mercado financeiro.

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