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24/11/2003

   
 
Reprodução
Fotos: Claudio Gatti
O advogado Ari Friedenbach e a filha Liana: “Talvez ela esteja em uma espécie de uma ante-sala do céu, recebendo energias e se fortalecendo”

 

Drama
A dor dos pais
Advogado e enfermeira que tiveram os filhos assassinados expõem suas revoltas

Fábio Farah

 

Tudo começou com uma brincadeira no pátio do Colégio
São Luiz, um dos mais tradicionais de São Paulo. O adolescente Felipe Silva Caffé, 19 anos, aproximou-se
de Liana Friedenbach, 16, e disse: “Você é muito bonita. Quer namorar comigo?”. No final de outubro, dois meses depois, os dois namorados mentiram para os pais e foram acampar em um sítio abandonado de Embu-Guaçu, na região metropolitana de São Paulo. O conto de fadas virou pesadelo quando, nas palavras do advogado Ari Friedenbach, pai de Liana, o demônio cruzou na frente do caminho da filha, na forma de cinco criminosos: Paulo Cézar da Silva Marques – o Pernambuco –, 32 anos, Agnaldo Pires, 41, Antônio Caetano da Silva, 50, Antônio Matias de Barros, 48, e Champinha, o menor de 16 anos que liderou o bando. A mãe de Felipe acredita que o destino dos dois já estava traçado por Deus. O de seu filho foi morrer com um tiro na nuca no domingo 2. O de Liana, ser esfaqueada no mínimo quinze vezes, depois de ter sido abusada sexualmente por três dos criminosos e morrer na quarta-feira 5.

"Não tive coragem de abrir a porta
do quarto da Liana"

Ari Friedenbach, 49 anos, advogado


O advogado não quis saber detalhes do assassinato da
filha e incumbiu um amigo de reconhecer o corpo da adolescente. Ari recebeu uma ligação da novelista Glória Perez e pretende iniciar uma mobilização nacional para discutir a questão da maioridade penal.

Qual será a luta do senhor daqui para frente?
Quero fazer valer a vida da Liana. Não deve haver limite
de idade para crimes hediondos. Esse monstrinho que
matou minha filha está rindo da cara da polícia, sabendo
que não vai acontecer nada com ele. Está rindo de nós todos. Está rindo da minha filha.

O que o senhor acha que deveria acontecer
com os criminosos?

O ideal seria a prisão perpétua, que não existe aqui. Apesar de a pena de morte ser defensável na religião judaica, ofende profundamente outras religiões. Por isso é uma discussão estéril e não deve ser levada adiante.

Qual foi o ritual judaico de despedida?
Depois do enterro, ficamos por luto durante sete dias.
Nesse tempo houve, em casa, rezas de manhã e à noite. Também estou deixando crescer a barba porque na religião judaica o homem de luto não deve aparar a barba por 30 dias. Depois há uma cerimônia no cemitério. Até lá estarei bem pior, psicologicamente.

Acompanhou os detalhes da investigação?
Não quero ver esses caras (criminosos). Não sei o que
pode dar em mim se eu olhar para eles. Não quero saber
os detalhes do crime, não li, não quero ouvir. Se fecho os olhos e penso nisso, me sinto mal. Fico angustiado, choro. Não tenho muita noção da amplitude do que ocorreu. Sei pelas ligações de todo o Brasil que recebo. Ainda não
abri o porta-malas do carro onde estão as coisas dela, encontradas no acampamento, nem tive coragem de abrir a porta do quarto da Liana.

Como a preocupação com a violência se refletia
em sua relação com a Liana?

Meus amigos tiravam sarro da minha cara porque ela
ligava para mim várias vezes por dia. Eu a controlava
pelo celular numa boa e ela não se incomodava. Nas
baladas de madrugada eu fazia questão de buscá-la,
não importava o horário. Minha filha deu o azar de cruzar com o demônio na frente.

O senhor a teria deixado acampar com o Felipe?
Evidente que não a deixaria acampar, principalmente num lugar extremamente perigoso, de alta criminalidade.

Como era a relação da família com o Felipe?
Ele fazia minha filha feliz, era o que importava. Uma vez ela perguntou: “Você não quer que eu namore o Felipe?”. Disse: “Quero que o traga aqui”. Não estava preocupado com a diferença social. Falei para a Liana que achava legal ela conhecer uma pessoa de outro nível social para saber que o mundo não era a bolha em que vivia.

Onde o senhor acha que a Liana está agora?
Segundo o espiritismo, em que acredito bastante, talvez
ela esteja em uma espécie de hospital espiritual, uma ante-sala do céu, recebendo energias e se fortalecendo. Não dá para acreditar que a vida é só isso aqui.

Que momento dela ficará com o senhor?
O riso. Foram 16 anos de muita alegria. Uma semana antes da tragédia, tínhamos viajado e foi uma grande despedida. Fomos para Monte Verde. Foi superlegal. Eu me lembro da gente patinando no gelo. É uma pessoa que me deixa só alegria, uma amizade. Vai fazer uma falta.

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