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“Ela
é a Fernanda Montenegro
do ano 2000. É a jovem atriz mais completa que já vi”, diz Jayme
Monjardim, diretor de Olga e
de A Casa das Sete Mulheres |
As mãos
de Camila Morgado, 28 anos, não param. Se não estão
em movimento à sua frente enquanto ela fala, alisam sua cabeça,
num gesto que se repete à exaustão. Parecem não
acreditar que uma fina penugem já começa a aparecer.
Aos poucos, a atriz vai dando adeus ao visual careca adotado para
rodar seu primeiro longa Olga, dirigido por Jayme Monjardim,
em que vive a comunista Olga Benário, morta num campo de concentração
nazista. Porém, ela precisará de mais tempo para se
despedir totalmente da personagem. Quinze dias depois do fim das filmagens,
Camila ainda fala dela com paixão. E tem vivas na memória
as lembranças do quanto sofreu para desempenhar o papel. Principalmente
quando precisou fazer uma dieta radical para as últimas cenas
da produção. Perder sete quilos foi uma árdua
tarefa para quem pesava apenas 52 quilos com 1,69m de altura.
Foram
dias de fome, tonteiras e insônia. “Achei que fosse
enlouquecer, foi uma tortura terrível”, conta ela.
“Fiquei
mal-humorada, desequilibrada, chorava muito. Tinha dificuldades
até para decorar o texto.” Antes da dieta, a
atriz teve que enfrentar uma pesada rotina de preparação
física para interpretar a fase guerrilheira de Olga. Treinamento
militar, musculação, curso de defesa pessoal. “Ela
é muito dedicada e está sempre disponível para
enfren-
tar grandes desafios. Isso é o que procuro numa atriz”,
diz Jayme Monjardim. O esforço de Camila, no entanto, virou
prazer quando começou a fazer aulas de tiro. “Fiquei
encantada, só queria saber de atirar, atirar, atirar. Aprendi
tudo sobre pistolas e revólveres.”
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Chegar
aos 45 quilos foi
um sacrifício. “Fiquei mal-
humorada, desequilibrada, chorava muito. Tinha dificuldades
até para decorar o texto” |
Para
a atriz, o processo de caracterização foi como um
ritual de iniciação. “Ter raspado a cabeça
não foi por acaso. Foi a conclusão do ritual, como
acontece no candomblé.” Ela, que nunca havia se arriscado
num corte tão radical, está se achando mais bonita.
Até gostaria
de continuar careca mas, para não ter problemas em futuros
trabalhos, quer manter os cabelos bem curtos e pretos. Nada parecido
com as madeixas ruivas até a cintura, imagem que o público
guardou dela por causa de Manuela, sua personagem em A Casa das
Sete Mulheres. A estréia
na tevê, e logo como protagonista, foi responsabilidade também
de Monjardim. “Ele foi um louco de ter apostado tão
alto em mim. Ainda bem”, brinca Camila.
O
diretor discorda. Desde que a viu na peça Mamãe
Não Pode Saber, ano passado, teve a certeza de que estava
diante de um grande talento. “Ela é a Fernanda Montenegro
do ano 2000. É a jovem atriz mais completa que já
vi.” Mas Camila entrega que, no primeiro dia de gravação
da minissérie, o diretor estava tão apreensivo quanto
ela, embora tentasse disfarçar. “Já eu não
consegui. Até o texto esqueci, não tinha controle
do meu corpo”, conta a atriz, que teve que repetir a primeira
cena 27 vezes. “Foi catastrófico. Eu chorava e pensava:
‘Sou horrível!’.” Com a ajuda de Monjardim,
ela se recuperou e tornou-se a revelação da minissérie.
Nascia aí uma nova parceria. Os dois estabeleceram uma relação
de confiança, que ainda não extrapolou os sets por
falta de tempo. “Nos conhecemos tanto que só falta
sermos amigos”, diz ela.
Antes
de Monjardim, Camila foi pupila de Gerald Thomas. Formada pela Casa
de Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio, entrou para a companhia do
diretor, em 1998, depois de um ano no grupo de Antunes Filho. Ao
falar de Gerald, ela destaca que, além de polêmico,
o diretor é muito sedutor. “Eu era seduzida por ele
e ele por mim. Mas nunca concretizamos nada, resolvíamos
no trabalho”, diz a atriz, que na época estava casada
com o produtor Magno Azevedo. Ela conta que os muitos questionamentos
propostos pelo diretor foram importantes para sua formação,
mas admite que era difícil trabalhar com esse método.
“Chega um ponto em que o trabalho começa a ficar cheio
de desconfianças, o colega com quem você contracena
começa a desconfiar de você. Tudo vira uma conspiração.”
Confusa,
Camila preferiu deixar a companhia no início de 2002. A fase
difícil coincidiu com o fim do casamento com Magno, que já
durava três anos. Desempregada, passou por uma crise e chegou
a duvidar de seu talento como atriz. Pensou estudar direção
em Londres, mas o convite para atuar em Mamãe Não
Pode Saber mudou seus planos. E o sucesso de A Casa das Sete
Mulheres trouxe o reconhecimento de que ela precisava para voltar
a acreditar em si. Com o fim das filmagens de Olga, que tem estréia
prevista para meados de 2004, o desemprego está de volta,
uma vez que ela não renovou contrato com a Globo. Enquanto
o próximo trabalho não vem, ela – que continua
solteira – se divide entre o apartamento no Jardim Botânico,
zona sul do Rio, no qual mora com uma amiga, e as viagens a Petrópolis,
sua cidade natal, para visitar os pais.
Agradecimento:
Jardim Botânico do Rio;
Maquiagem: Silvia Santana
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