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10/11/2003

   
 
Divulgação
Olga é o primeiro longa da atriz, que foi revelada em A Casa das Sete Mulheres. De tão nervosa, ela repetiu a primeira cena na minissérie 27 vezes
Fotos: Divulgação
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Cinema
Na pele de Olga Benário
Para estrelar o filme, a atriz Camila Morgado fez treinamento militar, musculação, defesa pessoal, teve de raspar a cabeça e perder 7 dos 52 quilos

Carla Felícia

 
Leandro Pimentel
“Ela é a Fernanda Montenegro
do ano 2000. É a jovem atriz mais completa que já vi”, diz Jayme
Monjardim, diretor de Olga e
de A Casa das Sete Mulheres
As mãos de Camila Morgado, 28 anos, não param. Se não estão em movimento à sua frente enquanto ela fala, alisam sua cabeça, num gesto que se repete à exaustão. Parecem não acreditar que uma fina penugem já começa a aparecer. Aos poucos, a atriz vai dando adeus ao visual careca adotado para rodar seu primeiro longa Olga, dirigido por Jayme Monjardim, em que vive a comunista Olga Benário, morta num campo de concentração nazista. Porém, ela precisará de mais tempo para se despedir totalmente da personagem. Quinze dias depois do fim das filmagens, Camila ainda fala dela com paixão. E tem vivas na memória as lembranças do quanto sofreu para desempenhar o papel. Principalmente quando precisou fazer uma dieta radical para as últimas cenas da produção. Perder sete quilos foi uma árdua tarefa para quem pesava apenas 52 quilos com 1,69m de altura.

Foram dias de fome, tonteiras e insônia. “Achei que fosse enlouquecer, foi uma tortura terrível”, conta ela. “Fiquei
mal-humorada, desequilibrada, chorava muito. Tinha dificuldades até para decorar o texto.” Antes da dieta, a
atriz teve que enfrentar uma pesada rotina de preparação física para interpretar a fase guerrilheira de Olga. Treinamento militar, musculação, curso de defesa pessoal. “Ela é muito dedicada e está sempre disponível para enfren-
tar grandes desafios. Isso é o que procuro numa atriz”, diz Jayme Monjardim. O esforço de Camila, no entanto, virou prazer quando começou a fazer aulas de tiro. “Fiquei encantada, só queria saber de atirar, atirar, atirar. Aprendi tudo sobre pistolas e revólveres.”

Leandro Pimentel
Chegar aos 45 quilos foi
um sacrifício. “Fiquei mal-
humorada, desequilibrada, chorava muito. Tinha dificuldades
até para decorar o texto”

Para a atriz, o processo de caracterização foi como um ritual de iniciação. “Ter raspado a cabeça não foi por acaso. Foi a conclusão do ritual, como acontece no candomblé.” Ela, que nunca havia se arriscado num corte tão radical, está se achando mais bonita. Até gostaria
de continuar careca mas, para não ter problemas em futuros trabalhos, quer manter os cabelos bem curtos e pretos. Nada parecido com as madeixas ruivas até a cintura, imagem que o público guardou dela por causa de Manuela, sua personagem em A Casa das Sete Mulheres. A estréia
na tevê, e logo como protagonista, foi responsabilidade também de Monjardim. “Ele foi um louco de ter apostado tão alto em mim. Ainda bem”, brinca Camila.

O diretor discorda. Desde que a viu na peça Mamãe Não Pode Saber, ano passado, teve a certeza de que estava diante de um grande talento. “Ela é a Fernanda Montenegro do ano 2000. É a jovem atriz mais completa que já vi.” Mas Camila entrega que, no primeiro dia de gravação da minissérie, o diretor estava tão apreensivo quanto ela, embora tentasse disfarçar. “Já eu não consegui. Até o texto esqueci, não tinha controle do meu corpo”, conta a atriz, que teve que repetir a primeira cena 27 vezes. “Foi catastrófico. Eu chorava e pensava: ‘Sou horrível!’.” Com a ajuda de Monjardim, ela se recuperou e tornou-se a revelação da minissérie. Nascia aí uma nova parceria. Os dois estabeleceram uma relação de confiança, que ainda não extrapolou os sets por falta de tempo. “Nos conhecemos tanto que só falta sermos amigos”, diz ela.

Antes de Monjardim, Camila foi pupila de Gerald Thomas. Formada pela Casa de Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio, entrou para a companhia do diretor, em 1998, depois de um ano no grupo de Antunes Filho. Ao falar de Gerald, ela destaca que, além de polêmico, o diretor é muito sedutor. “Eu era seduzida por ele e ele por mim. Mas nunca concretizamos nada, resolvíamos no trabalho”, diz a atriz, que na época estava casada com o produtor Magno Azevedo. Ela conta que os muitos questionamentos propostos pelo diretor foram importantes para sua formação, mas admite que era difícil trabalhar com esse método. “Chega um ponto em que o trabalho começa a ficar cheio de desconfianças, o colega com quem você contracena começa a desconfiar de você. Tudo vira uma conspiração.”

Confusa, Camila preferiu deixar a companhia no início de 2002. A fase difícil coincidiu com o fim do casamento com Magno, que já durava três anos. Desempregada, passou por uma crise e chegou a duvidar de seu talento como atriz. Pensou estudar direção em Londres, mas o convite para atuar em Mamãe Não Pode Saber mudou seus planos. E o sucesso de A Casa das Sete Mulheres trouxe o reconhecimento de que ela precisava para voltar a acreditar em si. Com o fim das filmagens de Olga, que tem estréia prevista para meados de 2004, o desemprego está de volta, uma vez que ela não renovou contrato com a Globo. Enquanto o próximo trabalho não vem, ela – que continua solteira – se divide entre o apartamento no Jardim Botânico, zona sul do Rio, no qual mora com uma amiga, e as viagens a Petrópolis, sua cidade natal, para visitar os pais.

Agradecimento: Jardim Botânico do Rio;
Maquiagem: Silvia Santana
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