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Entrevista

10/11/2003

   
André Durão

“Enquanto os pais dos meus colegas saíam de manhã e voltavam à noite, ele ficava pintando em casa. Sentia vergonha de dizer aos colegas que ele era pintor”

“Foi fácil tomar a decisão de abrir loja em São Paulo. Aqui existem consumidores extremamente sofisticados, interessados nas coisas boas em geral”
CONTINUAÇÃO

Era difícil ser
filho de Portinari?

Como foi o reencontro com
seus pais?

 

João Candido Portinari
“Portinari era um nome
esmagador para mim”

O filho de Cândido Portinari comemora o centenário de nascimento do pintor e fala pela primeira vez da relação terna e difícil com seu pai

Fábio Farah

 
André Durão
“Meu pai era severo e exigente, mas tinha
uma ternura muito grande”, diz João

João Cândido Portinari, 64 anos, cresceu acompanhando o pai, o pintor Cândido Portinari, em visitas a galerias de arte ao redor do mundo. “Achava chatíssimo. Como lamentei mais tarde não ter aproveitado aquilo”, diz ele. Aos 40 anos, em visita ao Museu Van Gogh, na Holanda, ele teve a idéia de criar o Projeto Portinari, cujo objetivo é divulgar a obra do pintor, e percorreu mais de vinte países catalogando as obras do pai. Para ele, um dos pontos altos da celebração deste ano de centenário do nascimento de Portinari, nascido em 30 de dezembro de 1903, será a inauguração da exposição Portinari Pintor da Paz, no Palácio do Itamaraty, em Brasília, dia 19 de novembro. Matemático com doutorado em engenharia de telecomunicações, João é pai de três filhos e identifica na caçula Maria Cândida, de sete anos, o gene artístico. “Ela é uma grande desenhista”, diz ele.

Quando descobriu que tinha um pai pintor?
Aos 8 ou 9 anos perguntei para minha mãe porque meu pai não trabalhava. Ela disse: “Como não trabalha?” Respondi: “Ele fica aí, pintando o dia todo”. Enquanto os pais dos meus colegas saíam de manhã, iam para seus escritórios e voltavam à noite, ele ficava pintando em casa. Eu não tinha idéia do que era isso e sentia um pouco de vergonha de dizer aos colegas que ele era pintor. Como se fosse uma coisa meio pejorativa, meio boêmia, embora ele fosse o oposto de um boêmio.

Como Portinari era como pai?
Severo e exigente – e essa exigência começava por ele próprio –, mas tinha uma ternura muito grande. Nas fotografias de infância estou sempre pendurado no pescoço dele. Me lembro da mão dele na minha testa quando eu ficava doente. É uma lembrança muito forte, muito nítida. Eu não sabia ainda o tamanho e o poder daquela mão.

Ele era brincalhão?
À noite ele me contava uma história que não acabava nunca. Não lia livro nenhum, ele mesmo inventava. Era a história do canela de vidro: um artista de circo – acho que era trapezista –, que sofre um acidente, quebra a perna e coloca vidro no lugar. Eu sempre esperava ansioso o capítulo seguinte.

Ele lhe incentivava a desenhar ou a pintar?
Ao contrário. Ele achava que eu não deveria seguir esse caminho por uma razão prática. Dizia: “Você pode ser um engenheiro mais ou menos, um médico mais ou menos,
um advogado mais ou menos, mas se for um pintor mais ou menos, você morre de fome”. E minha paixão mesmo sempre foram as ciências exatas, a matemática. Desde pequeno
tinha essa inclinação.

O que ele achava disso?
Embora não tivesse feito curso formal – estudou até o terceiro ano do ensino fundamental –, ele era muito inteligente, curioso e consciente. Tinha fascínio pela ciência, Einstein, astronomia. Era uma coisa quase mística. Muito cedo ele me deu um microscópio e, quando eu entrava em uma livraria, saía com um carregamento de livros.

Quem freqüentava a casa de vocês no Rio?
As macarronadas que minha mãe fazia reuniam facilmente 30, 40, 50 pessoas. Entrava e saía gente o tempo todo. Os amigos dele eram pessoas fascinantes, como Manoel Bandeira, Graciliano Ramos, Villa-Lobos. Era a nata intelectual da época.

Como foi sua relação com seu pai na adolescência?
Entre os 16 e 17 anos comecei a achar o mundo da rua mais interessante do que minha casa. Eu morava no Leme, jogava futebol de praia, pegava jacaré e tinha minha turminha. Então passei a ter mais prazer na companhia desse pessoal e a não entender quem era aquele homem dentro da minha casa. Acho que ele ficou magoado de sentir que aquele carinho tão grande que tínhamos quando eu era criança havia se transformado em incompreensão e desconhecimento da minha parte.

Era difícil ser filho de Portinari?
A coisa mais difícil era a presença monumental daquele nome na minha vida. Na inauguração de suas exposições estavam, com freqüência, o presidente da República e toda a intelectualidade. Portinari era um nome esmagador para mim. Se eu fosse a alguma festa com três ou quatro colegas, na hora das apresentações as pessoas diziam: Esse é o Pedro, esse é o Carlos, esse é o José e esse é o filho do Portinari. Aquilo começou a me incomodar e com dezoito anos fui
embora do Brasil.

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