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Reportagens

03/11/2003

   
 
Edu Lopes
“Como não tinha experiência nem técnica, comecei a me transformar no personagem até fora do set. Tive sonhos eróticos com minhas amigas”, diz a atriz, que conviveu com transexuais e se masculinizou para
fazer o filme Tiresia

 

Cinema / Clara Choveaux
Cinderela brasileira em Paris
Atriz foi descoberta pelo diretor francês Bertrand Bonello num jantar em Paris e teve de usar barba e prótese peniana para interpretar um transexual em Tiresia, sua estréia no cinema

Mariane Morisawa

 
Edu Lopes
“Foi o cinema que veio até mim”, diz
Clara, que chora ao falar da oportunidade
dada pelo diretor Bertrand Bonello

A carruagem de Clara Choveaux não virou abóbora, mas um salto quebrado quase denuncia sua história de Gata Borralheira em plena escadaria do Palais du Festival, em Cannes, onde representaria o filme Tiresia, sua estréia como atriz. Vestida com um Armani emprestado, ela percebeu o problema a tempo de receber outro sapato. “Quase coloquei minha havaiana”, afirma a brasileira de 29 anos num hotel em São Paulo, onde Tiresia foi exibido na Mostra BR de Cinema.

Cannes foi a coroação da história de Cinderela que Clara viveu. Em 2000, ela se mudou de São Paulo para Paris, com 9.000 francos na mochila. “Queria me despedir de meu pai”, diz a atriz, filha de um francês. Ela não o via fazia anos, mas soube que ele estava muito doente. Logo que chegou, foi convidada por um tio para um jantar. Topou com o cineasta Bertrand Bonello, que não tinha vara de condão, mas quase. De cara, ele a convidou para uma figuração no filme O Pornógrafo. Findas as filmagens, o diretor garantiu que ligaria quando fizesse Tiresia. “Não achei que Bertrand fosse realmente me chamar”, diz ela, que trabalhou em restaurantes como hostess e garçonete – largou o emprego no badalado Favela Chic há algumas semanas. Dois anos depois, o telefone tocou, era Bertrand. Ele queria que a brasileira fosse testada para o papel principal. “Sua figura ficou na minha cabeça. Foi seu rosto que me fez escolhê-
la”, explica o diretor. Clara emociona-se quando fala do cineasta. “A oportunidade que o Bertrand me deu... Foi um presente do céu” conta a atriz, entre lágrimas.

A brasileira nunca imaginou que isso pudesse acontecer. Nascida por acaso em Assunção, no Paraguai – o pai francês e a mãe brasileira haviam se mudado para lá para cultivar tomates –, ela veio com menos de um ano para o Brasil. Morou no Amazonas
e no Rio, até ir viver com a mãe e o irmão em Curitiba, quando seus pais já haviam se separado. Depois de rápida passagem por Los Angeles quando adolescente, mudou-
se para São Paulo e virou modelo. “Considero que fui office-boy, carregando meu book para lá e para cá, e nada acontecendo”, conta. Depois de entrar na faculdade de sociologia, decidiu fazer teatro. “Sempre gostei do palco”,
diz Clara, que fez dez anos de balé, mas desistiu porque cresceu muito – mede mais de 1,80 metro. Um ano de
curso depois, chegou a hora de ir para a França.

PRÓTESE PENIANA Como nem tinha sido atriz no Brasil nem falava francês, nunca considerou a hipótese de atuar em Paris. “Foi o cinema que veio até mim”, diz ela. E num papel longe do fácil. Tiresia é um transexual brasileiro. Seqüestrado por um admirador, sem poder tomar seus hormônios, vai se transformando novamente em homem aos poucos. A fase masculina é vivida pelo paulistano Thiago Teles. Clara Choveaux teve de aparecer nua, usar barba e até uma prótese peniana. “Foi tudo difícil. Ou entrava de cabeça, ou entrava de cabeça”, diz. “Como não tinha experiência nem técnica, comecei a me transformar no personagem até fora do set”, conta ela. “Tive sonhos eróticos com minhas amigas”, diz Clara, que garante não ter experimentado colocar o sonho em prática. “Por falta de tempo e oportunidade!”, explica, às gargalhadas.

A transformação em homem foi assustadora. “O meu primeiro contato com a barba foi um horror. Vi meu irmão no espelho. Não conseguia me suportar”, diverte-se. Considera que isso foi ainda pior do que usar a prótese peniana. “No fundo, me ajudou, foi como uma máscara. Se eu ficasse nua sem a prótese, seria mais difícil”, diz. “E você sente a potência, menina!”, gargalha. Para a equipe, no entanto, foi péssimo. Todos ficavam constrangidos em pegar suas medidas. A primeira cena foi chocante. “Tirei o roupão e virei de frente. Houve um silêncio absurdo. Todo mundo ficou hipnotizado pela criatura”, ri. Como recordação, uma das próteses foi parar em sua casa e ganhou o apelido de Adolfo. “É o meu troféu”, afirma. Ela chama as amigas para ver o artefato, e sua companheira de apartamento quase morreu de vergonha quando o limpador de lareira o descobriu escondido no lugar.

A atriz não quer perder a espontaneidade e o frescor e por isso decidiu que não vai estudar teatro. Quer aprender fazendo. Rodou dois curtas-metragens e se prepara para participar de um longa no Rio de Janeiro, ao lado de Marília Pêra e dirigida por Jorge Fernando. “Vou voltar para o
Brasil, tenho certeza”, diz ela, cujo sonho agora é poder morar aqui e trabalhar também na França. Ainda mais
porque seu namorado, com quem retomou o relacionamento que dura onze anos, vive em São Paulo. Por enquanto,
o namoro continua à distância. Mas Cinderela quer se
juntar a seu príncipe logo.

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