Veja também outros sites:
Home •• Revista  
Entrevista

20/10/2003

   
Fotos: Claudio Gatti

“Me indispus com pessoas influentes dentro do sistema (fonográfico). Não quis entrar em certas sociedades para continuar a ser escalado (para eventos musicais)”

CONTINUAÇÃO

Quando você descobriu que
gostava de cantar?

Você bebe, come
ou fuma mais?

 

Raimundo Fagner
“Fiz sucesso muito cedo
e fiquei sem chão”

O cantor lança CD com Zeca Baleiro, fala do período de ostracismo e conta que o envolvimento com a política o afastou do circuito musical

Rodrigo Cardoso

 
Fotos: Claudio Gatti

Solteiro e sem filhos, ele
tem quatro casas e cuida
de uma fundação para 150 crianças carentes

Ele gosta de gente, mas foge de multidão. Aprecia a beira de praia mais do que entrar no mar, pescar. Cearense, 54 anos, Raimundo Fagner acaba de lançar junto com o maranhense Zeca Baleiro, Raimundo Fagner & Zeca Baleiro, CD elogiado com inéditas composições. Solteiro e sem filhos, tem quatro casas, família, negócios e uma fundação para 150 crianças em Orós (CE), onde se criou, para cuidar. Filho de um engenheiro civil libanês, já falecido, e uma dona de casa com 92 anos, o cantor joga tênis e diz que nunca deixou de ser escalado nas peladas. Zico, com quem bate bola há 20 anos, tem costume de, assim que recebe a camisa dez, jogá-la no peito do amigo. “Mas tenho de mostrar serviço, porque ele paga esporro.”

O novo CD é uma enviesada na sua trajetória?
Gravei com mais de 90 artistas, mas pegar um cara, compor, tocar, cantar e fazer um disco junto, nunca havia feito. Vinha muito com o lado cantor, disco, retrospectiva. O CD e DVD Ao Vivo que lancei na Sony são marcantes e não tiveram a projeção que deveriam. A Sony não investiu. O CD Ao Vivo vendeu 500 mil cópias, mas deveria vender mais.

A parceria com Zeca Baleiro representa uma retomada
de um ânimo que andava esquecido?

Zeca canta, toca e escreve. Eu vinha só com parceiros. Letrista que mandava um trabalho e eu fazia a música. Era cômodo. Zeca é estimulante, mexeu com uma coisa meio adormecida. Foi uma retomada da criação. As nossas origens, as brigas, o papo são os mesmos. Zeca sou eu ontem.

Quando descobriu que gostava de cantar?
Ganhei um concurso numa rádio aos 6 anos. Passaram a me chamar para cantar, mas meu pai não queria. Desde cedo enfrento resistência! Da geração do Ceará, era o mais novo,
o mais bobo, o último em que apostavam. Tive de decidir
entre a faculdade e cantar. Minha estréia foi preocupante.
Fiz uma serenata no dia em que o Castello Branco (ex-presidente e cearense) morreu (1967). Na hora, passou um carro do Exército, os caras pararam. Foi um susto da p.,
mas os milicos viram que era um imbecil, que nem pela ignorância merecia um tapa.

Ser idolatrado foi um ideal de vida?
Todo artista quer ser uma referência. Fui surpreendido por estar sendo ídolo. Fui o último rebento em casa, vim muito paparicado de lá e cheguei no Rio paparicado também, apadrinhado por Chico, Elis, Vinícius. Em dois anos era o cara mais gravado. Bate uma coisa e você fica repetindo um papo e as frases de efeito atrapalham. Falar sempre atrapalha. Peco pela franqueza, é característica da minha família. Não vou me segurar para parecer bonitinho.

Seu pai era libanês. Alguma peculiaridade na criação?
Papai era osso duro, muito forte. Quando meu irmão Fares tinha 15 anos, papai o viu fumando e falou: “Se pegar você fumando de novo, corto-lhe os dois dedos da mão”. E realmente pegou. Aí, chamou-o de canto e começou a amolar uma faca na frente dele. Fares fugiu, ficou uma semana fora. Papai chegou aqui com 20 anos. Foi cantor de rádio no Líbano, mas só soube quando ele estava para morrer. Papai era calado, o papo era curto. A colônia libanesa do Ceará fez um vídeo, há seis anos, sobre os libaneses de lá e papai era o mais idoso. Ele deu um depoimento, a produção o sugou muito, fizeram-no cantar. Fez um grande desabafo. Minha mãe diz que, depois que saiu dali, teve uma febre muito grande e nunca mais a saúde esteve em ordem. Chorei muito quando vi aquilo. Não conhecia aquele pai.

Você conhecia mais o lado severo.
Só levei duas dele: uma cintada com uma fivela, que não chegou a me alcançar, e uma tapa, que até hoje escuto o zunido (risos). Mas a história mais doida que vivi com ele foi outra. Tinha um irmão de papai, o João, que nunca aprendeu o português e esqueceu o árabe (risos) e morou numa cidade próxima de Orós. Ele vivia numa rede, no interior, tinha a vida melhor do mundo, um monte de filhos e também não queria papo. Meu pai foi visitá-lo porque João estava para morrer. Chegamos lá na hora do almoço e, no final da tarde, os dois começaram a conversar: “Oi, Zé, os meninos tão querendo
que eu vá morrer lá em Fortaleza. O que você acha?” E meu pai: “Home, morra aqui mesmo. Aqui é mais barato, tu não
vai incomodar teus filhos, tu passou a vida aqui e não vai
nem se sentir bem morrendo lá”. Eu estava numa rede, ouvin-
do aquilo às cinco da tarde naquele sol do sertão, e digo:
“O que tô fazendo aqui?”.

1 | 2


Comente esta matéria
 

Clique para vê-la ampliada
EDIÇÃO 220
ENQUETE

Você acha que o
próximo Papa deve
ser um africano?

QUEM SOU EU?

BATOM E PERSONALIDADE

DANIELLE WINITS

 BUSCA

O PARCEIRO IDEAL

RESUMO DAS NOVELAS
Saiba o que vai acontecer durante a semana na sua
novela preferida
• Fale conosco
• Expediente
• Assinaturas
• Publicidade
 
| ISTOÉ | ISTOÉ DINHEIRO | PLANETA | EDIÇÕES ANTERIORES | ESPECIAIS |
| ASSINE A NEWSLETTER | ASSINATURAS | EXPEDIENTE | FALE CONOSCO | PUBLICIDADE | AVISO LEGAL
© Copyright 1999/2003 Editora Três