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Reportagens

13/10/2003

   
 
Robson de Freitas
Prensa Três
Em Paris a partir de 1967, Niemeyer conheceu o filósofo Jean-Paul Sartre, com quem só se reunia no apartamento dele porque o PCB não o via com bons olhos: “Sartre não era alinhado ao partido, mas apoiava os movimentos de esquerda”
Em 2002, Niemeyer foi enredo da Unidos de Vila Isabel: “Não imaginava que minha vida iria dar samba”

 

Gente Fora de Série
Oscar Niemeyer
Capítulo 4
A consagração mundial
Comunista histórico, com o golpe de 1964
Oscar Niemeyer teve seu escritório no Rio invadido, foi interrogado pela polícia e, por
isso, decidiu passar mais tempo no Exterior.
Em Paris, conviveu com o filósofo Jean-Paul Sartre. Só conheceu o presidente cubano
Fidel Castro em 1992, com 20 anos de atraso, porque morre de medo de avião

por Luís Edmundo Araújo

 

Resumo do capítulo 1, 2 e 3:
A paixão pelo futebol – que o levou a atuar num Fla-Flu – e o gosto pela boemia de Oscar Niemeyer deram lugar à vida profissional do arquiteto a partir de seu casamento com Annita Balbo. Formado em 1934, Niemeyer mesclava o início da carreira, ao lado de Lúcio Costa, com comícios do PCB. A projeção veio após conhecer Juscelino Kubitschek e fazer o bairro da Pampulha, em Belo Horizonte, e Brasília. Entre as duas obras, o arquiteto conheceu o líder comunista Luís Carlos Prestes e venceu o gênio Le Corbusier na disputa para projetar a sede da ONU. Mas o golpe militar de 1964 se encarregaria de levar momentos de tristeza à sua vida..

Brasília já tinha sido inaugurada havia três anos quando, antes de partir para uma temporada no Exterior, Oscar Niemeyer se encontrou com o amigo Darcy Ribeiro. Na despedida, foi saudado com otimismo pelo antropólogo, que não escondia a euforia com a linha de esquerda adotada pelo então presidente João Goulart. “Estamos no poder, Oscar”, saudou Darcy. Mas o ânimo durou pouco. O arquiteto ainda estava na Europa quando estourou a revolução que instaurou a ditadura militar no Brasil. Depois de passar um mês em Paris, Niemeyer recebeu em Lisboa a notícia do golpe, dias antes de partir para Israel, onde ficaria seis meses.

Hospedado no Hotel Victória, o arquiteto passou os últimos três dias na capital portuguesa com o ouvido colado ao rádio, na expectativa por qualquer boa notícia. Com a confirmação da queda de Jango, foi para Israel sem esconder a tristeza. Durante os seis meses em que trabalhou em Tel Aviv, recusou qualquer convite para festas. “Parecia-me que, aceitando os convites, estaria traindo aqueles que no Brasil enfrentavam a opressão e a violência”, justifica.

No Brasil, o escritório do arquiteto no Rio de Janeiro foi invadido e a revista Módulo, que Oscar fundara em 1955, deixou de circular. “Quebraram tudo. Quando voltei tive de prestar contas”, diz ele, que não chegou a ser preso, mas foi interrogado algumas vezes pelas forças da repressão. Em uma delas, numa pequena sala acolchoada e na companhia de um escrivão e um policial encarregado do interrogatório, Niemeyer não dispensou a ironia nas respostas.

– Senhor Niemeyer, o que vocês comunistas querem?
Mudar a sociedade? – perguntou o policial.
– Escreve aí, mudar a sociedade – respondeu o arquiteto, virando-se para o escrivão e provocando uma reação desanimada dos policiais.
– Vai ser difícil – disse o escrivão, com ar de desalento, ao policial que fazia as perguntas.

O interrogatório não passou disso, mas não devolveu a paz que o arquiteto precisava para trabalhar no Brasil. A solução, então, foi aumentar o número de projetos no Exterior, como o da Universidade de Constantine, na Argélia, em 1969, onde Niemeyer manteve o hábito de levar os amigos misturados com colegas de trabalho. “Tivemos de recrutar às pressas profissionais disponíveis para acompanhá-lo e montar um escritório lá, e todos, de preferência, tinham de ser amigos do Oscar”, diz João Filgueiras, que na época trabalhava com Niemeyer. Darcy Ribeiro apareceu e ficou uns meses por lá, junto com Luiz Hildebrando Pereira da Silva, médico do Instituto Pasteur (na França) que também nada tinha a ver com arquitetura. “Foi um tempo bom”, resume Niemeyer.

Feliz durante a estadia na África, Niemeyer pôde elaborar um de seus projetos prediletos. Sem a importância histórica de obras como Brasília e a sede da ONU, em Nova York, a Universidade de Constantine tem até hoje lugar reservado na memória do arquiteto. “O projeto não é bom porque é monumental, mas porque nele estabelecemos uma série de princípios. Ali reduzimos o número de prédios de vinte para sete, facilitando a circulação dos alunos e tornando a universidade mais versátil”, lembra.

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