 |
Luciano: experiência de quem
foi obeso até os 17 anos |
Dizer
que criança gordinha é criança saudável
é coisa do passado. Hoje é consenso que criança
saudável é aquela que está dentro do seu peso
e tem uma alimentação equilibrada. Sabemos que 80% das
crianças obesas se tornarão adultos obesos. E quanto
mais cedo essa obesidade se apresentar, mais doenças associadas
a ela vão surgir. Diabetes, hipertensão arterial, aumento
de colesterol e triglicérides levam a doenças do coração
e problemas ortopédicos. E, pasmem, a obesidade
está ligada até ao câncer.
Para
saber se seu filho está acima do peso, o médico irá
calcular o IMC (peso dividido pela altura ao quadrado) e aplicá-lo
a uma curva de crescimento. A obesidade infantil, além dos
problemas de saúde física, também traz distúrbios
psicológicos. A criança obesa é discriminada,
sofre com os apelidos que ganha, com traumas, frustrações,
ansiedade e até depressão. Essa experiência
é passada no livro Bolochinha: Guia de Emagrecimento e
Alimentação Saudável para Jovens e Crianças,
vivenciada por mim, que fui obeso até os 17 anos, quando
tomei a decisão de emagrecer. Nesse livro dou dicas para
os familiares e para as crianças gordinhas – e até
para as magrinhas – que só comem “porcarias”.
Por
isso, a reeducação alimentar está na ordem
do dia para todos que comem de forma irregular. Não é
fácil tratar da perda de peso em crianças e adolescentes.
Com a ajuda dos familiares, professores e amigos, porém,
o desafio fica menos difícil. É fundamental a conscientização
e a motivação dessas crianças para o sucesso
do tratamento. Não devemos sacrificar, reprimir ou esconder
situações. É possível ir às festas,
sair com os amigos, mantendo um controle satisfatório. O
método do tratamento psicossomático do Projeto Bolochinha
trata não somente a obesidade, mas a criança obesa,
sem tirar dela o prazer da alimentação. Deve-se mudar
o foco do prazer, deslocando-o da comida para a satisfação
de ter um corpo saudável.
Outro
fator importante é combater o sedentarismo. As crianças
estão cada dia mais paradas na frente do computador, videogame
e televisão. Com controles remotos
à mão, ficam sentadas e deitadas, acompanhadas por
saquinhos de salgadinhos, pipoca e refrigerantes. Devido à
violência urbana, os pais têm medo das ruas e os filhos
ficam condicionados aos pequenos apartamentos das gran-
des cidades. Além disso, hoje em dia, pai e mãe trabalham
fora. Os saudáveis passeios do parquinho ficaram resumidos
aos fins de semana e, muitas vezes, substituídos pelo engordativo
programa dos shoppings. Temos de incentivar a prática da
atividade física prazerosa e criativa. A atividade física
adequada depende da aptidão e da escolha da criança.
Exercitando-se com prazer, ela não abandona o esporte.
Familiares
e professores são responsáveis pela educação
alimentar das crianças. Nas cantinas, o lanche deve passar
por uma reformulação, com uma alimentação
menos calórica e mais saudável. Temos de pensar que
os maus hábitos alimentares associados ao sedentarismo estão
levando a uma epidemia de crianças obesas que, se não
tratadas, desenvolverão graves problemas físicos e
psicológicos.
Luciano
Negreiros é membro titular da Sociedade Brasileira
de Endocrinologia e Metabologia, da Associação Brasileira
de Medicina Psicossomática e autor do livro e do Projeto
Bolochinha (www.bolochinha.com.br)
|